A água tornou-se um ativo estratégico europeu, e a Comissão reuniu toda a cadeia de valor para o discutir
A 18 de junho, a Comissão Europeia convocou uma mesa-redonda de alto nível sobre Água e Economia Circular, reunindo em Bruxelas representantes da indústria, de empresas públicas de águas, de instituições de investigação, da sociedade civil e de organismos europeus. Presidida pela Comissária para o Ambiente, Resiliência Hídrica e Economia Circular Competitiva, Jessika Roswall, a reunião assinala um momento de maturidade num dossier que, há apenas um ano, praticamente não existia na agenda política europeia ao nível em que está hoje: a água deixou de ser tratada como um recurso ambiental isolado e passou a ser entendida como ativo estratégico, transversal à indústria, à energia e à segurança europeia.
O que distingue esta mesa-redonda de muitos outros encontros temáticos organizados pela Comissão Europeia é a amplitude deliberada dos participantes convocados. A reunião juntou plataformas de política e indústria da água, operadores públicos e empresas de serviços de águas, instituições de investigação e académicas, atores industriais, intervenientes na transição energética e industrial, representantes de PME e de associações empresariais, organizações ambientais não governamentais, intervenientes do sector agroalimentar, atores de reutilização e inovação da água, e organismos institucionais e consultivos europeus.
Esta composição reflete uma constatação que tem vindo a consolidar-se ao longo do último ano: a água não é um problema de um único sector, é um denominador comum que atravessa praticamente toda a economia europeia. As discussões da mesa-redonda centraram-se precisamente nesta multiplicidade de papéis que a água desempenha numa economia circular – como recurso crítico e cada vez mais escasso, como veículo de materiais recuperáveis, e como input habilitador para sistemas industriais, energéticos e de infraestrutura.
A Comissária Roswall sintetizou o argumento central da reunião numa frase que poderia funcionar como resumo de toda a transformação política em curso: construir uma economia inteligente em matéria de água é essencial para a resiliência, a competitividade e a segurança estratégica da Europa. A água não é apenas um recurso vital em si mesma – é também central para os sistemas industriais, para a transição energética e para as ambições de economia circular europeias.
Contexto: a Estratégia Europeia de Resiliência Hídrica
A mesa-redonda de 18 de junho não surge isolada – insere-se na implementação da Estratégia Europeia de Resiliência Hídrica, adotada pela Comissão a 4 de junho de 2025, exatamente um ano antes. A estratégia representa um marco na política europeia da água: pela primeira vez, um documento estratégico de topo da Comissão trata a água não apenas como uma questão de proteção ambiental, mas como uma questão de competitividade económica e de segurança estratégica de pleno direito.
A estratégia assenta em três objetivos centrais. O primeiro é restaurar e proteger o ciclo da água – melhorar o estado de rios, lagos, zonas húmidas e águas subterrâneas, combater a poluição e assegurar a implementação efetiva da Diretiva-Quadro da Água já existente. O segundo é fomentar uma economia inteligente em matéria de água – promover a eficiência e a reutilização da água em todos os sectores, modernizar infraestruturas, acelerar a inovação e a digitalização, com uma meta explícita de redução de 10% no consumo de água até 2030. O terceiro é garantir água limpa e acessível para todos – reforçar o acesso a água potável segura e a saneamento, promover soluções baseadas na natureza, e salvaguardar a água como bem público.
Os números que justificam esta elevação de prioridade política são significativos. A Europa é líder mundial em tecnologia da água, detendo 40% de todas as patentes globais no sector. A indústria europeia da água gera 107 mil milhões de euros e sustenta 1,7 milhões de empregos. E os poluentes altamente persistentes, como as substâncias PFAS, continuam a acumular-se nas águas europeias, com impactos na saúde estimados entre 52 e 84 mil milhões de euros anuais.
O Parlamento Europeu aprovou, a 7 de maio de 2025, uma resolução sobre a estratégia com 470 votos a favor, 81 contra e 92 abstenções – uma maioria expressiva que reflete um consenso transversal pouco habitual em matéria de política ambiental europeia. O Conselho da União Europeia adotou, a 21 de outubro de 2025, conclusões que saúdam a estratégia e sublinham a necessidade urgente de restaurar e proteger o ciclo da água como base do abastecimento hídrico e como garantia de maior resiliência face a fenómenos climáticos extremos relacionados com a água.
Água como recurso de materiais: o elo menos óbvio da economia circular
Um dos aspetos mais inovadores da forma como a Comissão está agora a enquadrar a água é a sua integração explícita na lógica da economia circular – não apenas como recurso a poupar, mas como veículo de materiais recuperáveis. Esta perspetiva, ainda pouco difundida fora dos círculos especializados, reconhece que as águas residuais municipais e industriais contêm nutrientes, metais e outros materiais com valor económico que, com a tecnologia adequada, podem ser extraídos e reintroduzidos na economia, em vez de serem simplesmente tratados e descartados.
Esta lógica está alinhada com o trabalho mais amplo da Comissão sobre o Circular Economy Act, que o GreenOcean já analisou em profundidade no contexto dos briefings da Agência Europeia do Ambiente publicados em maio. Esse conjunto de relatórios identificou a água como um dos sistemas centrais – a par da alimentação, da habitação e da mobilidade – onde medidas de circularidade têm maior potencial de reduzir o impacto climático e ambiental europeu. A mesa-redonda de 18 de junho pode ser lida como o momento em que esse potencial teórico começa a ser traduzido em diálogo concreto com os atores que terão de o implementar na prática.
A reutilização da água – tratada como prioridade da estratégia para além do seu uso tradicional na agricultura – é talvez a dimensão mais promissora desta integração. A água residual tratada é uma fonte válida para usos alternativos que vão além da irrigação agrícola, podendo ser reutilizada para fins industriais, urbanos – incluindo dentro de edifícios – e de lazer, especialmente quando o custo da reutilização da água é favorável face às alternativas. Para sectores industriais intensivos em água – desde a produção de papel à indústria têxtil, da agroindústria à produção de semicondutores – esta reutilização representa simultaneamente uma resposta à escassez hídrica crescente e uma oportunidade de redução de custos operacionais.
Água, energia e indústria: uma interdependência que a guerra no Irão tornou mais visível
Um dos temas que atravessou as discussões da mesa-redonda – e que tem ganho relevância crescente na política europeia ao longo de 2026 – é a interdependência entre água e energia. As reservas hídricas são simultaneamente recurso de abastecimento de água e infraestrutura crítica para a produção de energia hidroelétrica e para o arrefecimento de centrais térmicas e nucleares. A expansão de novas fontes de energia, como o hidrogénio verde, depende também de volumes significativos de água para a sua produção através de eletrólise.
Esta interdependência tornou-se particularmente visível durante a crise energética provocada pela guerra no Irão. Num contexto de volatilidade nos mercados globais de petróleo e gás, a segurança hídrica europeia ganhou uma dimensão de segurança energética que não tinha anteriormente: regiões com stress hídrico crescente enfrentam riscos acrescidos não apenas para a sua agricultura e abastecimento doméstico, mas também para a sua capacidade de gerar e armazenar energia.
Esta ligação é particularmente relevante para Portugal e para a Península Ibérica, identificadas pela investigação europeia como hotspots climáticos que já enfrentam riscos hídricos relacionados com o clima intensificados – secas, cheias e padrões de precipitação em mudança. Com o Super El Niño de 2026 a apontar para um verão excecionalmente quente e potencialmente seco na região, a discussão sobre resiliência hídrica em Bruxelas tem uma relevância prática imediata para o território português, que constitui, segundo a investigação académica citada pelo Real Instituto Elcano, uma das zonas-piloto potenciais para soluções de resiliência hídrica escaláveis que podem depois informar políticas noutras áreas climaticamente vulneráveis.
O que falta: da estratégia ao financiamento efetivo
Apesar do alinhamento político alargado em torno da Estratégia de Resiliência Hídrica, as análises independentes da sua implementação apontam para desafios estruturais que a mesa-redonda de 18 de junho não resolve, mas que enquadra o tipo de diálogo que vai continuar a ser necessário. A consultora Edelman Global Advisory observa que, apesar de a estratégia incluir mais de trinta ações, a maioria dirigida aos governos nacionais, a orientação prática para as empresas continua limitada – com a exceção notável de uma nova meta vinculativa de sustentabilidade para centros de dados, que poderá sinalizar regras sectoriais mais específicas no futuro.
A organização patronal europeia BusinessEurope, na sua reação formal à estratégia, saudou a ambição geral mas alertou para o risco de as metas de eficiência hídrica não terem em conta as diferenças substanciais na disponibilidade de água, nas infraestruturas e nos perfis industriais entre os Estados-membros – um aviso particularmente relevante para países como Portugal, onde o stress hídrico crónico em certas regiões pode tornar metas uniformes europeias mais difíceis de cumprir sem apoio financeiro e técnico adicional.
O financiamento continua a ser o ponto mais crítico. O Banco Europeu de Investimento comprometeu mais de 15 mil milhões de euros para 2025-2027 através do seu novo Programa da Água, e a proposta de um Acelerador de Investimento em Resiliência Hídrica está em desenvolvimento, mas análises independentes, incluindo a do Real Instituto Elcano, alertam que estas iniciativas, embora representem um progresso significativo, podem ainda ficar aquém do necessário para colmatar o défice de investimento em infraestruturas hídricas resilientes em toda a União.
Para Portugal, que enfrenta simultaneamente pressões de seca estrutural no sul e no interior e desafios de modernização da sua rede de distribuição de água – com perdas em algumas regiões ainda significativamente acima da média europeia -, a mesa-redonda de 18 de junho e a estratégia mais ampla que a sustenta representam tanto uma oportunidade de acesso a financiamento europeu como um sinal de que os critérios de elegibilidade e as prioridades de investimento vão privilegiar cada vez mais soluções que integrem eficiência hídrica, circularidade de materiais e resiliência climática numa única abordagem coerente. A água deixou de ser, na arquitetura política europeia, um tema sectorial isolado. Tornou-se o fio que liga a competitividade industrial, a segurança energética e a adaptação climática – e é exatamente assim que a Comissão Europeia, com esta mesa redonda, está agora a tratá-la.
Fonte: Comissão Europeia / Parlamento Europeu / Conselho da UE / Water Europe / BusinessEurope / Real Instituto Elcano

