Petrolíferas querem renováveis, mas os investimentos ficam muito aquém das palavras
As maiores petrolíferas do mundo definiram metas de energias renováveis. Publicam relatórios de sustentabilidade. Anunciam investimentos em hidrogénio, solar e eólico. Mas quando se analisam os números reais – o que é efetivamente investido em renováveis face ao que continua a ir para petróleo e gás -, a distância é enorme. Um novo relatório da GlobalData, Renewable Energy in Oil and Gas, documenta este paradoxo com precisão: o investimento em renováveis vai crescer, a geopolítica está a acelerar a diversificação, mas a abordagem das petrolíferas ao sector permanece “cautelosa”. Num mundo em que a guerra no Irão continua a perturbar os mercados energéticos e em que as tarifas da administração Trump criaram nova incerteza nas cadeias de valor das renováveis, a distância entre o discurso e a ação das petrolíferas tem consequências que vão muito além das suas contas de resultados.
A produção de energia renovável a nível global estava em 7,4 petawatt-hora em 2020 e deverá atingir 16,1 petawatt-hora em 2030. Uma taxa de crescimento anual composta de 8,1%, segundo as projeções da GlobalData. No mesmo período, a contribuição dos combustíveis fósseis na produção de eletricidade global deverá cair de 62% para 50%, com as renováveis a ultrapassar os 40% do mix elétrico mundial até ao final da década. São números que indicam uma transformação real e acelerada do sistema energético global.
Mas quando se olha para a fatia que as grandes petrolíferas têm nesta transformação, o retrato muda de figura. Ravindra Puranik, analista de petróleo e gás da GlobalData, é direto na avaliação: as empresas de petróleo e gás deverão manter uma abordagem cautelosa aos investimentos em renováveis, mesmo enquanto avançam para atingir as suas metas no sector. A cautela não é ideológica – é financeira e regulatória. Num contexto de incerteza sobre a trajetória dos preços do petróleo, de custos crescentes nos projetos de renováveis offshore e de um quadro regulatório que continua a enviar sinais mistos em vários mercados, os conselhos de administração das petrolíferas estão a calibrar os seus investimentos para minimizar o risco, não para maximizar o impacto climático.
O resultado é uma assimetria que os relatórios de sustentabilidade raramente tornam visível: as metas de renováveis das petrolíferas são ambiciosas em percentagem, mas modestas em valor absoluto. Uma empresa que investe 5 mil milhões de dólares em renováveis num ano em que investe 30 mil milhões em petróleo e gás pode apresentar um crescimento de 50% no investimento renovável, e ao mesmo tempo estar a expandir a sua capacidade de extração fóssil a um ritmo que anula completamente o benefício climático do investimento verde.
A geopolítica como acelerador… e como travão
A guerra no Irão, iniciada no final de 2025 e cujos efeitos nos mercados energéticos persistem apesar do cessar-fogo de abril de 2026, teve um efeito paradoxal na estratégia das petrolíferas em relação às renováveis. Por um lado, a volatilidade dos preços do petróleo e a perturbação das cadeias de abastecimento de gás natural liquefeito – com a instalação de Ras Laffan no Qatar a recuperar de danos que levam anos a reparar – reforçaram o argumento de que a dependência de combustíveis fósseis importados é uma vulnerabilidade estratégica. Vários países e empresas aceleraram os seus planos de diversificação energética precisamente por razões de segurança, não de clima.
Por outro lado, a instabilidade geopolítica criou nova incerteza nos projetos de renováveis. Os custos de financiamento subiram. As cadeias de abastecimento de painéis solares e turbinas eólicas foram afetadas pela reconfiguração das rotas comerciais. E as tarifas da administração Trump sobre componentes de energias renováveis – em particular painéis solares e inversores produzidos na Ásia – criaram perturbação nos planos de expansão de várias empresas energéticas nos mercados norte-americanos. Para as petrolíferas, que gerem carteiras globais de ativos e têm exposição simultânea aos mercados fósseis e renováveis, o resultado foi frequentemente o de adiar decisões de investimento renovável enquanto os mercados fósseis geravam receitas excecionais com os preços elevados.
A dinâmica é capturada com precisão pelo Global Energy Outlook 2026, publicado pelo Resources for the Future: embora as emissões de CO2 estejam muito longe das metas climáticas globais, as renováveis estão projetadas para liderar a geração de eletricidade mundial. Vento e solar em conjunto deverão representar entre 40% e 72% da geração elétrica global em 2050, dependendo do cenário de política climática. Mas no cenário de referência – que reflete as políticas atuais sem aceleração significativa – a contribuição das petrolíferas para esta transição permanece modesta.
O que explica a “cautela” das petrolíferas
A GlobalData identifica três fatores estruturais que explicam a persistência da “cautela” das petrolíferas no investimento em renováveis. O primeiro é o diferencial de rentabilidade: em anos de preços elevados do petróleo – como 2022, 2023 e grande parte de 2025-2026 -, a rentabilidade do capital investido em petróleo e gás supera confortavelmente a de projetos renováveis maduros. Para um conselho de administração com obrigações fiduciárias para com os seus acionistas, a aritmética é difícil de contrariar com argumentos climáticos quando os números de curto prazo favorecem os fósseis.
O segundo fator é a questão das competências e dos modelos de negócio. As petrolíferas têm décadas de experiência e capacidades profundas em exploração, produção e refinação de hidrocarbonetos. O desenvolvimento de parques eólicos offshore ou de plantas solares de grande escala exige competências diferentes – em engenharia civil, em gestão de redes elétricas, em estruturação de contratos de longo prazo com compradores de eletricidade. As petrolíferas que têm avançado mais agressivamente nas renováveis – a BP, a Equinor, a TotalEnergies – fizeram-no em parte através de aquisições de empresas especializadas, o que implica custos e riscos de integração que as mais cautelosas preferem evitar.
O terceiro fator é regulatório. A incerteza sobre a trajetória da política climática – agravada pela retirada dos EUA do Acordo de Paris e pela volatilidade política em vários grandes mercados – torna difícil ancorar decisões de investimento de longo prazo em projetos renováveis que só se tornam rentáveis num horizonte de dez a quinze anos. Um projeto de eólica offshore aprovado hoje com base em determinadas premissas de subsídio ou de preço da eletricidade pode tornar-se não rentável se o quadro regulatório mudar a meio do prazo de amortização.
A distância entre o discurso e a ação… e as suas consequências
Jamie Anderson, especialista em sustentabilidade citado pela Sustainability Online em maio de 2026, resumiu o problema com uma frase que captura a perceção crescente dos consumidores e dos reguladores: os consumidores conseguem “cheirá-lo” quando as iniciativas de sustentabilidade não são genuínas. A credibilidade das petrolíferas em matéria de transição energética está a erodir-se precisamente porque o hiato entre os compromissos públicos e os investimentos reais é amplamente documentado e crescentemente difícil de esconder.
As implicações vão além da reputação. A União Europeia, com o CBAM em plena aplicação e o EU ETS a escalar a sua cobertura sectorial, está a criar um quadro em que o custo do carbono é progressivamente internalizado no preço dos produtos e serviços. As petrolíferas que não avançarem mais rapidamente na descarbonização das suas operações enfrentarão custos crescentes neste quadro, e potencialmente desvantagens competitivas face a concorrentes que tiverem feito a transição mais cedo.
O relatório da GlobalData é, no fundo, um retrato do sector energético num momento de transição real, mas insuficientemente rápida. As renováveis estão a crescer. Os custos estão a cair. A geopolítica está a criar incentivos inesperados para a diversificação. Mas o capital das petrolíferas continua a fluir predominantemente para os ativos que estão a ser descarbonizados, porque é aí que a rentabilidade de curto prazo continua a ser maior. A questão que o relatório coloca, sem a responder, é quanto tempo esta equação pode persistir antes de ser forçosamente reescrita – pela regulação, pelo mercado, ou pelo clima.
O que isto significa para Portugal e para a Europa
Para Portugal, a dinâmica documentada pela GlobalData tem uma dimensão particular. O país é um dos líderes europeus na produção de energia renovável – com mais de 80% da eletricidade gerada a partir de fontes limpas em 2025 – e tem ambições crescentes no offshore eólico, no hidrogénio verde e na exportação de energia renovável para o centro da Europa. A Galp, enquanto empresa energética portuguesa com presença no petróleo e gás, está a navegar a mesma tensão que as suas congéneres europeias: como equilibrar a rentabilidade dos ativos fósseis existentes com o investimento na transição.
Para a Europa como um todo, a “cautela” das petrolíferas no investimento em renováveis é um problema com consequências sistémicas. A transição energética europeia depende não apenas do crescimento das renováveis no sector elétrico – onde o progresso é real e acelerado – mas também da descarbonização de sectores harder-to-abate como a indústria pesada, os transportes e o aquecimento, onde as petrolíferas têm um papel potencialmente central através da produção de hidrogénio, de combustíveis sintéticos e de biocombustíveis avançados. Se esse papel não for desempenhado com a escala e a velocidade necessárias, o défice terá de ser preenchido por outros atores, ou não será preenchido de todo.
O relatório da GlobalData não prevê uma inversão súbita desta dinâmica. Prevê um crescimento real, mas gradual do investimento renovável das petrolíferas, condicionado pela evolução dos preços do petróleo, pela trajetória regulatória e pela pressão crescente de acionistas ativistas e de financiadores com critérios ESG. É um cenário de transição lenta numa janela de tempo em que a velocidade importa mais do que a direção.
Fonte: GlobalData / Resources for the Future / Global Renewable News / Sustainability Online

