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Carvão e guerra: como o conflito no Médio Oriente está a atrasar a transição energética europeia

A Itália acaba de adiar em 13 anos o encerramento das suas centrais a carvão. O cenário revela a fragilidade dos compromissos climáticos quando confrontados com choques geopolíticos – e confirma que países com apostas solidas em renováveis saem melhor desta crise.

Uma decisão que cheira a fumo

No início de abril, o parlamento italiano aprovou um projeto de lei que adia o encerramento definitivo das quatro centrais a carvão do país – atualmente em reserva – de 2025 para 2038. Treze anos de margem conquistados sob o argumento da emergência energética, num contexto em que o encerramento do Estreito de Ormuz, na sequência dos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irão no final de fevereiro, desencadeou uma crise de abastecimento com impacto direto nos mercados de gás e petróleo.

A medida, promovida pela coligação de direita liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni, contradiz o Plano Nacional de Energia e Clima (PNIEC) italiano, aprovado em 2024, que previa o abandono definitivo do carvão até ao final de 2025. O ministro da Energia, Gilberto Pichetto Fratin, defendeu que as centrais poderão ser recativadas caso o conflito no Médio Oriente agrave os problemas de abastecimento de gás e petróleo – e os preços continuem a disparar.

Qualquer pessoa que use a emergência dos preços da energia para justificar a aprovação de uma emenda que mantém centrais a carvão abertas até 2038 sabe muito bem que é apenas uma desculpa. – Mariagrazia Midulla, WWF Itália

O Estreito de Ormuz e as novas regras do jogo energético

O Estreito de Ormuz, com apenas 34 quilómetros de largura no ponto mais estreito, é um dos canais de navegação mais críticos do mundo. Cerca de 20 a 25% do abastecimento global de petróleo – o equivalente a 20 milhões de barris por dia – passa por ali, proveniente de produtores como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Irão. A Itália depende deste corredor para cerca de 21% das suas importações totais de petróleo e gás.

O bloqueio iraniano ao tráfego no Estreito – ainda que parcial, mediante pagamento de portagens milionárias por embarcação – gerou uma onda de choque nos mercados globais. Os preços do petróleo e do gás dispararam. Aeroportos em Bolonha, Milão, Treviso e Veneza chegaram a impor restrições ao abastecimento de combustível a aeronaves. Vários países asiáticos, dos quais as Filipinas chegaram a declarar emergência nacional, adotaram medidas de racionamento. Na Coreia do Sul, no Japão e na Alemanha, governos discutem igualmente a extensão da vida útil de centrais a carvão.

Quem ganha com a crise… e quem perde

O contraste dentro da própria União Europeia é revelador. Países como Espanha, Portugal e o Reino Unido, com elevada penetração de energias renováveis na sua matriz elétrica, estão a conseguir amortecer os efeitos da crise de forma significativa. O Reino Unido, em particular, está a aproveitar os recordes de produção dos seus parques eólicos para satisfazer a procura doméstica enquanto reduz agressivamente a exposição aos mercados voláteis de combustíveis fósseis. Espanha, que se consolidou como um dos líderes europeus em energia verde, serve de exemplo recorrente de como a aposta nas renováveis equivale a uma forma de soberania energética real.

Do outro lado, a Itália confirma o padrão que os analistas vinham a alertar: os países mais dependentes de combustíveis importados estão a responder à crise com regressões nos seus compromissos climáticos, em vez de a aproveitarem para acelerar a transição. A decisão de recativar o carvão não vai, segundo especialistas ouvidos pela imprensa europeia, baixar as faturas de eletricidade a curto prazo – e arrisca desviar recursos de alternativas mais limpas.

Um sistema energético mais descentralizado, com uma fatia crescente de renováveis e mais atores de mercado, é estruturalmente mais resiliente. – Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA

O que esta em causa para o clima

O carvão é o combustível fóssil mais barato – e o mais poluente. É a principal fonte individual de emissões globais de carbono e um contribuidor significativo para a poluição atmosférica. A decisão italiana coloca em risco os compromissos assumidos no quadro do Plano Nacional de Energia e Clima europeu e pode criar um precedente perigoso noutros países membros que enfrentam pressões semelhantes.

A WWF Itália alertou que a medida é um ‘verdadeiro assassino’ do clima e da saúde pública. Análises independentes referidas pela imprensa especializada europeia advertem que manter a capacidade de carvão disponível pouco faz para resolver as vulnerabilidades estruturais do sistema energético, enquanto potencialmente desvia recursos de alternativas mais limpas.

O paradoxo desta crise é que, ao tornar os combustíveis fósseis mais caros e instáveis, ela reforça o argumento económico a favor das renováveis. Mas nem todos os governos estão dispostos – ou têm capacidade instalada suficiente – para fazer essa leitura a tempo.

Contexto adicional
A crise do Estreito de Ormuz continua em aberto. A 12 de abril, os Estados Unidos anunciaram um bloqueio naval ao estreito, num contexto em que as negociações diplomáticas EUA-Irão em Islamabad prosseguiam com progressos parciais. O impacto sobre os mercados energéticos globais e os compromissos climáticos europeus deverá prolongar-se ao longo dos próximos meses.

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