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Energia em Portugal: um país que produz mais do que nunca e ainda não chegou lá

29 de maio – Dia Nacional da Energia | G

O Dia Nacional da Energia celebra-se em Portugal a 29 de maio. Foi criado em 1981 pela então Direcção-Geral de Energia e Geologia com um objetivo simples: sensibilizar cidadãos, empresas e Estado para a importância de usar a energia com mais consciência. Quarenta e quatro anos depois, o contexto é radicalmente diferente – e, em muitos aspetos, mais urgente. Portugal é hoje um dos líderes europeus em energias renováveis. E este Dia Nacional da Energia chega um mês depois do maior apagão da história recente da Península Ibérica.

Os números de 2025 são motivo de orgulho real. Portugal fechou o ano com 82,9% da eletricidade produzida a partir de fontes renováveis, posicionando-se como o terceiro país da União Europeia com maior percentagem renovável, atrás apenas da Dinamarca (92,4%) e da Áustria (83,1%), segundo dados do Eurostat. Já no primeiro trimestre de 2026, as renováveis garantiram 79% da eletricidade gerada no continente. Em Janeiro de 2025, o sistema elétrico nacional bateu um novo recorde de produção renovável instantânea: 10.845 megawatts às 19h15 do dia 27, superando o máximo anterior de 10.434 MW registado em Março de 2024.

E, no entanto, 2025 foi também o ano em que Portugal consumiu mais eletricidade de sempre – 53,1 terawatts-hora, mais 3,2% do que em 2024, batendo o recorde que havia sido estabelecido em 2010. A produção renovável cresceu em valor absoluto, atingindo 37 TWh, mas esse crescimento foi insuficiente para acompanhar a procura. A fatia renovável no consumo total recuou de cerca de 70% para 68%. A diferença foi colmatada com gás natural, cuja produção para eletricidade cresceu 54% relativamente ao ano anterior. Resultado: as emissões de CO2 associadas à produção elétrica aumentaram cerca de um milhão de toneladas face a 2024. A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável identificou como causa principal a desaceleração no licenciamento de nova capacidade solar fotovoltaica, agravada pela ausência de armazenamento e pelas limitações na rede ibérica que impedem a exportação do excesso de produção.

Depois, a 28 de Abril de 2025, veio o apagão. Durante quase doze horas, cerca de 60 milhões de pessoas na Península Ibérica ficaram sem eletricidade. Em Portugal, o impacto foi severo: casas, empresas, serviços públicos e transportes pararam. O incidente, cujas causas definitivas aguardavam ainda o relatório final da Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E), expôs uma vulnerabilidade que o sucesso renovável tendia a obscurecer: a robustez e a resiliência do sistema elétrico não se medem apenas pela percentagem de fontes limpas na mistura energética, mas pela capacidade de responder a perturbações inesperadas. O Grupo de Aconselhamento Técnico criado pelo Governo português concluiu, no relatório apresentado em Abril de 2026, que o sistema elétrico nacional apresenta elevados níveis de segurança, mas recomendou investimento continuado em digitalização, armazenamento, interligações europeias e controlo dinâmico de tensão.

O paradoxo português em matéria de energia é instrutivo: o país tem condições naturais excecionais para as renováveis – sol, vento e água em abundância -, tem uma trajetória de investimento notável e tem a ambição de atingir a neutralidade carbónica em 2045. Mas enfrenta estrangulamentos que não são tecnológicos: são administrativos, regulatórios e de infraestrutura de rede. Projetos licenciados que não avançam por razões económicas. Capacidade de produção que não consegue ser exportada por limitações nas interligações com Espanha e França. Armazenamento em baterias ainda insuficiente para absorver os picos de produção solar e eólica.

A lição do apagão e a lição dos dados de 2025 apontam na mesma direção: não basta produzir energia limpa. É preciso garantir que essa energia chega a quem precisa, quando precisa, com a estabilidade e a resiliência que uma sociedade moderna exige. A transição energética justa – aquela que não deixa para trás as famílias mais vulneráveis nem sacrifica a fiabilidade do abastecimento no altar das metas climáticas – exige investimento simultâneo em geração, em armazenamento, em redes e em eficiência. Portugal está, em muitos destas frentes, no bom caminho. Mas o caminho ainda é longo.

Neste 29 de Maio de 2026, o Dia Nacional da Energia não é apenas uma data de sensibilização. É uma oportunidade para exigir que a ambição renovável de Portugal seja acompanhada da infraestrutura, da regulação e do investimento que a tornem verdadeiramente resiliente. O sol e o vento não faltam. O resto depende de nós.

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