#13 Pegada Semanal – 10 a 17 de abril

Bem-vindos ao Pegada Semanal. Esta semana temos uma edição em que o planeta nos enviou dois recados científicos muito sérios – e Portugal deu-nos uma boa notícia com um certo sabor agridoce.

Vamos falar sobre uma investigação que reescreveu aquilo que pensávamos saber sobre os limites de sobrevivência humana ao calor extremo. Vamos falar sobre as florestas africanas, que deixaram de ser aliadas e se tornaram inimigas no combate às alterações climáticas. Na Europa, há um estudo novo que mostra como a natureza nas cidades não é igual para todas as pessoas. E em Portugal, finalmente arrancou um sistema que levou anos a sair do papel – e que pode mudar a forma como vemos uma simples lata de sumo.

Há muito para cobrir, então vamos a isso.

“Oh merda”: o calor extremo já ultrapassou os limites de sobrevivência humana

Começo com a história que mais me impactou esta semana. Foi publicada a 8 de abril na revista científica Nature Communications uma investigação liderada pela professora Sarah Perkins-Kirkpatrick, da Universidade Nacional da Austrália, e a sua primeira reação ao ver os resultados foi, e cito, “oh merda”. Não são as palavras que habitualmente encontramos em artigos científicos, mas refletem bem a dimensão do que foi descoberto.

O estudo revisitou seis vagas de calor extremo ocorridas entre 2003 e 2024 – em Meca, em 2024; Banguecoque, também em 2024; Phoenix, em 2023; Mount Isa, na Austrália, em 2019; Larkana, no Paquistão, em 2015; e Sevilha, em 2003. Eventos que, juntos, mataram pelo menos milhares de pessoas. O que os cientistas fizeram foi aplicar um novo modelo que vai além da temperatura e da humidade: incorpora a capacidade do corpo humano para regular a temperatura interna dependendo da idade, da exposição solar e da capacidade de suar.

O resultado foi perturbador. Em todas as seis vagas de calor, houve períodos que foram tecnicamente “não sobrevivíveis” para pessoas com mais de 65 anos expostas ao sol. E – e aqui está o dado verdadeiramente surpreendente – nenhum desses eventos atingiu o limite teórico de sobrevivência que tinha sido estabelecido pela ciência: a temperatura de bolbo húmido de 35 graus Celsius durante seis horas. Ou seja, o perigo real acontece muito antes do que pensávamos.

O que isto significa é que as nossas métricas de alerta para calor extremo estão desatualizadas. Estamos a usar uma régua que não mede o que precisa de medir. Os autores do estudo defendem que é urgente rever os sistemas de alerta, as respostas de emergência e as estratégias de adaptação climática – e que tudo isso deve ter em conta a fisiologia humana real, não um limite teórico que o planeta já ultrapassou na prática.

A professora Perkins-Kirkpatrick foi clara: “Se já está a acontecer agora, o que nos espera num futuro dois ou três graus mais quente?” É uma pergunta que devíamos todos levar connosco.

As florestas africanas viraram as costas ao planeta

A segunda grande história científica desta semana chegou a 13 de abril, num estudo publicado pelo ScienceDaily com origem na Universidade de Leicester. E é, em certos aspetos, ainda mais preocupante do que a notícia sobre o calor, porque toca numa das nossas grandes apostas no combate à crise climática.

As florestas africanas – o segundo maior bloco de florestas tropicais do planeta, centrado principalmente na Bacia do Congo – deixaram de ser um sumidouro de carbono e tornaram-se uma fonte líquida de emissões. Esta mudança aconteceu por volta de 2010. Antes disso, estas florestas absorviam carbono da atmosfera. A partir daí, passaram a libertar mais do que absorvem.

Os números são impressionantes: entre 2010 e 2017, o continente africano perdeu aproximadamente 106 mil milhões de quilogramas de biomassa florestal por ano – o equivalente ao peso de 106 milhões de carros. As perdas estão concentradas nas florestas tropicais húmidas da República Democrática do Congo, de Madagáscar e de partes da África Ocidental. O crescimento da vegetação nas savanas não foi suficiente para compensar.

As causas são as habituais: agricultura de subsistência, mineração artesanal alimentada pela procura global de minerais como o cobalto e o cobre, extração madeireira e desmatamento por incêndio. O professor Heiko Balzter, da Universidade de Leicester e autor sénior do estudo, foi direto: “Este é um sinal de alarme crítico para a política climática global”. Se as florestas africanas já não absorvem carbono, todos os outros países terão de cortar as suas emissões ainda mais profundamente para cumprir as metas de Paris.

O estudo coincide com os debates que estão a acontecer no percurso para a COP30, em Belém, em novembro. A proteção das florestas tropicais não pode ser um item secundário nessa agenda – é um dos pilares centrais de qualquer estratégia climática que funcione.

Energia depois do cessar-fogo: os preços continuam altos

Uma nota rápida sobre a crise energética que tem dominado as últimas semanas. O cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão foi anunciado a 8 de abril, mas a realidade desta semana mostrou que a situação está longe de normalizada. O Estreito de Ormuz permaneceu “efetivamente fechado” – no primeiro dia de tréguas, apenas quatro navios conseguiram atravessá-lo. O Irão acusou os Estados Unidos de violar o cessar-fogo. Israel continuou a atacar o Líbano.

Nos mercados energéticos, os preços do petróleo desceram da zona dos 120 dólares por barril para perto dos 95, mas analistas são claros: mesmo que a paz chegasse amanhã, não voltaríamos tão cedo aos níveis anteriores à guerra. A instalação de Ras Laffan, no Qatar, a maior fábrica de gás natural liquefeito do mundo, sofreu danos que levarão entre três a cinco anos a ser totalmente reparados. Centenas de navios petroleiros continuam dispersos pelos oceanos, incapazes de carregar ou descarregar. A crise de abastecimento vai prolongar-se, independentemente do desfecho político.

Natureza nas cidades não é igual para todas as pessoas

Esta semana chegou da Comissão Europeia – mais concretamente do seu Centro Conjunto de Investigação, o JRC – um estudo publicado na Nature Communications que examinou 862 cidades europeias e chegou a uma conclusão que não surpreende quem vive nas periferias, mas que agora tem números concretos: menos de 14 por cento da população europeia tem acesso adequado a espaços verdes.

O estudo aplicou a chamada regra 3-30-300: cada pessoa deveria conseguir ver três árvores da sua janela, o bairro deveria ter pelo menos 30 por cento de cobertura arbórea, e deveria existir um parque a menos de 300 metros de distância. O resultado foi que apenas 13,5 por cento da população estudada vive em plena conformidade com estes critérios. E 21 por cento – ou seja, mais de um em cada cinco europeus – não cumpre nenhum deles.

Mas o que torna este estudo particularmente relevante do ponto de vista da justiça social é o que acontece quando se cruza estes dados com os rendimentos dos bairros. A correlação é clara e preocupante: os bairros mais ricos têm consistentemente mais árvores, mais parques e mais acesso à natureza. Os bairros mais pobres ficam com o betão. Esta “divisão verde” é mais do que uma questão estética – é uma questão de saúde pública. O acesso a espaços verdes urbanos está associado a menor stress, melhor saúde mental, ar mais limpo e proteção contra as ilhas de calor. Quem já está mais vulnerável economicamente recebe também menos proteção ambiental.

O estudo foi realizado em colaboração com a Universidade de Copenhaga e usou imagens de satélite de alta resolução. As suas conclusões chegam numa altura em que as cidades europeias estão a ser pressionadas a adaptar-se às alterações climáticas – e sublinham que essa adaptação tem de ser equitativa, ou deixará para trás precisamente quem mais precisa de proteção.

Relatório das Cidades Verdes Europeias: progressos reais, desafios persistentes

Também esta semana, a 30 de março, a Direção-Geral do Ambiente da Comissão Europeia divulgou o relatório de base do Acordo das Cidades Verdes Europeias para o período 2020-2025. O documento analisa 54 cidades signatárias e revela um retrato misto: há progressos, mas também há obstáculos significativos.

Em termos de qualidade do ar, 96 por cento das cidades cumprem as normas europeias em vigor, mas apenas 8 por cento satisfazem as diretrizes mais exigentes da Organização Mundial de Saúde – diretrizes que passarão a ser legalmente vinculativas na União Europeia em 2030. Em termos de água, reduzir o consumo está entre as prioridades, com a média das cidades a registar 133 litros por pessoa por dia. O caminho é longo, os objetivos são ambiciosos e o relógio avança. Este relatório serve como ponto de partida para medir os progressos até ao final da década.

O “Volta” chegou: o sistema de depósito de embalagens finalmente arrancou

Chegamos a Portugal, com uma história que é simultaneamente uma boa notícia ambiental e um lembrete de quanto tempo pode demorar a transformar lei em realidade.

A 10 de abril de 2026, precisamente no primeiro dia desta semana de notícias, Portugal lançou oficialmente o Sistema de Depósito e Reembolso de embalagens de bebidas, batizado com o nome “Volta”. O mecanismo é simples: por cada garrafa de plástico PET ou lata de alumínio ou aço até três litros, o consumidor paga um depósito de dez cêntimos no momento da compra. Quando devolve a embalagem num dos mais de 2.500 pontos de recolha instalados em supermercados e hipermercados, recebe esses dez cêntimos de volta.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, esteve presente na sessão de lançamento, no Campus XXI, em Lisboa, e sublinhou que é “uma questão de hábito e de logística”. Tem razão – sistemas semelhantes funcionam há décadas noutros países europeus como a Alemanha, a Suécia e a Dinamarca, com taxas de recolha superiores a 90 por cento. Portugal é o 19.º país da União Europeia a implementar este mecanismo, com um investimento inicial de 150 milhões de euros suportado integralmente pelos operadores económicos – indústrias de bebidas e retalho – sem recurso a dinheiro público.

A meta é ambiciosa: recolher 90 por cento das embalagens até 2029, em linha com os objetivos europeus. No primeiro ano, a expectativa é recolher entre 40 e 70 por cento. Há um período de transição até agosto de 2026, durante o qual podem coexistir nas prateleiras embalagens antigas e novas – identificáveis pelo símbolo “Volta”.

A reação das organizações ambientais foi genericamente positiva, mas com um aviso claro: a Quercus saudou a medida, mas disse que “peca por tardia”, lembrando que esta é uma reivindicação que a associação defende há anos. Mais relevante ainda, a Quercus alertou para aquilo que ficou de fora: o vidro. As garrafas de vidro ficaram em regime de autorregulação, sem integrar o sistema. Para quem se lembra da antiga tara recuperável das garrafas de cerveja, há um certo paradoxo em que a história dê um passo atrás e meio passo à frente ao mesmo tempo.

Ainda assim, o arranque do Volta é um momento importante. Portugal tinha uma taxa de reciclagem de embalagens de bebidas substancialmente abaixo da meta europeia de 55 por cento. Este sistema pode ser o catalisador que faltava para mudar hábitos de uma geração inteira.

Guimarães, a Capital Verde Europeia que está a mostrar o caminho

Uma nota final sobre algo que aconteceu em janeiro, mas que continua a merecer atenção ao longo do ano: Guimarães, a Capital Verde Europeia 2026, está a protagonizar ao longo deste ano um conjunto de iniciativas que colocam uma cidade portuguesa no centro do debate europeu sobre sustentabilidade urbana.

Distinguida no final de 2024 pela Comissão Europeia entre 21 candidatos, Guimarães foi escolhida pelo seu compromisso consistente ao longo de uma década: da descarbonização dos transportes às comunidades de energia renovável, passando pela integração da biodiversidade no planeamento urbano. O júri europeu ficou impressionado com a forma como a cidade liga a criatividade à ciência, e com o envolvimento da comunidade – cidadãos, académicos e setor privado – no processo de transição.

É um exemplo que vale a pena sublinhar, porque responde a uma pergunta que muitas pessoas fazem: é possível fazer a transição verde sem deixar ninguém para trás? Em Guimarães, a resposta parece ser sim – e a Europa está a prestar atenção.

Antes de encerrar, um momento de reflexão sobre a semana.

Esta foi uma semana em que a ciência nos disse que o planeta está a mover-se mais rápido do que as nossas métricas conseguem acompanhar. O calor já mata a temperaturas que pensávamos ser seguras. As florestas que contávamos para absorver o carbono que emitimos já não o fazem. E os espaços verdes que deveriam proteger toda a gente chegam com mais força a quem já tem mais.

Ao mesmo tempo, Portugal deu um passo concreto na direção certa – com um sistema que pode parecer pequeno, mas que representa uma mudança de paradigma na forma como pensamos os resíduos. E Guimarães continua a provar que as cidades portuguesas podem liderar em sustentabilidade a nível europeu.

A dicotomia desta semana é, talvez, a dicotomia permanente da sustentabilidade: urgência e esperança, em doses iguais. O que fazemos com essa tensão é, no fundo, a grande questão do nosso tempo.

Chegamos ao fim desta edição do Pegada Semanal. Obrigada por nos acompanharem. Se este episódio vos fez pensar – sobre o calor, sobre as florestas, sobre a lata de refrigerante que vão deitar fora hoje – então cumpriu o seu propósito.

Partilhem com quem acham que devia ouvir. Até para a semana.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.