O telemóvel que guardas na gaveta está a custar-te centenas de euros – e ao planeta ainda mais
22 de abril · Dia Mundial da Terra
Estudo da Fraunhofer Áustria, auditado de forma independente, quantifica pela primeira vez o impacto financeiro e ambiental dos diferentes modelos de consumo de smartphones ao longo de seis anos. A conclusão surpreende: o que fazemos com o telemóvel depois de o comprar importa mais do que a decisão de compra em si.
Há milhões de telemóveis guardados em gavetas em toda a Europa. Substituídos por um modelo mais recente, mas ainda funcionais, aguardam um destino que, na maioria dos casos, nunca chega: acabam no lixo doméstico, ou pior, num circuito de reciclagem informal noutro continente. É uma escolha com custos reais – para quem o guarda e para o planeta. E agora existe um estudo que os quantifica com rigor.
A Fraunhofer Áustria publicou em 2025 um estudo de ciclo de vida sobre smartphones que compara três modelos de consumo distintos ao longo de seis anos – o período correspondente à vida útil funcional de um dispositivo de gama média com atualizações de software. O trabalho, conduzido em conformidade com as normas ISO 14040/44 e auditado pela entidade de certificação independente GUTcert, foi encomendado pela plataforma de recondicionados refurbed e baseou-se na análise de mais de 50 fontes de dados, incluindo estatísticas do Eurostat e publicações científicas.
O modelo de referência usado foi um smartphone de gama média com o preço de 575 euros (novo). Os três cenários analisados correspondem a comportamentos reais e identificáveis: o modelo circular, em que o aparelho é usado três anos, depois recondicionado e revendido, e reciclado no fim de mais três anos de utilização; o uso médio europeu, em que o telemóvel é usado três anos e depois guardado numa gaveta até ir para o lixo doméstico; e o modelo “usar e deitar fora“, em que o aparelho é substituído todos os anos, os antigos ficam imobilizados em casa e acabam por ser ilegalmente reciclados no Sul Global.
O que custa cada escolha em seis anos

Os resultados do estudo estabelecem uma hierarquia clara entre os três modelos, medida em três indicadores: custo total de propriedade, emissões de CO2 e uso de recursos críticos (como o cobalto).
| Indicador (6 anos) | Economia circular | Uso medio europeu | Usar e deitar fora |
| Custo total (TCO) | 959 euros | 1.294 euros | 3.834 euros |
| Emissões de CO2 | 83 kg | 161 kg | 684 kg |
| Recursos críticos | 38 g | 115 g | 346 g |
Fonte: Fraunhofer Austria / refurbed (2025). Auditoria: GUTcert.
A diferença entre o modelo circular e o uso médio europeu – que representa o comportamento da maioria das pessoas – é já substancial: 35% mais caro, o dobro das emissões de CO2 e o triplo do consumo de recursos naturais. Mas é a comparação com o modelo “usar e deitar fora” que coloca a escala do problema em perspetiva: custos quatro vezes mais elevados, emissões oito vezes superiores e nove vezes mais recursos consumidos.
“Os nossos dados provam que o tempo de uso e um descarte correto têm um impacto muito maior nos custos e no ambiente do que se pensava“, afirma Paul Rudorf, autor do estudo pela Fraunhofer Áustria. “Quisemos focar-nos no ciclo de vida do produto para não culpar o consumidor“.
Poupança de 274 euros por aparelho – ou 2.574 euros em seis anos

Para o consumidor individual, a mensagem é direta: adotar um modelo mais circular pode representar uma poupança mínima de 274 euros por aparelho, comparando com o uso médio europeu. Para quem abandona completamente o modelo “usar e deitar fora“, a poupança pode chegar aos 2.574 euros em seis anos – mais do que o dobro do valor do smartphone de referência.
“Numa altura em que a Europa sente os efeitos da dependência de recursos, e em que Portugal ainda tem uma longa jornada pela frente na economia circular, olhar para os nossos hábitos de consumo torna-se uma questão de poupança pessoal e de inteligência económica“, defende Kilian Kaminski, cofundador da refurbed.
O argumento económico não se limita aos consumidores individuais. Muitas empresas ainda operam num modelo próximo do “usar e deitar fora” na gestão dos seus equipamentos tecnológicos – uma prática que, à luz destes dados, representa um custo evitável considerável em contexto de pressão orçamental crescente.
Portugal e o PAEC 2030: a oportunidade de um alinhamento raro
O estudo da Fraunhofer chega num momento de particular relevância para Portugal. A aprovação recente do Plano de Ação para a Economia Circular 2030 (PAEC 2030) estabelece um compromisso nacional com a transição para modelos de produção e consumo mais sustentáveis – e os dados do estudo validam precisamente a lógica por detrás desse compromisso.
O que torna este momento particularmente interessante é a raridade do alinhamento: aqui, a escolha ambientalmente correta é também a escolha economicamente mais vantajosa. Prolongar a vida dos equipamentos, recondicioná-los, revendê-los ou reciclá-los de forma adequada não é apenas uma decisão de responsabilidade ambiental – é uma decisão financeiramente racional.
No Dia Mundial da Terra, a 22 de abril, esse argumento ganha força acrescida. A transição para a economia circular nos equipamentos eletrónicos não exige sacrifício nem tecnologia avançada: exige, acima de tudo, informação e hábitos diferentes. O estudo da Fraunhofer fornece agora a evidência quantificada para sustentar essa mudança.
EM NUMEROS
- 35% mais caro: o custo do uso medio europeu face ao modelo circular
- x2: as emissões de CO2 do uso medio europeu face ao modelo circular
- x4: o custo do modelo ‘usar e deitar fora’ face ao modelo circular
- x8: as emissões de CO2 do modelo ‘usar e deitar fora’ face ao modelo circular
- 274 euros: poupança mínima por aparelho ao adotar modelo circular
- 2.574 euros: poupança máxima em 6 anos ao abandonar o modelo ‘usar e deitar fora’
Fonte: Fraunhofer Austria Research GmbH / refurbed (2025). Metodologia: ISO 14040/44. Auditoria independente: GUTcert (verificação de 19 de fevereiro de 2025).
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