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Dieta sustentável pode evitar 23.000 mortes por ano em Portugal

Um estudo publicado em Abril pelo investigador Marco Springmann, da Universidade de Oxford, e referenciado pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente, coloca Portugal perante uma realidade desconfortável: mudanças na dieta alimentar – sem medicamentos, sem cirurgias, sem tecnologia – poderiam evitar até 23.000 mortes por ano no país. O modelo: uma dieta flexitariana. Os obstáculos: económicos, culturais e políticos.

A investigação de Springmann, que tem publicado trabalhos de referência sobre a intersecção entre sistemas alimentares, saúde e sustentabilidade ambiental, projeta que a adoção generalizada de uma dieta flexitariana em Portugal – com redução significativa do consumo de carne vermelha e processada, aumento de leguminosas, frutas e vegetais – poderia prevenir até 23.000 mortes prematuras por ano. As causas: doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, cancros associados à dieta e outras doenças não transmissíveis que representam a principal causa de mortalidade em Portugal e na Europa.

O modelo flexitariano não exige vegetarianismo estrito: pressupõe uma redução substancial do consumo de carne, com ênfase em alimentos de origem vegetal, consumo moderado de laticínios e peixe, e eliminação virtual das carnes processadas. É também, não coincidentemente, o padrão alimentar com menor pegada ambiental entre os sistemas sustentáveis adaptados às cozinhas mediterrânicas.

Uma dieta flexitariana poderia evitar até 23.000 mortes por ano em Portugal. – Marco Springmann, Universidade de Oxford, citado pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente, Abril 2026

Duplo dividendo: saúde e clima

A transição alimentar é um dos maiores temas no cruzamento entre sustentabilidade e saúde pública – e é frequentemente subvalorizado nas políticas climáticas nacionais. Os sistemas alimentares são responsáveis por cerca de 25-30% das emissões globais de gases com efeito de estufa, com a pecuária intensiva a contribuir de forma desproporcionada. Em Portugal, o consumo de carne per capita é dos mais elevados da União Europeia – muito acima das recomendações da Organização Mundial de Saúde.

A lógica do duplo dividendo é direta: a mesma mudança de dieta que protege a saúde individual reduz as emissões de metano e dióxido de carbono, diminui a pressão sobre os recursos hídricos e sobre o uso do solo, e reduz a desflorestação associada à produção de soja para alimentação animal. Os sistemas alimentares sustentáveis são, segundo o relatório EAT-Lancet e múltiplas publicações subsequentes, um dos instrumentos mais custo-eficazes de política climática disponíveis.

O que falta: política pública e preço dos alimentos

O principal obstáculo à transição alimentar em Portugal não é cultural – é económico. As proteínas de origem vegetal de qualidade (leguminosas, tofu, seitan) têm preços que competem mal com a carne em promoção na grande distribuição. O IVA sobre alimentos saudáveis e sustentáveis não está harmonizado. E a comunicação institucional sobre alimentação sustentável é esparsa e descoordenada entre o Ministério da Saúde, o Ministério do Ambiente e o Ministério da Agricultura.

Portugal tem uma vantagem estrutural que outros países não têm: a Dieta Mediterrânica, reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2013, é por definição uma dieta predominantemente de base vegetal, com consumo moderado de carne e peixe. O problema é que a dieta real dos portugueses se afastou significativamente desse modelo nas últimas décadas. Recuperá-la seria, ao mesmo tempo, uma vitória de saúde pública, de cultura e de sustentabilidade.

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