Biodiversidade: para onde vai o financiamento?
Quem fica com a parte do leão? Ecologistas da HKU destacam as disparidades no financiamento da conservação da biodiversidade a nível mundial
A extensa perda de biodiversidade representa uma das maiores crises do nosso tempo, ameaçando não só ecossistemas inteiros, mas também os nossos meios de subsistência atuais e futuros. À medida que os cientistas se apercebem da magnitude e da escala das extinções em curso, é vital verificar os recursos disponíveis para a conservação e se os fundos estão a ser eficazmente distribuídos para proteger as espécies mais necessitadas.
Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências Biológicas da Universidade de Hong Kong (HKU) abordou estas questões num artigo publicado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), EUA, compilando informações sobre cerca de 15 mil projetos financiados destinados à conservação de espécies. Benoit Guénard, principal autor do estudo, observou que “a nossa primeira conclusão é que o financiamento da investigação sobre a conservação das espécies continua a ser extremamente limitado, com apenas 1,93 mil milhões de dólares atribuídos em 25 anos aos projetos que avaliámos”.
O financiamento internacional da conservação de 37 governos e ONG representou apenas 0,3% e 0,01% do orçamento anual da NASA ou do exército dos EUA, respetivamente. Esta comparação gritante sublinha a necessidade urgente de aumentar drasticamente esse financiamento para abrandar a perda de biodiversidade global.
Os autores examinaram igualmente a atribuição deste financiamento a espécies ou grupos de organismos específicos com base nas suas necessidades de conservação, tal como avaliadas pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), frequentemente designada por “barómetro da vida”. Guénard explica: “com base em estudos anteriores baseados na literatura, esperávamos que houvesse um enviesamento em relação aos vertebrados e, embora isso fosse verdade, verificámos que a situação era muito pior do que o estimado anteriormente. Mesmo no caso dos vertebrados, muitos dos grupos mais ameaçados, como os anfíbios, foram largamente subfinanciados, com tendências de declínio do financiamento ao longo do tempo.”

Outro exemplo notável pode ser encontrado nos répteis, particularmente lagartos e cobras, onde mais de mil espécies foram identificadas como ameaçadas, mas 87% do financiamento para a conservação dos répteis é direcionado para as sete espécies de tartarugas marinhas. Guénard afirma: “este facto evidencia um importante desfasamento entre a avaliação científica da conservação e a atribuição de financiamento pelas partes interessadas na conservação, que parece basear-se no ‘carisma’ das espécies. Isto leva a que quase um terço do financiamento seja direcionado para espécies não ameaçadas, enquanto quase 94% das espécies ameaçadas não receberam qualquer apoio”.
Alguns grupos, como as plantas ou os insetos, receberam apenas 6% do financiamento, apesar da sua vasta diversidade e do número de espécies ameaçadas que incluem, enquanto outros grandes grupos, como os fungos ou as algas, não receberam praticamente qualquer financiamento.
Alice HUGHES, coautora do estudo, afirmou: “a nossa visão tradicional do que está ameaçado muitas vezes não corresponde às espécies genuinamente ameaçadas, deixando muitas espécies mais pequenas ou ‘menos carismáticas’ negligenciadas. Precisamos urgentemente de reformular esta perspetiva e de atribuir melhor o financiamento a todos os taxa se quisermos ter alguma esperança de corrigir os declínios populacionais generalizados e a perda contínua de biodiversidade”.
Com base nestas conclusões, os investigadores apelam a uma nova abordagem do financiamento da conservação. Embora a conservação das espécies necessite urgentemente de financiamento adicional, é necessária uma abordagem mais rigorosa para selecionar os projetos e as espécies que receberão esses fundos limitados. Guénard sublinha que “as agências de conservação e as ONG têm de modificar a sua filosofia de conservação para proteger todas as espécies e não apenas um subconjunto baseado em critérios subjetivos de carisma ou beleza”.

No futuro, a equipa de investigação espera que a sua base de dados possa ser expandida para que a informação sobre a atribuição de financiamento seja mais transparente e facilmente acessível. Isto ajudaria a avaliar as lacunas existentes, a planear futuros esforços de conservação eficazes à escala global e a reduzir a redundância no financiamento de espécies que já recebem a maior parte do apoio.

