Renováveis europeias batem record histórico no início de 2026 em plena crise dos fósseis
No mesmo momento em que Itália adia o encerramento das suas centrais a carvão e os preços do gás disparam 85% em resultado da crise de Ormuz, a Europa renova-se a si mesma em velocidade recorde. A produção de eletricidade renovável no continente atingiu um máximo histórico no início de 2026, confirmando uma tendência que já não é apenas ambiental – é estratégica.
A produção de eletricidade renovável na Europa atingiu um máximo histórico nos primeiros meses de 2026, segundo dados compilados pelo portal Ambiente Online que cita estatísticas da Agência de Energia da União Europeia. A energia solar liderou o crescimento da oferta mundial, com o fotovoltaico a bater também records de instalação em vários países europeus. Portugal destaca-se como segundo país europeu em penetração renovável na mistura elétrica, com 80,7% em Janeiro, atrás apenas da Noruega.
Os dados da IRENA (Agência Internacional de Energia Renovável), publicados no início de Abril, confirmam o quadro global: em 2025, o mundo instalou 692 gigawatts de nova capacidade renovável – o maior acréscimo anual de sempre, 15,5% acima do ano anterior. A Europa terminou 2025 com 934 gigawatts de capacidade renovável total. A Ásia, liderada pela China, respondeu por 74% de todas as novas instalações mundiais.
Um sistema energético mais descentralizado, com uma fatia crescente de renováveis e mais atores de mercado, e estruturalmente mais resiliente. – Francesco La Camera, Diretor-geral da IRENA
Contraste com a crise dos fosseis
O contraste desta primavera europeia é de uma clareza quase didática. Os países com maior penetração renovável – Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha (nas suas regiões mais avançadas), Dinamarca, Suécia – estão a amortecer a crise energética desencadeada pelo conflito com o Irão de forma muito mais eficaz do que os países com maiores dependências fósseis. A Itália, cujo parlamento aprovou em Março o adiamento do encerramento das centrais a carvão até 2038, é o caso mais visível da fragilidade do modelo antigo.
Mas o record europeu não é apenas ambiental – é económico. Os países com alta penetração renovável têm atualmente preços de eletricidade mais estáveis, menor exposição à volatilidade dos mercados internacionais de combustíveis e uma vantagem competitiva crescente para atrair indústria electrointensiva que precisa de energia verde certificada.
O desafio da integração e da rede
O recorde de produção tem uma contrapartida técnica que os operadores de rede conhecem bem: quanto maior a penetração de fontes variáveis como o sol e o vento, mais complexa fica a gestão em tempo real do sistema elétrico. Em Portugal, a REN – Redes Energéticas Nacionais – lançou em Abril uma nova norma de fiabilidade do sistema elétrico que define um risco aceitável de interrupção de 1,46 horas por ano. O país está também a preparar um leilão de armazenamento de baterias que pretende multiplicar por 60 a capacidade nacional de armazenamento – de 13 megawatts para 750 megawatts.
O record europeu de 2026 é real, mas ainda incompleto. A próxima fronteira não é a produção – é a capacidade de gerir, armazenar e distribuir esta energia de forma resiliente, acessível e justa.
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