Portugal lança o Volta: o sistema de depósito e reembolso que quer mudar hábitos num país que recicla mal
A 10 de Abril, Portugal entrou no clube dos países com sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas – o primeiro do sul da Europa continental. A marca chama-se Volta, o depósito é de dez cêntimos por embalagem e a promessa é alcançar taxas de recolha acima dos 90%. Mas o país que entrou com quatro anos de atraso ainda tem muito a provar.
O sistema é simples na sua lógica: o consumidor paga dez cêntimos extra por cada embalagem de bebida não reutilizável abrangida – garrafas de plástico PET e latas de alumínio e aço, até três litros – e recupera esse valor ao devolver a embalagem num ponto de recolha autorizado. O reembolso pode ser feito em dinheiro, talão de desconto ou crédito digital; a doação a instituições é também uma opção.
A infraestrutura de arranque é considerável: cerca de 2.500 máquinas de recolha automática instaladas em supermercados e hipermercados, mais de 8.000 pontos de recolha manual e 48 quiosques de grande capacidade – os chamados “Bulk” – para entregas em volume em zonas urbanas densas. Máquinas de última geração aceitam até 120 embalagens não separadas por minuto. O sistema é gerido pela SDR Portugal, associação sem fins lucrativos que reúne 90% da indústria de bebidas e 80% do retalho alimentar nacional.
O Sistema de Deposito e Reembolso e uma verdadeira reforma estrutural, com impactos concretos e mensuráveis na vida dos cidadãos. – Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente e Energia, 4 de Marco de 2026
O país que recicla mal – e o que pode mudar
O contexto é revelador da necessidade do sistema. Segundo dados do Eurostat citados na comunicação do próprio SDR, Portugal apresentou em 2024 uma taxa de utilização de materiais reciclados de apenas 3% – a terceira mais baixa de toda a União Europeia. O país consome anualmente cerca de 2,1 mil milhões de embalagens de bebidas de uso único abrangidas pelo Volta. Uma fração relevante dessas embalagens acaba no lixo indiferenciado ou no ambiente. A comparação com a Noruega – que tem um sistema semelhante há cerca de cinco décadas e atinge taxas de recolha acima de 97% – mostra o que é possível alcançar no longo prazo.
Cristina Carrola, vogal do Conselho Diretivo da APA, foi explícita sobre a urgência: Portugal enfrenta uma situação de emergência nos aterros, com os níveis de enchimento a atingir máximos após um aumento do consumo e produção de resíduos de quase 5% no último ano, a par de uma estagnação da recolha seletiva. O Volta não resolve tudo, mas é a alavanca mais direta para introduzir um incentivo financeiro concreto na reciclagem de embalagens de bebidas.
Período de transição e os desafios reais
O lançamento não foi isento de complexidade. A lei aprovada em 2018 previa o arranque em 2022 – o Volta chegou com quatro anos de atraso. O período de transição, que decorre até 10 de Agosto de 2026, permite a coexistência de embalagens antigas (sem símbolo Volta, sem depósito) com as novas no mercado. Só as embalagens com o símbolo circular podem ser devolvidas para reembolso. A partir de 10 de Agosto, todas as embalagens colocadas no mercado nacional devem integrar o sistema.
O investimento total na infraestrutura ronda os 100 a 150 milhões de euros, e o sistema prevê criar mais de 1.500 postos de trabalho diretos e indiretos à medida que amadurece. Portugal torna-se, com o arranque do Volta, o primeiro país do sul da Europa continental com um sistema deste tipo – e uma referência possível para Espanha, Itália e Grécia, que não têm ainda equivalentes.
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