Viticultura Regenerativa: uma nova forma de pensar a vinha
Durante décadas, habituámo-nos a olhar para a vinha como um sistema que precisava de ser controlado, corrigido e muitas vezes forçado a produzir, como se fosse possível separar a viticultura do ecossistema que a sustenta. Hoje, perante os desafios cada vez mais evidentes das alterações climáticas, da degradação dos solos e da perda de biodiversidade, torna-se claro que esse modelo chegou ao seu limite e que é necessário repensar profundamente a forma como produzimos.
A natureza, na sua essência, tende para o equilíbrio; foi a ação humana ao longo das últimas décadas que a foi desajustando, afastando-a desse estado inicial. Aquilo que hoje procuramos fazer é, no fundo, recuperar esse equilíbrio perdido, reconstruindo sistemas agrícolas que voltem a funcionar de forma integrada e saudável.
É neste contexto que a viticultura regenerativa surge, não como uma tendência, mas como uma necessidade e uma resposta estruturante aos desafios do presente e do futuro.

Mais do que conservar, o objetivo é regenerar, partindo do reconhecimento de que muitos dos nossos solos agrícolas perderam vitalidade, estrutura e diversidade biológica ao longo do tempo, tornando-se excessivamente dependentes de fertilizantes, pesticidas e outros fatores externos para manter níveis de produção.
A abordagem regenerativa propõe precisamente o caminho inverso: devolver ao solo a sua função original, enquanto sistema vivo, capaz de sustentar a planta de forma equilibrada, centrando-se na recuperação da vida do solo enquanto base de todo o sistema produtivo. Mais do que uma técnica, trata-se de uma mudança de mentalidade.
Na Herdade das Servas, isso traduz-se numa mudança visível na própria paisagem da vinha, que deixou de ser um espaço limpo e homogéneo para passar a integrar uma maior diversidade de plantas espontâneas, insetos, microrganismos, resultando em vinhas cheias de vida. Aquilo que durante muito tempo foi visto como desleixo é, na verdade, um sinal de vitalidade, porque onde há biodiversidade há equilíbrio.
Ao contrário do que acontecia no passado, em que se eliminavam sistematicamente as chamadas “ervas daninhas”, hoje procuramos compreender o papel que desempenham no ecossistema, promovendo a presença de insetos auxiliares e de microrganismos que contribuem para a saúde da vinha. Este reforço da biodiversidade traduz-se num fortalecimento do sistema imunitário das plantas, que passam a ter maior capacidade para resistir a doenças e a condições adversas, à semelhança do que acontece com qualquer ser vivo.
Este ponto é essencial, porque num contexto de alterações climáticas, marcado por fenómenos cada vez mais extremos, desde períodos prolongados de seca até episódios de precipitação intensa, a resiliência das plantas e a capacidade do solo para reter e absorver água tornam-se fatores determinantes. Um solo vivo, rico em matéria orgânica e microbiologia, comporta-se de forma muito diferente de um solo degradado, sendo capaz de responder melhor a estas variações e de sustentar a vinha em condições mais exigentes.
Para além dos benefícios ambientais e agronómicos, há também um impacto direto na qualidade do vinho. Uma planta que cresce em equilíbrio, em interação com um solo biologicamente ativo, tende a produzir uvas mais concentradas, com maior complexidade aromática e melhor capacidade de envelhecimento. Não se trata de produzir mais, mas de produzir melhor, valorizando o produto final e garantindo simultaneamente a sustentabilidade económica da atividade.
Embora a agricultura biológica tenha desempenhado um papel importante na evolução das práticas agrícolas, considero que, nos dias de hoje, já não é suficiente para responder aos desafios que enfrentamos. A viticultura regenerativa vai mais longe, não apenas por excluir produtos de síntese, mas por colocar no centro da sua abordagem a regeneração do solo e o funcionamento integrado do ecossistema, deixando de lado uma lógica de intervenção corretiva para privilegiar uma lógica preventiva e sistémica.
Um dos grandes desafios que enfrentamos passa pela forma como comunicamos estes conceitos, que são, por natureza, mais complexos e menos imediatos do que outras abordagens. A falta de clareza pode abrir espaço a interpretações erradas ou a práticas de greenwashing, o que torna ainda mais importante garantir transparência, rigor e mecanismos de validação entre produtores, assentes na prática e no conhecimento partilhado.
Foi precisamente com esse objetivo que criámos o Regenerative Wine Fest – cuja 3ª edição se realiza já no próximo dia 16 de maio, na Herdade das Servas – um espaço de encontro que reúne produtores, especialistas e público em geral para discutir, esclarecer e aprofundar o tema da viticultura regenerativa. Mais do que um evento, trata-se de uma iniciativa coletiva que pretende promover uma mudança de atitude ao longo de toda a cadeia de valor, aproximando quem produz de quem consome e tornando esta realidade mais acessível e compreensível. Este ano, reunimos 15 produtores alinhados com estas práticas num dia marcado por palestras, conversas de campo, provas de vinho e experiências gastronómicas criadas exclusivamente com produtos regenerativos, aberto a todos os interessados, dos especialistas aos curiosos.
Acreditamos que Portugal tem condições únicas para se afirmar como uma referência nesta área, mas isso exige compromisso, consistência e uma vontade real de evoluir. No fundo, tudo começa no solo, que continua a ser o verdadeiro alicerce da vida e daquilo que fazemos. Regenerá-lo é, inevitavelmente, garantir o futuro da viticultura e a qualidade dos vinhos que queremos continuar a produzir.
