Pessoas com deficiência discriminadas no dia a dia: os números que a Europa não pode ignorar
Novos dados do Eurostat revelam que as pessoas com deficiência continuam a ser discriminadas de forma sistemática na Europa – nos serviços públicos, no acesso à habitação, nos espaços públicos e nas instituições de ensino. Os números publicados a 4 de maio de 2026, em resultado do inquérito às condições de vida na UE (2024), são um retrato incómodo: a discriminação não é a exceção – é a experiência quotidiana de milhões de pessoas.
O dobro da discriminação nos serviços públicos
Em 2024, 9,4% das pessoas com deficiência com 16 ou mais anos na União Europeia sentiram-se discriminadas no contacto com escritórios administrativos ou serviços públicos. Entre as pessoas sem deficiência, esse valor foi de 4,0% – menos de metade. Na procura de habitação, 8,2% das pessoas com deficiência reportaram discriminação, contra 5,2% das sem deficiência. Nos espaços públicos, a diferença mantém-se: 5,0% versus 3,0%. Nas instituições de ensino, 4,1% contra 2,3%.
Em todos os contextos analisados, e em todos os países da UE, as pessoas com deficiência registam taxas de discriminação percecionada consistentemente mais elevadas. Não há exceções.
Que países registam os valores mais altos?
Nos serviços públicos e escritórios administrativos, as taxas mais elevadas de discriminação percecionada entre pessoas com deficiência foram registadas na Estónia (14,6%) e em Espanha (14,5%), seguidas da Bélgica (12,8%), Holanda (12,5%) e Suécia (12,3%). Os valores mais baixos pertencem ao Chipre e à Itália (ambos com 3,1%), Croácia (4,3%) e Hungria (4,5%). Para Portugal, o Eurostat assinala que os dados têm fiabilidade reduzida, pelo que devem ser lidos com cautela.
O que nos dizem estes números
A discriminação percecionada não equivale necessariamente a discriminação legal comprovada – o Eurostat reconhece que as perceções são influenciadas pelo nível de consciência dos indivíduos, pelo contexto legal e pelo grau de aceitação social em cada país. Ainda assim, a consistência dos dados é notória: em toda a UE, sem exceção, as pessoas com deficiência sentem-se mais discriminadas do que as restantes, em todos os contextos medidos. Isso não é uma coincidência – é um padrão estrutural.
A publicação deste relatório marca o início do Mês Europeu da Diversidade 2026, que este ano centra a atenção na importância da inclusão na sociedade e nos locais de trabalho. Mas os números do Eurostat lembram que a inclusão não é apenas uma questão de boas práticas empresariais: começa antes, na forma como os serviços públicos e os espaços comuns estão – ou não estão – preparados para receber a diversidade humana.

