Microplásticos no Mondego e no Vouga: o que a investigação da Universidade de Coimbra encontrou – e o que isso significa

Uma equipa internacional liderada pelo MARE-UCoimbra encontrou microplásticos em todos os locais de amostragem dos rios Mondego e Vouga. As fibras são o tipo mais comum, o polietileno e o polipropileno os polímeros dominantes, e as zonas de maior pressão urbana e agrícola concentram os níveis mais elevados de contaminação. É uma das primeiras avaliações integradas de risco ecológico por microplásticos em rios portugueses de interior – e os resultados chegam numa altura em que a regulação europeia sobre microplásticos está, finalmente, a ganhar substância jurídica.

O estudo, publicado na revista científica Journal of Hazardous Materials: Plastics, liderado por Seena Sahadevan, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra) e do Departamento de Ciências da Vida da UC, em colaboração com o Indian Institute of Science Education and Research Kolkata, analisou microplásticos em suspensão na coluna de água dos rios Mondego e Vouga – dois dos principais sistemas fluviais da região Centro de Portugal.

A escolha de rios de interior não é trivial. A maioria dos estudos de referência sobre microplásticos foca-se nos oceanos ou nos estuários costeiros, onde a concentração de contaminantes é frequentemente mais elevada e onde o impacto visual da poluição plástica é mais imediato. Os rios de interior – que funcionam como corredores de transporte de contaminantes desde as suas origens nas zonas montanhosas até ao mar – têm sido relativamente menos estudados em Portugal, o que torna este trabalho uma contribuição de base inédita para o conhecimento científico nacional.

O estudo detetou microplásticos em todos os locais de amostragem. Esta ubiquidade – a presença em absolutamente todos os pontos amostrados, independentemente do grau de pressão humana em cada local – é em si mesma um resultado significativo: não há zonas de referência limpas. Mesmo em pontos dos rios relativamente afastados dos grandes centros urbanos, a contaminação por microplásticos está presente. O resultado confirma o que a literatura científica internacional tem documentado noutros rios europeus: a poluição por microplásticos em água doce é sistémica, não episódica.

O que foi encontrado: fibras, polietileno e um risco que varia com a pressão humana

A maioria das partículas detetadas apresentava dimensões inferiores a um milímetro – o limiar abaixo do qual a mobilidade ambiental e a biodisponibilidade para organismos aquáticos aumentam significativamente. Partículas desta dimensão são mais facilmente transportadas pela corrente, mais dificilmente retidas nos processos convencionais de tratamento de água e mais prontamente ingeridas por invertebrados, peixes e outros organismos que habitam os rios.

As fibras foram o tipo morfológico mais frequente. Este dado é consistente com o padrão documentado noutros rios europeus e sugere que uma fonte importante de contaminação são as fibras sintéticas libertadas durante a lavagem de roupa – estimativas recentes indicam que uma única lavagem de roupa sintética pode libertar centenas de milhares de microfibras, muitas das quais passam pelos sistemas de tratamento de águas residuais e chegam aos cursos de água. A restante fração é composta por fragmentos e filmes de diferentes origens.

Entre os polímeros identificados, o polietileno e o polipropileno foram os mais frequentes – dois dos plásticos de maior produção global, amplamente utilizados em embalagens de uso único, sacos, tampas e embalagens agrícolas. A sua prevalência nos rios estudados reflete diretamente a composição do fluxo de resíduos plásticos que, por abandono, arrastamento ou deposição inadequada, entra nos sistemas hídricos.

A avaliação de risco ecológico – um dos elementos metodologicamente mais avançados do estudo, baseada em índices internacionais de poluição e perigo – revelou um padrão espacial claro: os níveis de risco variam entre baixo e potencialmente elevado consoante a pressão antrópica de cada zona. As áreas com maior concentração de atividades urbanas, turismo, agricultura intensiva e infraestruturas mostraram consistentemente níveis de contaminação mais elevados. As concentrações globais são moderadas face aos padrões de rios altamente urbanizados noutros países europeus – mas a presença de partículas de pequena dimensão em múltiplos locais cria um risco ecológico que não pode ser ignorado.

O que os microplásticos fazem nos rios – e porque as fibras são especialmente preocupantes

Os microplásticos nos sistemas de água doce não são apenas um indicador de poluição: são um vetor ativo de perturbação ecológica. Os organismos aquáticos – de macroinvertebrados bentónicos a larvas de inseto, de peixes juvenis a anfíbios – podem ingerir microplásticos confundindo-os com alimento, com consequências documentadas ao nível da nutrição, da reprodução e do comportamento. Estudos em laboratório demonstraram que a exposição a microplásticos pode reduzir a taxa de filtração de bivalves de água doce, alterar a composição das comunidades de invertebrados bentónicos e afetar o crescimento de larvas de peixes.

As fibras sintéticas – o tipo mais frequente neste estudo – têm características que as tornam particularmente preocupantes neste contexto. A sua forma alongada facilita a ingestão por organismos filtradores que não as conseguem distinguir de presas naturais de forma similar. Podem acumular contaminantes orgânicos persistentes na sua superfície, funcionando como vetores de transporte de substâncias tóxicas para a cadeia alimentar. E a sua baixa densidade faz com que permaneçam em suspensão na coluna de água durante períodos prolongados, maximizando o contacto com organismos aquáticos.

A investigação também contribui para um debate científico em aberto sobre a questão dos chamados microplásticos secundários – partículas resultantes da fragmentação de plásticos maiores por ação da radiação ultravioleta, da temperatura e da abrasão mecânica. Em rios com pressão agrícola como o Mondego e o Vouga, as embalagens plásticas de adubos e pesticidas, as películas agrícolas e os sistemas de irrigação por gotejamento são fontes de plástico que, quando mal geridas, se fragmentam progressivamente no ambiente e alimentam o stock de microplásticos nos sistemas hídricos.

CONTEXTO REGULATÓRIO EUROPEU: O QUE MUDOU – E O QUE FALTA

Setembro de 2023: a Comissão Europeia adotou a primeira restrição REACH a microplásticos sintéticos adicionados intencionalmente (micropellets, microesferas em cosméticos, fertilizantes, etc.) – a maior restrição de substâncias alguma vez adotada ao abrigo do REACH, cobrindo um universo estimado de 36.000 a 42.000 toneladas por ano.

Novembro de 2025: entrou em vigor o Regulamento EU 2025/2365 sobre prevenção de perdas de pellets plásticos – obrigando operadores industriais que manuseiem mais de cinco toneladas de pellets por ano a implementar planos de gestão do risco de derrame e a reportar perdas à ECHA. Prazo de reporte para 2025: 31 de maio de 2026.

Início de 2025: a nova Diretiva de Águas Residuais Urbanas revista obriga as grandes ETAR a monitorizar microplásticos duas vezes por ano – um primeiro passo em direção à quantificação sistemática das emissões via efluentes tratados.

Maio de 2026: a nova Diretiva Europeia da Água entrou em vigor, incluindo pela primeira vez os microplásticos nas listas de monitorização obrigatória – sem ainda definir limites regulatórios, mas criando a obrigação de produzir dados sistemáticos que poderão fundamentar limites futuros.

O que falta: limites regulatórios vinculativos para microplásticos em corpos de água doce, metodologia de amostragem padronizada a nível europeu, e requisitos específicos para a redução de microfibras têxteis na fonte – um dos principais vetores de entrada nos sistemas hídricos e ainda sem regulação europeia específica.

O que Portugal precisa de fazer

A investigadora Seena Sahadevan é clara na interpretação dos resultados: o trabalho fornece informação de base importante sobre a contaminação por microplásticos em sistemas de água doce em Portugal e evidencia a necessidade de monitorização contínua e de estratégias de mitigação. A palavra-chave é base: este estudo estabelece uma linha de referência – um retrato do estado de contaminação atual – a partir da qual é possível medir tendências futuras e avaliar a eficácia de intervenções.

Para que essa monitorização contínua seja possível, Portugal precisará de investir em redes de amostragem sistemáticas que vão além dos estudos académicos pontuais. A nova Diretiva Europeia da Água, em vigor desde 11 de maio de 2026, cria a obrigação de monitorizar microplásticos nas massas de água europeias – e Portugal tem até dezembro de 2027 para transpor as suas disposições para o ordenamento jurídico nacional. A investigação da UC chega, portanto, num momento em que os dados que produz são não apenas relevantes do ponto de vista científico, mas necessários do ponto de vista regulatório.

As estratégias de mitigação identificadas pela literatura científica como mais eficazes combinem intervenções a diferentes escalas. A montante, a redução das fontes: melhoria da gestão de resíduos plásticos agrícolas, programas de recolha de embalagens no sector agrícola, investimento em tecnologia de retenção de microfibras em máquinas de lavar roupa ou nas ETAR que recebem os efluentes domésticos. A meio caminho, a melhoria dos sistemas de tratamento de águas residuais, onde a adição de tratamento terciário avançado pode remover uma fração significativa dos microplásticos antes da descarga nos cursos de água. A jusante, a monitorização sistemática e a comunicação transparente dos resultados – o que este estudo, precisamente, faz.

Há também uma dimensão educativa que não pode ser subestimada. O Mondego e o Vouga são rios que atravessam territórios com forte identidade cultural e ambiental, com comunidades que dependem deles para pesca, turismo, agricultura e abastecimento de água. Comunicar que estes rios contêm microplásticos em todos os pontos amostrados não é alarmismo – é informação necessária para que as comunidades possam exigir e apoiar as políticas de proteção que lhes dizem respeito diretamente. A ciência feita pela Universidade de Coimbra tem agora a responsabilidade de sair do Journal of Hazardous Materials e chegar às assembleias municipais e às escolas das bacias hidrográficas do Mondego e do Vouga.

Investigação estabelece um precedente metodológico

Para além dos resultados substantivos, o estudo tem um valor metodológico que merece destaque. A combinação de quantificação de microplásticos em suspensão na coluna de água com uma avaliação de risco ecológico baseada em índices internacionais validados é uma abordagem mais completa do que a simples contagem de partículas. Permite comparar os resultados portugueses com os de estudos realizados noutros rios europeus e mundiais, e fornece uma base mais robusta para a definição de limiares de intervenção regulatória.

A colaboração entre o MARE-UCoimbra e o Indian Institute of Science Education and Research Kolkata reflecte também uma tendência crescente na investigação sobre plásticos ambientais: os problemas são globais, as metodologias são partilhadas, e as soluções exigem conhecimento que transcende fronteiras. Que uma equipa com investigadores de dois continentes tenha escolhido os rios do centro de Portugal como caso de estudo é, em si mesmo, um reconhecimento da relevância científica e geográfica destes ecossistemas.

Os microplásticos que circulam hoje nas águas do Mondego e do Vouga chegaram até lá através de escolhas – de produção, de consumo, de gestão de resíduos – que foram feitas ao longo de décadas. Não sairão de lá por si próprios. Mas com monitorização sistemática, regulação progressivamente mais exigente e comunidades informadas, é possível travar o crescimento da contaminação e, a prazo, inverter a tendência. O estudo da Universidade de Coimbra é o primeiro passo necessário nesse caminho: saber onde estamos.

Fonte: MARE-UCoimbra / Journal of Hazardous Materials: Plastics / Comissão Europeia / REACH

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