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Certificação B Corp está a ser reinventada: entre a crise de credibilidade e a maior procura de sempre

Mais de 9.900 empresas certificadas em 105 países. Uma das marcas de sustentabilidade mais reconhecidas pelos consumidores a nível global. E, ao mesmo tempo, uma das mais questionadas: a Dr. Bronner’s saiu, a Scrumbles chamou-lhe um marketing badge, e várias outras empresas optaram por não renovar. Em 2026, a B Corp está no centro de uma tensão que define o estado da sustentabilidade empresarial: nunca foi tão procurada, nunca foi tão escrutinada. Os novos standards V2.1 do B Lab, em implementação progressiva ao longo deste ano, representam a maior reforma da certificação desde a sua criação – uma resposta direta às críticas de integridade. E a Green Claims Directive europeia, em aplicação a partir de setembro, está a criar as condições para que certificações verificáveis como a B Corp se tornem instrumentos de conformidade regulatória, e não apenas de diferenciação voluntária.

A certificação B Corp, gerida pela organização sem fins lucrativos B Lab, foi criada em 2006 nos Estados Unidos com um propósito ambicioso: criar uma classe de empresas que equilibrassem o lucro com o impacto positivo para as pessoas e para o planeta, e tornar esse compromisso verificável e comparável. Ao contrário das certificações de produto – que avaliam um item específico segundo critérios ambientais ou sociais – a B Corp avalia a empresa como um todo: a sua governação, os seus trabalhadores, a sua comunidade, o seu ambiente e os seus clientes. O resultado é um score que, para ser certificado, tinha de atingir pelo menos 80 pontos numa escala de 200.

Durante quase duas décadas, a B Corp cresceu de uma iniciativa de nicho nos EUA para um movimento global com presença em 105 países e 160 sectores. Em Portugal, dezenas de empresas – de consultoras a marcas de alimentação, de startups de tecnologia a empresas industriais – obtiveram ou estão a trabalhar para obter a certificação. A associação B Lab Europe tem atuado ativamente no espaço europeu, e o crescimento do número de B Corps portuguesas nos últimos cinco anos reflete uma tendência de fundo: o mercado e os investidores europeus estão a valorizar cada vez mais a demonstração verificável de compromisso com a sustentabilidade.

Mas o crescimento trouxe também as suas tensões. À medida que grandes empresas multinacionais – com cadeias de abastecimento complexas, operações em múltiplas jurisdições e históricos ambientais mistos – começaram a obter a certificação, as críticas à integridade do sistema intensificaram-se. O argumento central dos críticos era que o sistema de pontuação permitia compensar fraquezas significativas em algumas dimensões com desempenhos excecionais noutras – um mecanismo que, na prática, poderia permitir a uma empresa com uma cadeia de abastecimento opaca obter certificação graças a boas práticas de governação interna ou de envolvimento comunitário.

A saída da Dr. Bronner’s e o momento de rutura

O momento que cristalizou publicamente esta tensão foi a saída da Dr. Bronner’s em fevereiro de 2025. A empresa americana de produtos de higiene pessoal, fundada em 1948 e com quase 200 milhões de dólares de receita em 2023, era uma das B Corps mais antigas e mais respeitadas do movimento. A sua decisão de abandonar a certificação – e de o fazer com uma declaração pública contundente – teve um impacto simbólico que ultrapassou em muito o seu peso comercial.

A empresa disse que a inclusão de grandes empresas multinacionais no roster B Corp demonstrava que o B Lab não estava comprometido com a proteção da integridade da certificação nem com a garantia de que o selo não seria usado para induzir os consumidores em erro. A Dr. Bronner’s foi explícita: não via ação adequada, transparente e atempada por parte do B Lab para atualizar os standards ou o processo de certificação.

Não foi a única. A marca britânica de alimentação para animais Scrumbles, cujo fundador descreveu publicamente a B Corp como pouco mais do que um marketing badge, e outras empresas que optaram silenciosamente por não renovar, compõem um quadro de erosão interna da confiança que o B Lab não podia ignorar. A resposta chegou em abril de 2025: a publicação dos novos B Lab Standards V2.1 – a maior reforma da certificação desde a sua criação.

Novos standards V2.1: do sistema de pontos para limiares obrigatórios

A mudança central dos novos standards é estrutural: o antigo sistema de pontuação acumulada deixa de existir como mecanismo principal de certificação. Em vez de acumular pelo menos 80 pontos numa escala de 200, as empresas passam a ter de demonstrar desempenho mínimo obrigatório em sete áreas de impacto definidas – os chamados Impact Topics – sem possibilidade de compensar fraquezas numa área com excelência noutra.

Os sete Impact Topics cobrem: trabalhadores, comunidade, ambiente, clientes, governação, e dois temas transversais – direitos humanos e práticas laborais na cadeia de abastecimento. A implementação é progressiva e assente em três horizontes temporais: o Ano 0, que estabelece os requisitos fundacionais para obter certificação; o Ano 3, com obrigações acrescidas; e o Ano 5, com o nível mais exigente de compromisso. Esta progressividade é deliberada – reconhece que a transformação das práticas empresariais leva tempo, e que o valor da certificação está também no processo de melhoria contínua, não apenas no momento da avaliação.

Clay Brown, colíder executivo do B Lab Global, descreveu a reforma de forma direta: não é apenas uma atualização – é uma reimaginação completa do impacto empresarial em resposta aos desafios do nosso tempo. O B Lab publicou também diretrizes de comunicação pré-aprovadas para as empresas certificadas, um passo que responde diretamente à pressão regulatória crescente: num contexto em que a Green Claims Directive europeia exige que as alegações de sustentabilidade sejam substanciadas, ter linguagem comunicacional alinhada com os standards verificados é um ativo regulatório concreto.

A transição para os novos standards começou em abril de 2025 e está a decorrer progressivamente ao longo de 2026. As empresas que estão em processo de primeira certificação ou de recertificação são avaliadas ao abrigo dos novos critérios. Aquelas que já detinham certificação têm um período de transição para se adaptar. O resultado, espera o B Lab, será uma base de empresas certificadas mais reduzida em número – algumas não conseguirão cumprir os limiares obrigatórios nos sete Impact Topics, mas mais robusta em qualidade e mais resistente ao escrutínio.

O que a Euromonitor diz: um sinal de governação, não de produto

Num contexto em que as certificações de sustentabilidade proliferam e em que os consumidores estão progressivamente mais céticos em relação a claims genéricos, a Euromonitor publicou uma análise específica sobre o que a B Corp realmente sinaliza para o mercado em 2025-2026. A conclusão é precisa e importante para as empresas que comunicam o seu status B Corp aos consumidores: a certificação não promete um resultado ambiental específico – não diz que o produto tem uma determinada pegada de carbono, ou que a embalagem é reciclável, ou que os ingredientes são orgânicos. Sinaliza algo diferente e mais abrangente: que a responsabilidade social e ambiental está incorporada na forma como a empresa é governada, não apenas na forma como o produto é fabricado.

Esta distinção é operacionalmente relevante para a comunicação das marcas. Uma empresa B Corp pode ter produtos com pegadas ambientais variadas – o que a certificação atesta é que existe um compromisso sistémico e verificável de medir, gerir e melhorar esse impacto ao longo do tempo. É uma diferença entre uma promessa de resultado e uma promessa de processo, e a Euromonitor argumenta que esta diferença é frequentemente mal comunicada, tanto pelas empresas como pelos meios de comunicação que cobrem a sustentabilidade empresarial.

O tracker de claims de sustentabilidade da Euromonitor mostra que as empresas que comunicam a B Corp status nos seus produtos e nas suas plataformas digitais estão a fazê-lo crescentemente como sinal de governação – não como substituto de claims de produto específicos. A estratégia mais eficaz, segundo os dados da Euromonitor, combina o sinal de governação da B Corp com claims de produto verificáveis e quantificados: não apenas somos B Corp, mas também reduzimos as nossas emissões de Âmbito 1 e 2 em 40% desde 2020 e usamos 80% de embalagem reciclada. A B Corp fornece o enquadramento de credibilidade; os claims de produto fornecem a substância específica.

A Green Claims Directive e o paradoxo regulatório que pode salvar a B Corp

Há um paradoxo interessante na forma como a pressão regulatória europeia está a interagir com a crise de credibilidade da B Corp. A Green Claims Directive, que entra em aplicação em setembro de 2026, torna ilegais as alegações ambientais genéricas e não substanciadas, e exige verificação independente por terceiros para qualquer claim específico de sustentabilidade. Num contexto em que a maioria das empresas faz afirmações de sustentabilidade sem verificação externa, a existência de um quadro de certificação independente, auditado e progressivamente mais exigente como a B Corp torna-se um ativo regulatório, e não apenas um diferenciador voluntário.

As empresas com certificação B Corp ativa têm, no novo quadro regulatório europeu, uma vantagem concreta: os seus claims de sustentabilidade que derivam diretamente dos critérios do B Lab – governação responsável, práticas laborais, envolvimento comunitário, gestão ambiental – são substanciados por uma verificação independente documentada. Isto não substitui a necessidade de claims de produto específicos com métricas próprias, mas fornece um enquadramento de credibilidade que a maioria das empresas sem certificação terá de construir a partir do zero para cumprir os requisitos da diretiva.

A Empowering Consumers for the Green Transition Directive (ECGT), da qual a Green Claims Directive é um instrumento de implementação, vai na mesma direção: exige que as empresas suportem as suas alegações de sustentabilidade com evidência concreta, e proíbe declarações vagas como eco-friendly, sustentável ou verde sem especificação do benefício ambiental e da sua verificação. Neste contexto, o B Lab publicou diretrizes de comunicação explicitamente alinhadas com as expectativas regulatórias europeias – um sinal de que a organização está consciente de que a sua relevância futura depende da compatibilidade com o quadro legal em vigor.

O que isto significa para as empresas portuguesas

Em Portugal, a comunidade B Corp tem crescido de forma consistente nos últimos anos, com empresas de sectores tão diversos como a consultoria, a alimentação, os têxteis, a tecnologia e os serviços financeiros a obterem ou a trabalharem para obter a certificação. A reforma dos standards V2.1 chega a estas empresas num momento de oportunidade e de desafio em simultâneo.

O desafio é o da transição: os novos limiares obrigatórios nos sete Impact Topics são mais exigentes do que o antigo sistema de pontuação para muitas empresas, especialmente naquelas áreas – cadeia de abastecimento, direitos humanos, impacto ambiental mensurável – onde a recolha de dados é mais complexa e dispendiosa. Empresas que obtiveram a certificação ao abrigo do sistema anterior e que têm pontos fortes em governação, mas debilidades na cadeia de abastecimento terão de investir nessa dimensão para manter o status.

A oportunidade é igualmente real. Num mercado europeu onde a Green Claims Directive vai aumentar drasticamente o custo de fazer alegações de sustentabilidade sem verificação independente, as empresas que já têm a B Corp como enquadramento têm uma vantagem de partida significativa. E num mercado de exportação, onde os compradores europeus e americanos estão progressivamente a integrar critérios de sustentabilidade verificável nas suas cadeias de abastecimento, a B Corp funciona como um passaporte de credibilidade que transcende as fronteiras nacionais.

A tensão que a B Corp atravessa em 2026 – entre o crescimento da procura e o questionamento da integridade – é, em certa medida, a tensão de toda a sustentabilidade empresarial neste momento. As certificações que sobreviverão e prosperarão são as que conseguirem ser simultaneamente ambiciosas o suficiente para serem credíveis e acessíveis o suficiente para serem alcançáveis. Os novos standards V2.1 são uma aposta de que a B Corp pode ser as duas coisas. O veredicto chegará ao longo dos próximos anos, à medida que as empresas em transição confirmem, ou não, que o nível de exigência é real.

Fonte: Euromonitor International / B Lab / Supply Chain Magazine / The Sustainable Agency / Green Claims Directive

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