Agricultura regenerativa: cultivar sem destruir o solo que nos alimenta
Uma abordagem que vai além da sustentabilidade e propõe devolver à terra o que lhe foi retirado por décadas de agricultura intensiva
A agricultura moderna alimentou mil milhões de pessoas. Também destruiu, em poucas décadas, solos que a natureza levou milénios a construir. Estima-se que um terço dos solos agrícolas do mundo esteja degradado – compactado, empobrecido em matéria orgânica, erodido ou contaminado. E os solos degradados produzem menos, precisam de mais fertilizantes e retêm menos água. É um ciclo que se autoalimenta, e que a agricultura regenerativa propõe quebrar.
O conceito de agricultura regenerativa não é novo – radica em práticas ancestrais e em décadas de investigação agroecológica – mas ganhou impulso renovado nos últimos anos, à medida que a crise climática e a degradação dos ecossistemas tornaram urgente repensar os sistemas alimentares. A ideia central é simples: em vez de nos limitarmos a não piorar o estado do solo, podemos ativamente melhorá-lo.
As técnicas são diversas, mas partilham uma lógica comum. A mobilização mínima do solo – ou a sua ausência total, no chamado no-till – preserva a estrutura e os organismos que nele vivem. As culturas de cobertura, plantadas entre as culturas principais, protegem o solo da erosão e fixam azoto. A rotação de culturas diversificada quebra os ciclos de pragas e doenças sem recurso a pesticidas. A integração de árvores com a produção agrícola – o agroflorestalismo – cria sistemas mais resilientes e mais ricos em biodiversidade.
Em Portugal, a agricultura regenerativa encontrou um terreno fértil, literalmente. O Alentejo, com os seus montados de sobro e azinho, é um dos sistemas agroflorestais mais complexos e biologicamente ricos do mundo, e um exemplo, anterior ao próprio conceito, do que a agricultura regenerativa pode ser. Produtores de cortiça, de gado extensivo, de cereais e de azeite estão progressivamente a incorporar práticas regenerativas nas suas explorações, com resultados que começam a ser documentados em termos de sequestro de carbono, aumento da matéria orgânica e melhoria da retenção de água.
O interesse das grandes marcas alimentares e retalhistas também aumentou. Empresas como a Nestlé, a Danone ou o grupo Sonae têm programas de apoio a agricultores que adotem práticas regenerativas, reconhecendo que a estabilidade das suas cadeias de abastecimento depende da saúde dos solos onde os seus ingredientes são produzidos. Esta convergência entre interesse económico e imperativo ecológico é, talvez, o sinal mais encorajador de que a transição pode ganhar escala.
Os desafios são reais. A conversão de uma exploração convencional para regenerativa implica um período de transição em que as produções podem cair antes de recuperarem. Requer conhecimento técnico específico, muitas vezes ausente nos sistemas de formação agrícola tradicionais. E enfrenta a resistência de um sistema de subsídios agrícolas que, apesar das reformas da Política Agrícola Comum, ainda recompensa mais a produção do que a saúde do ecossistema.
Mas os números começam a falar. Estudos publicados em revistas científicas mostram que solos geridos de forma regenerativa podem sequestrar quantidades significativas de carbono atmosférico – contribuindo para a mitigação das alterações climáticas – ao mesmo tempo que produzem alimentos de maior qualidade nutricional. O solo não é apenas o substrato da agricultura. É o maior ecossistema terrestre, o lar de mais de um quarto de toda a biodiversidade do planeta. Cuidar dele é, também, cuidar de nós.

