Economia azul: o oceano como motor de desenvolvimento sustentável
Portugal, com a maior zona económica exclusiva da União Europeia, tem uma posição privilegiada para liderar uma nova relação com o mar
O oceano cobre 71% da superfície do planeta, produz mais de metade do oxigénio que respiramos, regula o clima global e alimenta mais de três mil milhões de pessoas. É também, paradoxalmente, o ecossistema mais pressionado pelas atividades humanas e o menos protegido pelas políticas ambientais. A economia azul surge precisamente neste cruzamento: como usar o oceano de forma sustentável, gerando riqueza sem destruir o capital natural que a torna possível.
Para Portugal, o tema é estruturante. Com cerca de 1,7 milhões de quilómetros quadrados de zona económica exclusiva – a maior da União Europeia – o país tem uma relação histórica, cultural e económica com o mar que lhe confere tanto responsabilidade como oportunidade. Da pesca à aquicultura, da energia eólica offshore ao turismo costeiro, do transporte marítimo à biotecnologia marinha, as atividades ligadas ao oceano representam já uma parcela significativa do produto interno bruto nacional.
A aquicultura sustentável é um dos domínios com maior potencial de crescimento. A produção de peixe em mar aberto, de moluscos em sistemas extensivos ou de algas para alimentação humana e animal são alternativas que reduzem a pressão sobre as populações selvagens e podem ser desenvolvidas com impactos ambientais muito inferiores à pecuária terrestre. Portugal tem condições naturais excecionais para este desenvolvimento, com uma costa atlântica de águas frias e ricas em nutrientes.
A energia do oceano é outro capítulo promissor. A energia eólica offshore – turbinas instaladas em alto mar, onde os ventos são mais constantes e intensos – está em expansão acelerada na Europa, com países como o Reino Unido, a Dinamarca e os Países Baixos a liderarem. Portugal, com a sua exposição atlântica, tem potencial para ser um polo de produção e de exportação desta tecnologia. O projeto de Viana do Castelo, primeiro parque eólico offshore português, é um passo nessa direção, mas o caminho a percorrer é ainda longo.
A biotecnologia marinha – a exploração de organismos marinhos para desenvolver medicamentos, cosméticos, materiais ou soluções industriais – é um dos campos científicos de mais rápido crescimento. Portugal tem uma comunidade científica ativa nesta área, com institutos como o CIIMAR no Porto ou o CCMAR no Algarve a desenvolver investigação de referência internacional. Transformar esse conhecimento em valor económico, mantendo os princípios da sustentabilidade e da partilha justa de benefícios, é o desafio da próxima década.
Mas a economia azul sustentável não pode ignorar o estado de degradação dos oceanos. A sobrepesca, a poluição por plásticos e químicos, a acidificação provocada pelo excesso de CO2 atmosférico, a destruição de habitats costeiros como as pradarias de erva-marinha ou os recifes de coral – estes são problemas reais que ameaçam a base biológica sobre a qual toda a economia marítima assenta.
A proteção de pelo menos 30% dos oceanos até 2030, como prevê o Acordo de Kunming-Montreal sobre biodiversidade, é uma condição necessária, mas não suficiente, para garantir que o mar continue a ser fonte de vida e de prosperidade. O oceano não é um recurso inesgotável. É um sistema vivo, com limites, com dinâmicas próprias e com uma paciência que os séculos de exploração desmedida têm vindo a testar. A economia azul, para ser verdadeiramente azul, tem de começar por ouvir o que o mar tem a dizer.

