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Da extração ao pertencimento: o Fórum de Agricultura Regenerativa 2026 redefine a relação entre a humanidade e a terra

A 23 de junho de 2026, em Piracicaba, no estado de São Paulo, o Fórum de Agricultura Regenerativa reuniu pela primeira vez no Brasil quase 350 participantes presenciais e mais de 3.700 online. Organizado pelo Global Landscapes Forum, pela Sustainable Agriculture Network, pelo Imaflora e pela CABI, o evento congregou agricultores, cientistas, investidores, líderes empresariais, comunidades indígenas e formuladores de políticas públicas em torno de uma urgência crescente: num ano em que o Super El Niño ameaça intensificar secas, cheias e ruturas nas cadeias de abastecimento, a agricultura regenerativa deixou de ser uma prática de nicho para se tornar uma prioridade global. A questão central debatida em Piracicaba não foi se a transição é necessária, essa batalha está ganha. Foi como acelerá-la, financiá-la e torná-la acessível a todos os agricultores, dos grandes produtores às comunidades tradicionais.

A escolha do Brasil como palco da primeira edição presencial do Fórum de Agricultura Regenerativa não é acidental. O país é simultaneamente um dos maiores produtores agrícolas do mundo e um dos mais expostos às consequências de um sistema alimentar que, segundo os dados citados no fórum, é responsável por um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa. É também o país que acolheu a COP30 em Belém em novembro de 2025, colocando a Amazónia e os sistemas alimentares no centro da agenda climática global, e que tem nas suas paisagens rurais, nas suas florestas e nas suas comunidades tradicionais alguns dos ativos mais determinantes para o futuro do clima planetário.

O contexto de urgência foi estabelecido desde o início. A pressão sobre os sistemas alimentares globais está a aumentar a um ritmo alarmante, e em 2026 o Super El Niño que o GreenOcean tem vindo a acompanhar é esperado como um fator de intensificação de enchentes, secas e interrupções nas cadeias de abastecimento, com impactos diretos na segurança alimentar de populações já vulneráveis, desde a Ásia do Sul, onde o arroz é o alimento base de milhões de pessoas em situação de pobreza, até às regiões africanas dependentes de agricultura de subsistência.

Analí Bustos, diretora estratégica para a América Latina da Naia Trust, colocou a questão num enquadramento que percorreu todo o fórum: a transição para a agricultura regenerativa é tão urgente quanto as transições nos sectores de transporte e energia. É uma afirmação com peso político concreto, porque coloca os sistemas alimentares ao nível das prioridades que têm dominado a agenda climática internacional, e que têm recebido investimentos e atenção política que os solos, as florestas e a agrobiodiversidade raramente conseguem mobilizar à mesma escala.

Da separação ao pertencimento: a mudança de paradigma que está no centro de tudo

O fio condutor mais poderoso das discussões em Piracicaba foi uma reconfiguração da relação entre a humanidade e a terra – que os participantes descreveram não como uma questão técnica, mas como uma questão filosófica, ética e, em última análise, política. Xiaoan Li, gerente sénior de programas do Fetzer Institute, articulou-a com precisão: muitos de nós herdámos uma visão do mundo baseada na separação – a humanidade separada da natureza, das outras pessoas e das gerações futuras. Assim, a extração torna-se normal, a terra vira mercadoria, a água transforma-se em recurso e o mundo vivo passa a ser algo que administramos, em vez de algo ao qual pertencemos.

A proposta de Li é ao mesmo tempo simples na sua formulação e radical nas suas implicações: se conseguirmos passar da separação para o pertencimento, e da extração para relações de reciprocidade, a regeneração deixará de ser apenas uma prática e tornar-se-á uma forma de existir. É uma mudança que não pode ser prescrita por decreto nem implementada por regulação, requer uma transformação cultural que começa na educação e nas relações concretas com a terra.

Isabela Pascoal Becker, diretora de Sustentabilidade da Daterra Coffee, reforçou a dimensão do pensamento sistémico que esta mudança exige: é impossível resolver as complexidades que vivemos hoje de uma maneira linear, processual, mudando apenas um item. A agricultura regenerativa, na sua visão, é uma oportunidade de acolher a agricultura como parte da natureza, e não como um problema ambiental, abrindo assim espaço para colaborações entre atores e sectores que a lógica de separação entre produção e ambiente tornava impossíveis.

Ricardo Abramovay, professor sénior da Universidade de São Paulo e uma das principais referências em bioeconomia, foi ainda mais direto na dimensão normativa da questão: a agricultura regenerativa representa não apenas uma técnica, mas um valor ético e normativo capaz de promover uma relação mais saudável entre as pessoas e a natureza. O convite que lançou a todos os atores negociarem uma transição que abandone práticas prejudiciais, é também um reconhecimento de que a transição não pode ser imposta de cima para baixo, mas tem de ser co-construída com os agricultores, as comunidades tradicionais e os povos indígenas cuja cultura material e espiritual tem de ser permanentemente respeitada.

As vozes da terra: conhecimento indígena e direito à floresta

Um dos momentos mais impactantes do fórum foi a intervenção de Nancy Reyna López, liderança Weenhayek e cocoordenadora da GLFx Wikina Wos. A sua voz colocou em primeiro plano uma dimensão que frequentemente fica invisível nas discussões técnicas sobre agricultura regenerativa: a existência de comunidades cujo modo de vida, cultura e identidade são inseparáveis dos ecossistemas que habitam e gerem.

As palavras de López foram diretas e urgentes: como mulheres indígenas, não podemos viver sem a floresta. “À medida que a nossa floresta desaparece, a nossa cultura desaparece com ela. A sua comunidade Weenhayek, de baixa renda e distante dos centros urbanos, depende da floresta para plantas medicinais, alimentos nativos nutritivos e para transmitir às crianças os conhecimentos que permitem à cultura sobreviver. Nasci nessa floresta e tenho o direito de defendê-la, de cultivá-la. Não quero perder a minha cultura, a minha língua materna nem os conhecimentos que os meus avós me transmitiram”.

Esta perspetiva é central para uma compreensão honesta da agricultura regenerativa que vá além da sua dimensão técnica e agronómica. Os povos indígenas e as comunidades tradicionais são, em todo o mundo, os guardiões de sistemas de gestão do território que combinam, há séculos ou milénios, produção alimentar com conservação de biodiversidade, gestão de solos e transmissão de conhecimento ecológico. Excluí-los das conversas sobre regeneração, ou reduzi-los a objetos de intervenção em vez de sujeitos de decisão, é ao mesmo tempo eticamente inaceitável e praticamente ineficaz. O fórum de Piracicaba foi, neste especto, um exemplo de como incluir estas vozes no centro do debate, e não na sua periferia.

Barreiras reais: financiamento, pesticidas e a falta de evidência a nível do produtor

Para além dos debates filosóficos e éticos, o fórum abordou com franqueza as barreiras práticas que continuam a travar a adoção da agricultura regenerativa à escala necessária. Ulrich Kuhlmann, cientista-chefe da CABI, identificou três obstáculos centrais que os participantes reconheceram como determinantes.

O primeiro é a falta de evidência sobre os retornos para os produtores, especialmente os financeiros. A maior parte da investigação sobre agricultura regenerativa documenta os seus benefícios ambientais e, em menor escala, os seus benefícios para a saúde do solo a longo prazo. Mas os agricultores tomam decisões num horizonte temporal que raramente se estende por décadas, e precisam de evidência sobre o que ganham – ou deixam de perder – no curto prazo ao mudar as suas práticas. Sem esta evidência, gerada localmente e adaptada aos contextos específicos de cada produtor, a adoção permanece limitada aos que têm capital suficiente para absorver o risco da transição.

O segundo obstáculo é o aumento de 70% no uso de pesticidas desde 2000, um dado que Kuhlmann citou como sinal da direção oposta à regeneração que o sistema alimentar global tem vindo a tomar. A dependência crescente de insumos químicos não é apenas um problema ambiental, é também uma dependência económica que torna a transição para práticas menos intensivas em química mais difícil e mais cara para os agricultores que já a internalizaram.

O terceiro obstáculo é a estrutura dos sistemas de assistência técnica e de transferência de conhecimento, que raramente estão desenhados para apoiar a transição para práticas regenerativas. Geoffrey Hawtin, laureado com o Prémio Mundial da Alimentação de 2024 e ex-diretor de centros de investigação do CGIAR, identificou progressos reais em políticas internacionais, legislação de sementes e melhoramento genético vegetal focado em variedades mais resistentes e tolerantes. Mas sublinhou que estes progressos chegam aos agricultores de forma fragmentada, sem os ecossistemas de suporte – assistência técnica independente, plataformas de conhecimento acessíveis, mercados para culturas de oportunidade – que permitiriam a sua adoção sistemática.

O papel da ecologia nos currículos agronómicos, e a urgência de o mudar

Uma das observações mais provocadoras do fórum foi feita por Analí Bustos ao notar que a ecologia muitas vezes não faz parte dos currículos de agronomia e ciências agrícolas na Argentina e, por extensão, em muitos outros países. É uma lacuna com consequências diretas: engenheiros agrónomos e técnicos agrícolas formados sem uma base sólida em ecologia sistémica têm instrumentos limitados para orientar agricultores numa transição que exige precisamente essa compreensão.

Esta observação liga-se à dimensão da educação que percorreu várias intervenções ao longo do fórum. Se a transição para a agricultura regenerativa é, no fundo, uma mudança de paradigma sobre como a humanidade se relaciona com a terra, essa mudança precisa de começar, ou pelo menos de ser reforçada, nos sistemas de ensino. Não apenas nos currículos de agronomia, mas também nas escolas primárias e secundárias, onde as gerações que herdarão os sistemas alimentares do futuro estão a formar os seus valores e as suas compreensões do mundo.

Kuhlmann resumiu o desafio com precisão: se queremos ampliar a agricultura regenerativa, precisamos de investir não apenas em inovação, mas também em ecossistemas independentes de assistência técnica, em evidências geradas localmente e em plataformas de conhecimento que tornem estas inovações acessíveis, confiáveis e aplicáveis para todos os produtores. É uma agenda que vai muito além da investigação científica e exige uma reconfiguração dos sistemas de formação, extensão rural e transferência de conhecimento que a maioria dos países – incluindo Portugal – não está ainda a implementar à escala necessária.

O que isto significa para Portugal e para a Europa

Portugal tem no debate sobre agricultura regenerativa uma posição que combina vulnerabilidade e oportunidade de forma particularmente aguda. O país enfrenta uma trajetória de aridificação crescente, especialmente no Sul e no interior, que ameaça diretamente a viabilidade de sistemas agrícolas construídos para condições climáticas que estão a desaparecer. O Super El Niño de 2026, que o GreenOcean tem vindo a acompanhar, acrescenta urgência a esta vulnerabilidade estrutural.

Ao mesmo tempo, Portugal tem ativos que a agricultura regenerativa valoriza: montados de sobro e azinho que são sistemas agroflorestais seculares de enorme valor ecológico e cultural; tradições de agricultura extensiva de baixo impacto, especialmente nas regiões de maior sensibilidade ambiental; e uma dieta mediterrânica que é simultaneamente uma referência nutricional global e um modelo de sistema alimentar com baixa pegada de carbono.

No contexto da reforma da Política Agrícola Comum – cujas negociações para o período pós-2027 vão decorrer em paralelo com as negociações do Quadro Financeiro Plurianual da UE em 2026 e 2027 – Portugal tem interesse em que os incentivos financeiros ao agricultor reflitam os princípios debatidos em Piracicaba: valorização dos solos vivos, da biodiversidade agrícola, dos conhecimentos tradicionais e da resiliência face ao clima. A mensagem que saiu do Fórum de Agricultura Regenerativa de 2026 é que a transição é urgente, é possível e é multidimensional. O que falta, em Portugal como no resto do mundo, é a velocidade… e a vontade política de financiar a mudança antes que o clima a torne irreversível.

Fonte: Global Landscapes Forum / Sustainable Agriculture Network / Imaflora / CABI / CIFOR-ICRAF

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