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O cão que foi abandonado e agora cura: sustentabilidade com rosto humano em Cascais

Protocolo assinado hoje, 5 de maio, entre o Hospital de Cascais e a Associação São Francisco de Assis coloca cães resgatados do abandono ao serviço do bem-estar de doentes internados em pediatria e psiquiatria. É uma iniciativa pequena em escala, mas grande em significado: lembra-nos que a sustentabilidade não se mede apenas em carbono e kilowatts, mas também na qualidade das relações entre humanos e animais, e no tipo de comunidade que somos capazes de construir.

Uma história de abandono que se transforma em cuidado

O protocolo de cooperação formalizado hoje, 5 de maio de 2026, no Hospital de Cascais, entre a unidade hospitalar e a Associação São Francisco de Assis (ASFA) representa algo que raramente vemos na agenda da sustentabilidade: uma iniciativa onde o bem-estar animal e o bem-estar humano se encontram num ponto de interesse genuinamente partilhado.

O programa de Terapia Assistida por Animais (TAA) que arranca agora em Cascais assenta numa lógica que tem tanto de prático como de simbólico: cães que foram resgatados do abandono – com histórias de negligência, de rua, de solidão – são treinados e reintegrados como agentes terapêuticos em contexto hospitalar. A narrativa de recuperação percorre os dois sentidos: o animal que foi salvo passa a salvar. O paciente que recebe a visita encontra, na presença silenciosa de um cão, algo que os protocolos clínicos raramente conseguem prescrever.

A iniciativa desenvolver-se-á nas áreas de Pediatria e Psiquiatria do Hospital de Cascais – dois dos contextos onde a dimensão emocional do cuidado é mais determinante e onde, paradoxalmente, o ambiente hospitalar convencional é frequentemente o menos adequado para a respeitar. Uma enfermaria pediátrica é um mundo à parte: crianças separadas das suas rotinas, dos amigos, dos animais de estimação, num ambiente asséptico e estranho. A psiquiatria, por sua vez, lida com dimensões do sofrimento humano que transcendem a farmacologia. Em ambos os casos, a presença de um animal treinado pode introduzir uma qualidade de atenção e de conforto que é difícil de replicar por outros meios.

O que a ciência diz, e o que ainda está a aprender

A terapia assistida por animais não é uma novidade, mas a sua base de evidência científica tem crescido significativamente na última década. Uma revisão sistemática publicada em janeiro de 2026 na revista Healthcare, com protocolo registado na plataforma internacional PROSPERO e baseada na análise de 31 estudos conduzidos entre 2013 e 2023, concluiu que as intervenções com animais treinados produziram reduções significativas de ansiedade em populações clínicas vulneráveis – incluindo doentes pediátricos hospitalizados, pessoas com PTSD, doentes crónicos e doentes em cuidados agudos. Os resultados foram consistentes entre ensaios clínicos randomizados, a forma mais robusta de evidência científica.

Uma revisão sistemática anterior, publicada no NCBI e abrangendo 16 estudos de qualidade moderada a elevada, identificou resultados positivos da TAA em perturbações psiquiátricas, depressão, perturbações neurológicas e ansiedade. Particularmente relevante para o contexto do Hospital de Cascais, um ensaio clínico piloto randomizado publicado em julho de 2025 na mesma revista analisou especificamente o impacto de visitas de cães terapêuticos em adultos hospitalizados mais velhos, documentando melhorias no humor, redução da ansiedade e melhoria da relação entre doentes e profissionais de saúde.

No domínio da reabilitação física, um estudo em curso nos EUA avalia se caminhar acompanhado de um cão terapêutico aumenta a mobilidade e a motivação de doentes adultos com traumatismos – partindo da premissa de que a dor e a ansiedade são frequentemente as maiores barreiras à mobilização precoce após cirurgia ou lesão. A hipótese é que a presença do animal altera a experiência subjetiva do esforço físico de forma suficientemente significativa para ter impacto mensurável nos resultados clínicos.

O campo mantém lacunas importantes: a maioria dos estudos tem amostras pequenas, protocolos heterogéneos e dificuldades metodológicas inerentes à natureza das intervenções. Mas a direção da evidência é suficientemente consistente para justificar a implementação cuidadosa de programas como o de Cascais – especialmente quando acompanhados, como neste caso, de avaliação contínua do impacto e recolha de indicadores para investigação futura.

O pilar esquecido: quando a sustentabilidade tem rosto humano

A sustentabilidade tem três pilares clássicos – ambiental, económico e social -, mas há décadas que o debate público privilegia o primeiro, tolera o segundo e esquece o terceiro. As métricas de carbono, as metas de energia renovável, os plásticos nos oceanos: são urgentes, são mensuráveis, captam a atenção. A justiça social, o bem-estar comunitário, a qualidade das relações humanas e a forma como tratamos os animais com quem partilhamos o planeta tendem a ocupar um lugar secundário na agenda.

O relatório global de sustentabilidade da ONU de 2019 já havia identificado o bem-estar animal como uma questão estruturalmente negligenciada na Agenda 2030 e nos seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A análise concluiu que, apesar de o bem-estar animal não estar explicitamente mencionado em nenhum dos ODS, a sua realização é compatível – e frequentemente sinérgica – com a de 66 dos 169 alvos do quadro. O ODS 3 (Saúde e Bem-estar), o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 15 (Vida Terrestre) são os que apresentam maior sobreposição.

O conceito de One Health – desenvolvido conjuntamente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e pela Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH) – vai mais longe: defende que a saúde humana, animal e dos ecossistemas não são domínios separados, mas um sistema interdependente. O que afeta um afeta os outros. Tratar a saúde humana sem considerar a saúde animal e ambiental é, nesta perspetiva, tanto um erro científico como uma falha de governance.

Um relatório de 2026, produzido por especialistas de mais de 15 organizações internacionais em torno da Faunalytics, foi ainda mais direto ao propor que o bem-estar animal seja integrado formalmente na agenda pós-2030, eventualmente como um ODS autónomo – o ODS 18 – dedicado à saúde e bem-estar animal. O argumento não é sentimental: é sistémico. Sem standards mínimos de bem-estar animal, os sistemas alimentares são menos resilientes, o risco de doenças zoonóticas aumenta, a resistência antimicrobiana agrava-se e as comunidades ficam mais vulneráveis.

Cascais como caso de estudo: quando o local antecipa o global

O que acontece hoje em Cascais não é, à primeira vista, uma história de política climática ou de transição energética. É uma história de um hospital e de uma associação que decidiram que cães abandonados e doentes vulneráveis podiam fazer algo útil um pelo outro. Mas quando se olha mais de perto, é exatamente o tipo de iniciativa que os debates globais sobre sustentabilidade social precisam de mais: concreta, mensurável, enraizada na comunidade e com impacto humano direto.

A Associação São Francisco de Assis, que dá nome ao programa, tem um historial de trabalho com animais resgatados em Portugal. A parceria com o Hospital de Cascais representa uma expansão do alcance desse trabalho para o domínio da saúde – e uma oportunidade de demonstrar que a reintegração de animais abandonados não é apenas uma questão de bem-estar animal, mas pode ter valor terapêutico documentado para a comunidade humana.

Os requisitos definidos no protocolo são exigentes e bem pensados: a seleção dos utentes é feita por critérios clínicos definidos pelas equipas de saúde; todos os animais cumprem requisitos veterinários, comportamentais e sanitários rigorosos; e está prevista avaliação contínua do impacto, com recolha de indicadores para investigação futura. Não é uma iniciativa bem-intencionada, mas improvisada – é um programa estruturado que respeita tanto os animais como os doentes.

Para o Hospital de Cascais, a iniciativa enquadra-se numa visão mais ampla de humanização dos cuidados – o reconhecimento de que o processo de recuperação vai além da dimensão clínica e que o ambiente em que um doente está internado tem impacto nos resultados de saúde. Esta ideia, que tem ganhado crescente reconhecimento internacional sob o conceito de ‘design centrado no doente’, começa agora a incorporar explicitamente a dimensão da relação humano-animal.

O que nos ensinam os cães de Cascais

Há uma lição mais ampla neste protocolo que vale a pena enunciar. Num momento em que o debate sobre sustentabilidade tende a polarizar entre o tecnológico e o sistémico – baterias, hidrogénio, mercados de carbono, taxonomia europeia – iniciativas como esta lembram-nos que a transição para um mundo mais sustentável não é apenas um desafio de engenharia ou de política pública. É também um desafio de cultura, de valores e de como organizamos as relações dentro das comunidades.

Tratar bem os animais que abandonámos é uma forma de reparação. Colocá-los ao serviço do bem-estar humano é uma forma de circularidade social – a ideia de que os recursos, incluindo os recursos vivos, podem ser reintegrados em ciclos de valor em vez de descartados. E documentar cientificamente o impacto dessas intervenções é uma forma de levar o pilar social da sustentabilidade tão a sério como levamos o pilar ambiental.

Os cães de Cascais não vão resolver a crise climática. Mas podem ajudar a curar uma criança que tem medo, ou a aliviar o isolamento de um doente psiquiátrico, ou a reforçar a confiança de um utente numa equipa de saúde. E naquele quarto de hospital, naquele momento, isso é suficiente. É até essencial. A sustentabilidade que não chega às pessoas onde elas estão – vulneráveis, em sofrimento, a precisar de cuidado – é uma sustentabilidade incompleta.

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