#20 Pegada Semanal – 12 a 26 de junho

Bom dia, e bem-vindos a mais uma edição do Pegada Semanal. Eu sou a Alexandra Costa e, desta vez, vamos cobrir duas semanas de notícias numa só edição – de 12 a 26 de junho. Duas semanas que têm, no que respeita à sustentabilidade, um fio condutor claro: a distância entre os progressos que já foram feitos e os riscos que ainda nos aguardam.

No plano global, temos uma das notícias mais importantes dos últimos anos no sector da energia – e chega com dados concretos: pela primeira vez na história, eólica e solar produziram mais eletricidade do que o gás natural, a nível mundial, durante um mês inteiro. Na Europa, as águas balneares continuam a melhorar – e as negociações climáticas de Bona fecharam com progressos modestos mas sem ruturas. E em Portugal, os números dos incêndios florestais são um choque: até ao fim de maio, o país já tinha quase quatro vezes mais incêndios do que no mesmo período de 2025. Mas a floresta portuguesa é também, como vamos ver, um pilar crítico da transição verde europeia.

Há muito para cobrir. Vamos a isso.

O mês que mudou a história da energia: solar e eólica superam o gás pela primeira vez

A notícia mais importante desta quinzena no plano global é uma daquelas que merece ser sublinhada – e que vai ser recordada como um ponto de viragem. Em Abril de 2026, pela primeira vez em toda a história, a produção conjunta de eletricidade a partir de energia solar e eólica ultrapassou a produção a partir de gás natural, a nível mundial.

Os números, publicados em análise pelo think tank britânico Ember, são claros: solar e eólica representaram 22 por cento da produção elétrica global em Abril, contra 20 por cento do gás. Em termos absolutos, a produção renovável foi 54 terawatt-hora superior à do gás naquele mês – 531 TWh contra 477 TWh. Para ter uma ideia da magnitude da transformação: em Abril de 2021 – apenas cinco anos antes -, o gás produzia praticamente o mesmo volume de eletricidade, mas solar e eólica juntos representavam apenas metade disso, 245 TWh.

O Ember sublinha que Abril é o mês do ano em que esta ultrapassagem é mais provável, por combinar condições favoráveis para as renováveis na crise do hemisfério Norte – ventos fortes de primavera e luz solar crescente – com procura elétrica relativamente baixa, no período entre o fim do aquecimento e o início do arrefecimento. Ou seja, este marco não se repete automaticamente em cada mês do ano. Mas a trajetória é inegável: em Abril de 2021 não estava próximo de acontecer. Em Abril de 2026 aconteceu. E em Abril de 2031 será provavelmente a norma em todos os meses.

A analista Kostantsa Rangelova, do Ember, sintetizou o significado do momento: “Os países de todo o mundo têm apostado no vento e no sol porque são fontes de eletricidade baratas, domésticas e seguras. A crise energética actual reforçou ainda mais o argumento económico das renováveis face ao gás importado”. A crise gerada pela guerra no Irão, que disparou os preços do GNL nos primeiros meses do ano, funcionou, paradoxalmente, como acelerador desta transição.

O Relatório Global de Electricidade 2026 do Ember, publicado nesta quinzena, acrescenta contexto estrutural importante. Em 2025, a energia solar cresceu 30 por cento a nível global, com acréscimos record de 636 gigawatts de capacidade instalada. A geração solar é hoje equivalente em dimensão à procura elétrica total da União Europeia. As renováveis no seu conjunto ultrapassaram o carvão pela primeira vez em 2025 e a geração fóssil global caiu ligeiramente – a primeira queda estrutural da história, não imputada a crises económicas ou pandemias, mas à expansão das energias limpas.

Pinguins-imperadores e focas antárticas: a Lista Vermelha da UICN envia mais um aviso

Uma notícia mais breve, mas com um peso simbólico que não deve ser subestimado. A União Internacional para a Conservação da Natureza – a UICN – atualizou recentemente a sua Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, e duas espécies icónicas da Antártida passaram agora para a categoria de “Em Perigo”: o pinguim-imperador e a foca-peleão-antártica.

As razões são diretamente climáticas. Os pinguins-imperadores dependem de gelo marinho estável para criar as suas crias. A redução do gelo está a dizimar colónias inteiras: em 2023, registou-se o primeiro fracasso reprodutivo em massa documentado, com colónias inteiras em que praticamente nenhuma cria sobreviveu. As focas-peleão estão a ter cada vez mais dificuldade em encontrar krill – o seu principal alimento – porque o aquecimento das águas está a alterar a distribuição deste crustáceo minúsculo que é a base de toda a cadeia alimentar antártica.

O Diretor-geral da UICN sublinhou a mensagem: “A natureza deu o seu aviso. A questão agora é se a humanidade vai responder”. O pinguim-imperador e a foca-peleão não são apenas espécies emblemáticas. São indicadores do estado dos oceanos austrais, cujo equilíbrio é crítico para o clima global.

Bona fecha sem ruturas – e o que isso significa para Antalya

As sessões de Junho dos órgãos subsidiários da UNFCCC, em Bona – as SB64 -, encerraram a 18 de Junho. Foram dez dias de negociações técnicas que prepararam o terreno para a COP31, em Antalya, na Turquia, em Novembro.

O balanço pode resumir-se assim: não houve ruturas, não houve grandes avanços. As tensões estruturais que marcam estas negociações há anos mantêm-se. A renovação do Programa de Trabalho sobre Ambição e Implementação de Mitigação – o principal mecanismo formal dentro da UNFCCC dedicado à ambição climática – não ficou completamente resolvida, deixando dossiers por fechar para Antalya.

O que ficou claro em Bona é que a crise energética global está a influenciar diretamente as negociações climáticas: vários países chegaram à mesa com pressões domésticas de segurança energética que complicam os compromissos de descarbonização. Ao mesmo tempo, a resolução da Assembleia Geral da ONU sobre o parecer do Tribunal de Haia – que tornou a ação climática um dever legal e não apenas uma opção política – começou a ser invocada por várias delegações como argumento para maior ambição. É cedo para dizer se terá efeito prático. Mas o argumento entrou na sala.

Águas balneares europeias em 2025: 85 por cento com qualidade excelente

Uma notícia genuinamente boa, publicada a 16 de Junho pela Comissão Europeia e pela Agência Europeia do Ambiente: 85 por cento das águas balneares europeias atingiram a classificação máxima de “excelente” na época de 2025, com 96 por cento a cumprir pelo menos os padrões mínimos de qualidade, e apenas 1,5 por cento classificados como má qualidade.

Esta notícia liga-se diretamente a Portugal: em Maio, a Quercus já tinha distinguido 434 praias portuguesas com Qualidade de Ouro, o maior número de sempre. O relatório europeu confirma que esse nível de desempenho não é exceção – é parte de uma tendência sólida em toda a Europa, sustentada por décadas de investimento público em saneamento e pela Diretiva das Águas Balneares.

Há uma nota que contraria a narrativa puramente positiva: os rios europeus ficam aquém das praias costeiras, com apenas 47 por cento dos locais de banho fluviais designados a atingir a classificação excelente. A revitalização dos rios para banho urbano – uma tendência crescente em cidades como Berlim, Paris e Lyon – é um dos desafios que a nova Estratégia de Resiliência Hídrica da Comissão vai ter de enfrentar. Para Portugal, onde o programa Pro’Rios tem precisamente o objetivo de restaurar mais de 1.500 quilómetros de linhas de água até 2030, este dado europeu serve de argumento adicional para não abrandar o ritmo.

Os números dos incêndios até ao fim de Maio: quase quatro vezes mais do que em 2025

E chegamos a Portugal, com os dados que mais me preocuparam nestas duas semanas. A GNR divulgou, no início de Junho, o balanço da operação Floresta Segura até ao fim de Maio, e os números são muito sérios.

Até 30 de Maio de 2026, tinham sido registadas 2.921 ocorrências de incêndio rural em Portugal continental. No mesmo período de 2025, tinham sido 795. Ou seja: quase quatro vezes mais. Em termos de área ardida, a comparação é igualmente alarmante – 10.501 hectares em 2026, contra 3.673 hectares em 2025. O número de detenções também subiu: 109 pessoas foram detidas por crimes relacionados com incêndios até ao fim de Maio, contra 19 no mesmo período do ano anterior.

A GNR sinalizou ainda mais de 11.800 terrenos por falta de limpeza – um número que contém uma ressalva importante: os distritos mais afetados pelas tempestades do inverno, como Leiria, Castelo Branco, Coimbra e Santarém, acumulam cerca de 3.100 monitorizações adicionais de “carga combustível não recolhida”, resultante de árvores derrubadas pela tempestade Kristin que ainda não foram retiradas dos terrenos. A limpeza obrigatória foi alargada até 30 de Junho exatamente por essa razão. O que significa que, durante todo o mês de Junho, a quantidade de combustível florestal ainda à espera de remoção continua a ser muito superior ao habitual.

Há um número que resume a pressão operacional deste verão: o Primeiro-ministro Luís Montenegro admitiu, ao visitar o CIPO em Leiria ainda antes do início da Fase Charlie, que “ainda há muitas vias florestais obstruídas e muito material combustível”. Dito por isso: o próprio chefe do executivo reconhece que Portugal entra no período mais crítico do ano com mais risco de base do que seria desejável.

Perante este quadro, o Governo mantém o dispositivo máximo ativo. A Fase Charlie, com 13.335 operacionais e 78 meios aéreos, está em vigor até 30 de Junho, altura em que passará para a Fase Delta – a mais crítica -, de Julho a Setembro. Por essa altura, o dispositivo atingirá o seu pico: 15.149 operacionais, 81 meios aéreos e 3.463 veículos. São números record. A questão que ninguém consegue responder com certeza é se serão suficientes.

A floresta portuguesa como pilar da transição verde europeia

Neste contexto de risco máximo, vale a pena olhar para a floresta portuguesa de uma forma diferente: não apenas como um fator de risco, mas como um ativo estratégico.

Um relatório divulgado pela Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa coloca Portugal entre os 16 países onde a indústria florestal assume um papel central na transição verde da região pan-europeia. Os produtos florestais representam cerca de 9 por cento do total das exportações portuguesas. Com uma cobertura florestal de 36 por cento do território nacional, Portugal é um dos países europeus com maior densidade de floresta por habitante.

A madeira está a emergir como “um pilar crítico da estabilidade económica europeia”, nas palavras do relatório. O eucalipto para a indústria do papel e da celulose, o sobreiro para a cortiça, o pinheiro-bravo para a construção em madeira – tudo isto posiciona Portugal como fornecedor-chave de matérias-primas sustentáveis para a bioeconomia europeia. E a floresta desempenha ainda um papel fundamental como sumidouro de carbono, essencial para os compromissos portugueses de neutralidade carbónica em 2045.

O paradoxo é evidente: a floresta que é um ativo estratégico é a mesma floresta que arde. E arde, em parte, exatamente porque contém as espécies que têm maior valor económico – eucalipto e pinheiro-bravo são as que ardem com mais facilidade e mais intensidade. A gestão florestal sustentável é, portanto, ao mesmo tempo uma questão ambiental, económica e de segurança pública. Não há como separar estas dimensões.

Antes de encerrar, um momento de reflexão sobre estas duas semanas.

Em Abril de 2026, solar e eólica produziram mais eletricidade do que o gás a nível mundial pela primeira vez. Em Portugal, até ao fim de Maio de 2026, o número de incêndios quase quadruplicou face ao ano anterior. Estas duas notícias não se contradizem, mas descrevem mundos que coexistem e que precisam de ser geridos em simultâneo.

A transição energética está a acontecer mais depressa do que a maioria esperava. As energias renováveis são hoje baratas, escaláveis e politicamente inevitáveis. Mas os riscos do clima que já chegaram – o calor, os incêndios, as tempestades, a seca – não esperam que a transição esteja completa. Acontecem agora, todos os verões, com mais intensidade do que no verão anterior.

O que esta quinzena nos diz, no fundo, é que precisamos das duas coisas ao mesmo tempo: a velocidade da transição e a resiliência face ao que já não podemos evitar. A floresta que arder este verão é uma consequência do que foi emitido há décadas. A floresta que não arder será uma consequência das escolhas que fazemos agora.

E chegamos ao fim desta edição especial do Pegada Semanal. Duas semanas que têm, como sempre, mais camadas do que à primeira vista parece.

Se este episódio vos fez pensar – sobre a eletricidade que usam, sobre as florestas que sobrevivem, sobre o que é possível quando a vontade política e a economia convergem na mesma direção – então cumpriu o seu propósito.

Partilhem com quem achem que devia ouvir. Eu sou a Alexandra Costa. Até para a semana.

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