#19 Pegada Semanal – 29 de maio a 12 de junho
Bom dia, e bem-vindos ao Pegada Semanal. Eu sou a Alexandra Costa e, desta vez, vamos cobrir duas semanas de notícias numa só edição – de 29 de maio a 12 de junho. E que duas semanas foram estas.
Tivemos o Dia Mundial do Ambiente a 5 de Junho, com uma mensagem do Secretário-Geral da ONU que não deixa margem para dúvidas sobre a gravidade do momento. Tivemos a UNEP a publicar um relatório que, ao contrário do que seria de esperar, traz esperança: as tecnologias limpas não são já uma promessa – são uma realidade em rápida expansão. E a Organização Meteorológica Mundial publicou um relatório que nos diz, com 91 por cento de probabilidade, que pelo menos um dos próximos cinco anos vai ultrapassar 1,5 graus Celsius acima da era pré-industrial. Na Europa, começaram as negociações climáticas em Bona. E em Portugal, o país entrou na fase Charlie do dispositivo de combate a incêndios – o período mais crítico do ano – com mais de 13 mil operacionais no terreno.
Há muito para cobrir. Vamos a isso.
Dia Mundial do Ambiente 2026: “Os sinais de aviso estão em todo o lado”
A 5 de Junho assinalou-se o Dia Mundial do Ambiente, com o Azerbaijão como país anfitrião, em Baku. O tema deste ano – “Acção Climática”, com o mote #NowForClimate – chegou acompanhado de uma mensagem do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que vale a pena citar: “Os sinais de aviso estão em todo o lado. Os últimos onze anos foram os onze mais quentes de que há registo. O mundo está a caminhar para uma ultrapassagem temporária de 1,5 graus. A nossa tarefa é tornar essa ultrapassagem tão pequena, tão curta e tão segura quanto possível – e rapidamente fazer baixar as temperaturas”.
É uma frase que resume bem o estado do debate climático em 2026: a ultrapassagem de 1,5 graus já não é tratada como hipótese a evitar, mas como realidade a gerir. A questão deixou de ser “podemos impedir?” e passou a ser “como tornamos o impacto tão limitado quanto possível?” – e ao mesmo tempo aceleramos a transição para poder “rapidamente fazer baixar as temperaturas”, que só será possível com emissões negativas a larga escala.
A celebração deste ano incluiu uma iniciativa da UNEP que reuniu mais de 50 cidades do mundo num programa sobre adaptação ao calor extremo – cidades como Paris, Lagos, Mendoza e Melbourne a partilhar experiências e soluções testadas. E em Baku, com toda a tensão que acompanha ter um petroestado como anfitrião de uma celebração sobre o clima, o Azerbaijão acolheu discussões de alto nível sobre a transição energética, sublinhando o seu próprio compromisso de reduzir emissões em 40 por cento até 2035.
Relatório da OMM: 91 por cento de probabilidade de ultrapassar 1,5°C
No final de Maio, a Organização Meteorológica Mundial publicou um relatório produzido em colaboração com o Met Office britânico que fez manchete em todo o mundo, e com razão. Os números são inequívocos: existe uma probabilidade de 91 por cento de que pelo menos um dos próximos cinco anos – entre 2026 e 2030 – registe uma temperatura média global acima de 1,5 graus Celsius face à era pré-industrial. E uma probabilidade de 75 por cento de que a média do período 2026-2030 no seu conjunto ultrapasse esse limiar.
Há uma clarificação importante que os científicos sublinham sempre que estes números circulam: ultrapassar 1,5 graus num ou vários anos não é o mesmo que o fracasso do Acordo de Paris. O tratado refere-se a aquecimento sustentado ao longo de décadas, não a anos individuais. Mas a investigadora Melissa Seabrook, do Met Office e coautora do relatório, foi direta: “1,5 não é um precipício do qual vamos cair. Mas cada décimo de grau tem impactos cada vez mais severos”.
O relatório prevê também o regresso do El Niño entre 2026 e 2030, com 80 por cento de probabilidade de se desenvolver ainda este verão – um fator que tende a amplificar o calor global. E alerta especificamente para o ártico, que poderá aquecer quase 1,7 graus Celsius até 2030, e para a Amazónia, com risco elevado de seca e incêndios que comprometem a maior floresta tropical do mundo.
Para Portugal e para a Europa mediterrânica, estes números têm uma tradução muito concreta: mais vagas de calor, mais secas, mais incêndios. A conexão entre o relatório da OMM e o que está a acontecer nos nossos solos não é especulativa. É direta.
A boa notícia: as tecnologias limpas estão a tornar-se imparáveis
E agora a notícia que contraria a narrativa puramente alarmista – e que é tão importante quanto o relatório da OMM, por razões opostas.
A 3 de Junho, a UNEP publicou um relatório intitulado “Cheaper. Cleaner. Unstoppable” – “Mais baratas. Mais limpas. Imparáveis”. A tese central é simples: muitas das tecnologias de que precisamos para reduzir as emissões já não são soluções de nicho ou de futuro. Estão a tornar-se a norma. E estão a fazê-lo a uma velocidade que cria ciclos de reforço mútuo, o que os científicos chamam “pontos de viragem positivos”.
O que são estes pontos de viragem positivos? São momentos em que uma tecnologia se torna suficientemente acessível, disponível e socialmente aceite para desencadear um crescimento exponencial na procura. A energia solar é o exemplo mais claro: o custo da energia solar fotovoltaica caiu cerca de 90 por cento na última década. O veículo elétrico está a aproximar-se da paridade de preço com os combustíveis fósseis em vários mercados. Os sistemas de arrefecimento sustentável estão a crescer a ritmo acelerado, mesmo em países em desenvolvimento.
O relatório não ignora os condicionalistas: os pontos de viragem positivos não são garantidos. Dependem de políticas sustentadas, investimento e apoio público. Mas a mensagem fundamental é que a transição energética não é apenas possível, está já em curso. E que o argumento “é caro e impraticável” perdeu, em muitos sectores, a sua base factual.
Bona, 8 a 18 de Junho: a negociação climática que prepara a COP31
A 8 de Junho começaram em Bona, na Alemanha, as sessões de Junho dos órgãos subsidiários da UNFCCC – as chamadas SB64. São as negociações climáticas intermediárias, que acontecem todos os anos entre Junho e Setembro, a meio caminho entre as grandes COP anuais. Neste caso, a meio caminho entre a COP30 em Belém, que aconteceu em Novembro de 2025, e a COP31, que estará em Antalya, na Turquia, em Novembro deste ano.
O contexto destas negociações é particularmente tenso. O mundo acabou de passar por uma das maiores crises energéticas da história, gerada pela guerra no Irão. A instabilidade geopolítica e as pressões económicas estão a criar tentações, em vários países, de atrasar ou suavizar compromissos climáticos. E ao mesmo tempo, a ciência – como acabou de mostrar o relatório da OMM – continua a empurrar na direção oposta.
Em Bona, os negociadores vão trabalhar em dossiers técnicos que são cruciais, mas raramente ganham manchetes: os mecanismos de transparência e de reportação de emissões, os programas de trabalho sobre mitigação, os sistemas de adaptação e os mecanismos de financiamento para os países em desenvolvimento. Há também em discussão a renovação do Programa de Trabalho sobre Ambição e Implementação – o principal órgão formal dedicado à ambição de mitigação dentro da UNFCCC, cujo mandato expira neste ciclo.
Há uma tensão que atravessa todas estas negociações: a distância entre o que a ciência exige e o que os países estão dispostos a comprometer politicamente. Bona não vai resolver essa tensão. Mas vai definir o terreno em que será disputada em Antalya, em Novembro.
O El Niño que se aproxima e o verão europeu
Uma nota de contexto meteorológico que é relevante para perceber o que pode acontecer nas próximas semanas. A Organização Meteorológica Mundial estima em 80 por cento a probabilidade de o El Niño se desenvolver ainda este verão, com 90 por cento de probabilidade de persistir até Novembro. O El Niño é um fenómeno climático ligado ao aquecimento das águas do Pacífico equatorial, que tende a amplificar as temperaturas globais e a alterar os padrões de precipitação em todo o mundo.
Para a Europa mediterrânica – e para Portugal em particular -, um El Niño ativo tende a estar associado a verões mais quentes e a precipitação abaixo da média no período de verão-outono. O que significa: mais calor, menos chuva, e mais risco de incêndios. As previsões sazonais da OMM para o período Abril-Junho de 2026 já apontam para temperaturas acima da média em grande parte da Europa.
Fase Charlie: Portugal em estado de alerta máximo contra os incêndios
E chegamos a Portugal, onde a notícia mais importante desta quinzena é, precisamente, a que tem impacto mais direto na vida das pessoas – e na continuidade do nosso território florestal.
A 1 de Junho, Portugal entrou na Fase Charlie do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais – o DECIR 2026. A Fase Charlie é considerada a etapa de maior risco do dispositivo, coincidindo com a subida das temperaturas, a redução da humidade e o aumento do risco de ignições. Vigorará até 30 de Junho, altura em que o dispositivo voltará a ser reforçado para a Fase Delta – a fase mais crítica de todas, de Julho a Setembro.
Os números do dispositivo atual são sóbrios na sua dimensão: 13.335 operacionais, 2.265 equipas, 2.969 veículos e 78 meios aéreos. Pela primeira vez, dois helicópteros Black Hawk da Força Aérea Portuguesa estão ao serviço do combate a incêndios. A comparação com 2016 é impressionante: naquele ano, o dispositivo contava com 7.478 operacionais. Em 2026, o número é mais do dobro. O Governo não hesita em classificar este como “o maior esforço de sempre no dispositivo especial de combate a incêndios rurais”.
Mas há um número que põe tudo em perspetiva e que merece atenção: segundo dados do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, em relação ao mesmo período de 2025, o número de incêndios e a área ardida até ao início de Junho já mais do que duplicaram. Ou seja: apesar do reforço do dispositivo, o risco de base é substancialmente mais elevado do que no ano anterior. As razões já são conhecidas – a acumulação de combustível florestal após as tempestades de inverno, o El Niño que se aproxima e as temperaturas que estão a subir mais do que a média histórica.
O primeiro-ministro Luís Montenegro fez questão de salientar que o objetivo passa por “reforçar a componente preventiva sem descurar a capacidade de reação” – e que o novo modelo de coordenação operacional implementado este ano é um modelo que o Governo quer consolidar para o futuro.
O prazo para a limpeza de terrenos – a obrigação legal de manter faixas de gestão de combustível em torno de edifícios e infraestruturas – foi alargado até 30 de Junho em todo o território, tendo em conta os danos causados pelas tempestades. É um alargamento justificado, mas que significa que, durante parte do mês de Junho, muitos terrenos ainda não estarão em conformidade. A janela de risco é real.
Portugal e o Fundo Ambiental: 174 milhões de euros em ação climática em Maio
Uma nota positiva sobre o financiamento público da transição ambiental em Portugal. O Fundo Ambiental divulgou que, na primeira quinzena de Maio de 2026, a Agência para o Clima realizou pagamentos no montante global de 174,5 milhões de euros – uma tranche significativa de financiamento para projetos de descarbonização, eficiência energética e resiliência climática em todo o país.
Este número deve ser lido em conjunto com os outros sinais que têm chegado das últimas semanas: os 80,4 por cento de eletricidade renovável no primeiro trimestre, os 703 milhões de euros de poupanças em Janeiro face ao custo equivalente em gás, a rede de 2.500 pontos de recolha do sistema Volta, os Planos Nacionais de Restauro que são exigidos até Setembro. Portugal está, neste período, a executar um número considerável de políticas ambientais simultaneamente. O desafio está, como sempre, na execução e na consistência.
Aberto está também o concurso do Fundo Ambiental para o programa “Floresta Azul – Restauro Ecológico de Pradarias Marinhas”, uma iniciativa que visa a recuperação de erva marinhas ao longo da costa portuguesa. As pradarias de ervas marinhas são um dos ecossistemas mais eficazes do planeta no sequestro de carbono – o chamado carbono azul – e a sua restauração tem impacto tanto na biodiversidade costeira como no balanço climático.
Antes de encerrar, um momento para pensar nas duas semanas que acabamos de cobrir.
Estas duas semanas foram, em certo sentido, a melhor síntese do momento em que vivemos. De um lado, o relatório da OMM a dizer-nos que 1,5 graus vai ser ultrapassado, que o El Niño está a caminho, que o ártico está a derreter mais depressa. Do outro, a UNEP a mostrar-nos que a energia solar já é a mais barata da história, que o veículo elétrico está em expansão rápida em todo o mundo, que as tecnologias limpas estão a criar dinâmicas de mercado que se autoalimentam.
E no meio destas duas narrativas globais, Portugal a entrar em Fase Charlie, a instalar 13 mil operacionais no terreno, a gerir o risco de um verão que pode ser muito difícil – e ao mesmo tempo a financiar a restauração de pradarias marinhas e a manter 80 por cento de eletricidade renovável.
Não há uma forma honesta de contar esta história sem a sua contradição fundamental: estamos a fazer coisas importantes na direção certa, mais depressa do que alguma vez fizemos. E ao mesmo tempo, o planeta está a mudar mais depressa do que as nossas respostas. A questão é se a distância entre os dois ritmos se vai alargar ou estreitar. A resposta a essa questão vai depender muito do que acontece nos próximos anos – e nas próximas décadas.
E assim chegamos ao fim desta edição especial do Pegada Semanal. Duas semanas densas, como de costume.
Se este episódio vos fez pensar – sobre o calor que vem aí, sobre as tecnologias que já funcionam, sobre os mais de 13 mil operacionais que estão neste momento no terreno a defender as nossas florestas – então cumpriu o seu propósito.
Partilhem com quem acham que devia ouvir. Eu sou a Alexandra Costa. Até para a semana.

