Na primeira pessoa… Luís Serrano Mira, proprietário da Herdade das Servas
O que é para si a sustentabilidade?
Sustentabilidade é, na sua essência, a capacidade de produzir hoje sem comprometer a capacidade de produzir amanhã. Com a minha família ligada à mesma terra há 13 gerações, desde 1667, essa palavra deixa de ser um conceito e passa a ser uma responsabilidade muito concreta. A terra que trabalho foi trabalhada pelo meu pai, pelo meu avô, pelo bisavô, e há nessa continuidade uma lição que nenhum manual ensina: não somos donos da terra, somos os seus responsáveis durante um certo período. O que fizermos hoje vai condicionar o que ali vai crescer daqui a cinquenta ou cem anos. É com essa consciência que trabalho todos os dias, e é ela que me levou a abraçar a viticultura regenerativa, não como uma tendência, mas como uma resposta concreta aos desafios que temos diante de nós.
Que medidas de sustentabilidade pratica no seu quotidiano?
A fronteira entre o meu quotidiano pessoal e profissional é muito ténue – quando se vive tão próximo da terra, o trabalho é também uma forma de estar. Na prática, isso significa ter abandonado completamente a lógica do controlo e da correção que dominou a viticultura durante décadas. Nas vinhas da Herdade das Servas, deixámos de eliminar as chamadas ervas daninhas e passámos a compreender o papel de cada planta no ecossistema. Promovemos a presença de insetos auxiliares e de microrganismos que fortalecem a saúde da vinha naturalmente. Tratamos o solo como o sistema vivo que é – rico em matéria orgânica, capaz de reter água, de resistir a condições adversas – em vez de o tornar dependente de fertilizantes e pesticidas externos. Durante muito tempo, a vinha limpa e despida foi sinónimo de bom viticultor, mas aprendi a ver beleza em algo diferente: numa vinha que respira vida, mesmo que à primeira vista pareça mais abandonada ou descuidada. Para mim, hoje, é essa a paisagem mais bonita que existe. No dia a dia mais pessoal, diria que a maior mudança foi mesmo de mentalidade: passei a questionar sistematicamente se o que estou a fazer faz sentido a longo prazo, ou se estou apenas a tratar sintomas sem resolver causas.

De que forma dissemina informação sobre sustentabilidade (ou hábitos comportamentais sobre) junto de familiares, amigos e colegas?
Cresci numa cultura em que as coisas se mostram mais do que se explicam, sendo que continuo a acreditar que ninguém muda verdadeiramente por ouvir discursos, mas sim por ter experiências que lhe tocam. Por isso, a forma mais natural que encontrei de partilhar estas ideias foi simples: convidar as pessoas a vir à Herdade, a caminhar pela vinha, a ver com os próprios olhos a diferença entre um solo morto e um solo vivo. Quando alguém percebe isso no terreno, a conversa torna-se outra. Foi com esse mesmo espírito que criámos o Regenerative Wine Fest – não um evento de nicho para especialistas, mas um espaço aberto onde qualquer pessoa, dos mais entendidos aos simples curiosos, se pode aproximar destes temas de forma acessível. Este ano chegamos à terceira edição, com 15 produtores, palestras, conversas de campo, provas de vinho e experiências gastronómicas feitas exclusivamente com produtos regenerativos, e acredito muito mais no poder da experiência direta do que em palavras.
Qual o seu maior “defeito” (diga-se mau hábito) em termos de sustentabilidade (e que gostaria de corrigir)?
Se tiver de apontar um defeito, diria que é não comunicar tanto quanto poderia. Não é por falta de convicção, é mais uma forma de estar. Nunca fui muito de me pôr em bicos de pés ou de amplificar aquilo que fazemos, prefiro que o trabalho vá falando por si, no terreno, ao longo do tempo. Mas também sei que, quando falamos de sustentabilidade, isso pode jogar contra nós, porque há coisas a acontecer que simplesmente não passam cá para fora, e isso não ajuda nem quem está a fazer, nem quem está a tentar perceber o caminho. É um equilíbrio que ainda estou a trabalhar: continuar com esta postura mais discreta, mas ser um pouco mais claro e aberto na forma como partilho o que estamos a fazer – com o que corre bem e com o que ainda está longe do ideal.
A empresa onde trabalha tem uma política de sustentabilidade? Que tipo de medidas pratica?
Sim, e é um compromisso que levamos muito a sério. Na Herdade das Servas, trabalhamos com um sistema integrado de Gestão da Qualidade, Segurança Alimentar e Sustentabilidade – o que significa que a sustentabilidade não é uma intenção, mais sim uma obrigação mensurável, com metas, avaliações e melhorias contínuas. Esta análise abrange três dimensões que consideramos indissociáveis: ambiental, social e económica. Traduz-se em relações transparentes com fornecedores, clientes e consumidores, no envolvimento da comunidade que nos rodeia, em condições de trabalho dignas para todos os que fazem parte deste projeto, e num compromisso claro com a ética em tudo o que fazemos. Mas há algo que vai além da política formal, e que é talvez o que mais nos define: a adoção da viticultura regenerativa como modelo de produção. Não se trata de produzir mais, mas de produzir melhor – regenerando o solo, integrando o ecosssistema, e deixando a terra em melhores condições do que a recebemos. Para uma família com 13 gerações ligada à mesma terra, esse é o compromisso mais antigo que temos.
