Vinha Viva: a associação que quer regenerar os ecossistemas vitícolas portugueses
No mais recente episódio do Pegada Positiva, o podcast que dá voz a ideias, pessoas e soluções que estão a moldar um futuro mais sustentável, o tema central é a viticultura regenerativa – e uma nova associação que chegou para defender, disseminar e certificar este modo de fazer agricultura em Portugal.
O convidado é Miguel Queimado, um dos rostos fundadores da Associação Vinha Viva, apresentada oficialmente em finais de janeiro de 2026. Engenheiro agrónomo de formação, Queimado traz para a conversa uma visão que vai muito além da simples vinha: o que está em causa é o ecossistema vitícola como um todo – solos, plantas, fungos, insetos, bactérias e tudo o que convive e se regula mutuamente num território.
Do combate à doença à construção da resiliência
A lógica convencional da agricultura, explica Queimado, tem assentado numa postura reativa: identificar o problema e atacá-lo. Um fungo, uma praga, uma carência nutricional – e a resposta é, quase sempre, a introdução de mais inputs. A viticultura regenerativa propõe o oposto: trabalhar o sistema para que ele seja suficientemente forte e equilibrado para resistir por si mesmo.
“Queremos ser muito mais proactivos, muito mais profiláticos”, diz o agrónomo. “Quanto mais adotarmos um sistema de força, de resiliência, de melhor sistema imunitário das plantas, tudo isto gera muito menos inputs”.
As vantagens são concretas: menor uso de produtos fitossanitários, redução de custos de exploração e, no limite, maior equilíbrio produtivo entre anos – algo particularmente relevante numa era de alterações climáticas em que secas, geadas e chuvas extremas são cada vez mais frequentes.
O nome que diz tudo
“A vinha só é viva, nesse sentido mais holístico, se todo o seu ambiente à sua volta for vivo”. É desta ideia que nasce o nome da associação. A Vinha Viva não quer uma vinha melhor isoladamente – quer um ecossistema vitícola mais equilibrado, onde plantas, microrganismos do solo, cobertura vegetal e fauna coexistam de forma integrada. Quanto mais espécies, mais fungos, mais bactérias, mais insetos houver, mais o sistema se autorregula.
É, como Queimado descreve, replicar “o caos organizado” que a natureza pratica há milénios.
Dois eixos de trabalho: capacitação e certificação
A Vinha Viva nasce com uma agenda clara. Por um lado, capacitação: formar técnicos e produtores em análise de solos, microbiologia, cobertos vegetais, gestão nutricional e ferramentas de monitorização como índices de vegetação. O objetivo é criar uma rede de partilha de conhecimento entre profissionais – à semelhança, aliás, da rede que a própria natureza estabelece entre espécies.
Por outro, certificação: evitar que “regenerativo” se torne numa palavra esvaziada de sentido, como aconteceu com “sustentável”. “É o nosso pesadelo de marca”, reconhece Queimado. Para que o consumidor possa fazer escolhas informadas e para que o produtor veja o seu trabalho valorizado, é preciso um caderno de especificações rigoroso e um selo reconhecível.
A fasquia de entrada é a certificação em agricultura biológica – considerada o patamar mínimo para quem queira avançar para a regeneração. “É o trocar produtos sintéticos para produtos orgânicos. O que nós queremos é ir para lá disso”, aponta.
Uma associação de técnicos, para técnicos
Um traço distintivo da Vinha Viva é a exigência de representação técnica: todas as entidades associadas – sejam cooperativas, adegas, empresas de uva ou consultores independentes – têm de ser representadas por um técnico com formação específica e certificação pela DGAV. “O conhecimento científico é a nossa espinha dorsal”, sublinha Queimado. “A falta de conhecimento faz-nos tomar posições muitas vezes erradas”.
A associação conta já com membros de várias regiões – Minho, Douro, Alentejo, Tejo, Lisboa – e tem ligações a entidades congéneres em Espanha e nos Estados Unidos, onde este referencial tem sido desenvolvido há mais tempo.
Escala não é obstáculo – é desafio
Questão recorrente quando se fala de agricultura com preocupações ambientais: é possível fazê-lo a grande escala? Queimado é perentório: sim. Entre os sócios fundadores da Vinha Viva estão técnicos que trabalham em explorações com 100, 200, até 300 hectares, todos em modo biológico. “É uma ideia errada que não se pode fazer à escala com preocupação ambiental. O que é necessário é conhecimento e ferramentas”.
A dimensão aumenta a complexidade e exige equipas, tecnologia e investimento adaptados, mas não torna o modelo inviável. “Está longe de ser impossível”
O horizonte: daqui a dois ou três anos
Questionado sobre os objetivos a médio prazo, Queimado é pragmático: crescer em número de associados e técnicos – num sector com cerca de 13 mil empresas vitícolas em Portugal – e, sobretudo, ter um certificado de agricultura regenerativa operacional que ajude a diferenciar produtos no mercado e a criar valor tanto para o produtor como para o consumidor.
“Mesmo que utopicamente pudéssemos atingir uma plenitude de 100% da produção agrícola nacional com um certificado de regeneração, garantimos sempre redução de custos e melhor ambiente”.

