#11 Pegada Semanal – 20 a 27 de março de 2026
Bem-vindos a mais uma edição do Pegada Semanal, o podcast que resume as principais notícias de sustentabilidade da semana. Eu sou a Alexandra Costa e, como sempre, fui à caça das histórias que moldam o planeta – do global ao europeu, passando por Portugal.
Esta semana foi densa. Há uma crise energética a ganhar forma na Europa, há um mundo onde a guerra no Irão está a fazer subir os preços do gás e do combustível, há boas notícias do lado das renováveis – e cá em casa, o relatório do apagão de abril do ano passado finalmente ficou pronto. Muita coisa para cobrir, então vamos a isso.
Conflito no Irão redefine a geopolítica energética global
A história que dominou todas as outras esta semana foi a guerra no Irão e o impacto brutal que está a ter nos mercados energéticos globais. Desde o início do conflito, no final de fevereiro, os preços do gás natural na Europa subiram cerca de 60 por cento. O petróleo Brent chegou a ultrapassar os 100 dólares por barril, uma subida que não se via desde os tempos mais quentes da invasão da Ucrânia.
O problema central é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20 por cento do petróleo mundial. Os ataques iranianos a infraestruturas do Qatar, incluindo a instalação de Ras Laffan, que fornece cerca de um quinto do GNL global, forçaram a QatarEnergy a declarar força maior – ou seja, suspendeu temporariamente as suas obrigações contratuais de fornecimento. A consequência imediata foi uma subida de mais de 50 por cento nos preços do gás europeu numa única sessão de mercado, o maior salto desde a crise de 2022 com a guerra na Ucrânia.
O comissário europeu para a Energia, Dan Jorgensen, reagiu de forma rápida, pedindo aos Estados-membros que comecem já a reabastecer as suas reservas de gás, baixando o objetivo de enchimento de 90 para 80 por cento da capacidade para o próximo inverno – precisamente para evitar uma corrida de último minuto ao mercado que faria os preços disparar ainda mais.
Os analistas são cautelosos a comparar esta situação com 2022. A Europa está hoje menos dependente do gás russo – só dois por cento das importações de petróleo ainda vêm de Moscovo – mas a dependência do GNL americano criou uma nova vulnerabilidade. A Alemanha, por exemplo, importa hoje 96 por cento do seu GNL dos Estados Unidos. Isso explica, dizem alguns, a postura discreta do chanceler Friedrich Merz perante Donald Trump nas últimas semanas.
António Costa, presidente do Conselho Europeu, aproveitou a crise para fazer uma declaração política importante: a melhor resposta a estes choques geopolíticos é acelerar a transição energética e produzir mais energia em casa. Uma mensagem que vai ao encontro do que os especialistas do think tank Bruegel têm dito há anos.
Bruxelas lança consulta sobre energias renováveis pós-2030
Mesmo em crise, a União Europeia não parou o seu trabalho legislativo. Na semana passada, a Comissão Europeia lançou uma consulta pública sobre o quadro das energias renováveis para depois de 2030. O documento, aberto até junho, vai definir as grandes ambições da Europa em matéria de energia limpa para a próxima década.
Em paralelo, foi também aprovado um regulamento que estabelece requisitos mínimos de sustentabilidade ambiental nos contratos públicos para determinadas tecnologias de baixo carbono – um sinal de que as compras públicas europeias vão começar a ser usadas de forma mais estratégica para apoiar a transição.
O peso da crise do gás nos países europeus
Enquanto Bruxelas legisla, os governos nacionais estão a apagar fogos. Espanha aprovou um pacote de cinco mil milhões de euros de medidas anticrise, incluindo uma descida do IVA sobre a energia de 21 para 10 por cento. A Itália ativou medidas temporárias para conter as margens das empresas energéticas. A Alemanha propôs um mecanismo para limitar os aumentos de preços nos postos de combustível. Quanto à França – por ora, não fez nada.
O Banco Central Europeu adiou os cortes de taxas previstos, revendo em alta as projeções de inflação para 2026. Economistas do Instituto Ifo, em Munique, colocam a Alemanha e os Países Baixos em risco elevado de recessão técnica se o bloqueio do Estreito de Ormuz persistir até ao verão.
A boa notícia – e há sempre alguma – é que em 2025, pela primeira vez na história, as energias renováveis produziram mais eletricidade na União Europeia do que os combustíveis fósseis. Um marco histórico, mesmo que a crise atual coloque esse progresso em evidência: quanto mais depressa se instalar capacidade renovável, menos expostos ficam os europeus a este tipo de choques.
Portugal – Relatório final do apagão: a culpa foi de Espanha
Chegando a Portugal, a notícia que mais mexeu com o país foi a divulgação, a 20 de março, do relatório técnico final sobre o apagão de 28 de abril de 2025 – aquele que deixou a Península Ibérica sem eletricidade durante várias horas. O painel de 49 especialistas europeus, coordenado pela ENTSO-E, a rede europeia de operadores de transporte de eletricidade, chegou a uma conclusão clara: a origem do colapso esteve em Espanha.
O relatório identifica uma sequência de falhas técnicas que tiveram início em Granada, se propagaram por Badajoz e Sevilha, e em menos de 90 segundos derrubaram toda a rede ibérica. A causa principal: controlo de tensão insuficiente do lado espanhol. Portugal, pelo contrário, foi considerado exemplar nesse aspeto – aliás, o requisito de controlo de tensão já era obrigatório cá desde 2019.
A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, foi direta: “nenhuma das causas tem a ver com Portugal.” O relatório inclui 23 recomendações, das quais 90 por cento já estão implementadas ou previstas pelo lado português.
Mas há uma questão que fica em aberto: as compensações. O relatório é técnico, não jurídico. Cabe agora à Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, a ERSE, avaliar se e como as pessoas e as empresas que foram prejudicadas pelo apagão poderão ser ressarcidas. Especialistas alertam que, sendo o evento classificado como extraordinário, pode ser difícil obter indemnizações.
Portugal à beira de declarar crise energética no gás
O apagão ficou para trás, mas há uma nova pressão energética no horizonte. A subida abrupta dos preços do gás – que está já cerca de 85 por cento acima dos níveis de finais de fevereiro – levou a ministra Graça Carvalho a admitir que Portugal pode estar perto de ativar o mecanismo europeu de crise energética para o gás natural.
Portugal foi dos primeiros países a reagir: reduziu temporariamente o imposto sobre o gasóleo automóvel, devolvendo aos consumidores a receita extra de IVA gerada pela subida dos preços. O governo aprovou também um quadro de medidas para situações de crise energética que inclui, em caso de necessidade, a possibilidade de limitar preços.
Para quem ainda não tinha ficado convencido de que a transição energética é urgente, esta semana foi mais um argumento robusto. Quanto mais depressa Portugal e a Europa reduzirem a dependência dos combustíveis fósseis importados, menos vulneráveis ficam a guerras e instabilidade geopolítica do outro lado do mundo.
Antes de encerrar, uma nota de contexto global que é importante não perder de vista.
Em janeiro deste ano, entrou em vigor o Tratado do Alto Mar, o primeiro instrumento jurídico internacional para proteger a biodiversidade nos oceanos que ficam fora das jurisdições nacionais – uma área que corresponde a cerca de dois terços de todos os oceanos do planeta. Portugal é um dos países ratificantes. A primeira Conferência das Partes está prevista para agosto, onde começarão a ser definidas as primeiras áreas marinhas protegidas em alto mar.
É uma dessas histórias que passam quase despercebidas no meio do ruído das crises imediatas – mas que poderão ter um impacto enorme nos ecossistemas marinhos e na biodiversidade nas próximas décadas.
E é assim que termina esta edição do Pegada Semanal. Uma semana difícil do ponto de vista energético, com uma crise que nos lembra – mais uma vez – que a dependência de combustíveis fósseis importados tem um custo que vai muito além das faturas de eletricidade e gasóleo.
Se gostaram deste episódio, partilhem com alguém que precise de perceber o que está a acontecer no mundo da sustentabilidade. Eu sou a Alexandra Costa, e voltamos para a semana.
Até lá.

