#5 Pegada Positiva – José Maria da Fonseca: pioneira da sustentabilidade e referência europeia

Empresa portuguesa reforça liderança ambiental com certificação internacional e aposta na energia solar, vidro leve e biodiversidade

A José Maria da Fonseca, uma das mais emblemáticas produtoras de vinho de Portugal, alcançou um marco histórico ao ser reconhecida como a adega mais sustentável da Europa. Este feito notável foi o ponto central do podcast “Pegada Positiva”, conduzido pela jornalista Alexandra Costa, que teve como convidada Paula Borrego, Diretora de Operações da empresa. A conversa desvendou o percurso de décadas da José Maria da Fonseca na vanguarda da sustentabilidade, explorando as suas dimensões ambiental, económica e social, e as inovações que solidificaram a sua posição de liderança.

A José Maria da Fonseca foi distinguida como a adega mais sustentável da Europa, no âmbito da certificação internacional Fair and Green, um reconhecimento que resulta de décadas de investimento contínuo nos pilares ambiental, económico e social. Para a empresa histórica de Azeitão, a distinção representa mais do que um prémio: é “uma responsabilidade acrescida” para continuar a melhorar.

“Este prémio é uma honra, mas acima de tudo é uma responsabilidade”, sublinha Paula Borrego, diretora de operações da empresa. A certificação Fair and Green – que integra mais de 220 critérios distribuídos por 28 capítulos – foi atribuída em 2024, mas assenta num percurso iniciado há várias décadas. Em 2001, a José Maria da Fonseca tornou-se a primeira empresa de vinhos em Portugal a obter a certificação ambiental ISO 14001.

Da vinha à garrafa: sustentabilidade em toda a cadeia de valor

Com cerca de 750 hectares de vinha, maioritariamente na região de Setúbal, a empresa tem vindo a implementar práticas agrícolas pioneiras. Foi das primeiras em Portugal a adotar o enrelvamento entre linhas de vinha, técnica que combate a erosão dos solos arenosos, contribui para a regulação térmica e promove a biodiversidade.

Na gestão hídrica, a aposta na rega gota-a-gota remonta aos anos 70, muito antes de se tornar prática comum. Hoje, o sistema é suportado por sondas e software que permitem ajustar a irrigação de forma eficiente, preservando recursos.

Outro dos projetos em curso é o PoliClonal, que promove a plantação de vários clones da mesma casta numa única parcela, reforçando a resiliência da vinha face às alterações climáticas, pragas e oscilações de temperatura. Em paralelo, a empresa tem investido na valorização de castas autóctones como Moscatel Roxo, Castelão e Fernão Pires.

Energia solar e redução de 35% no consumo por garrafa

Na área industrial, os números evidenciam a transformação. Nos últimos dez anos, a empresa reduziu em cerca de 35% o consumo energético por garrafa engarrafada. Desde 2021, uma central fotovoltaica com 8.500 metros quadrados e mais de 1.100 painéis assegura cerca de 38% das necessidades energéticas.

O próximo passo passa pela expansão da unidade de produção para autoconsumo (UPAC), pela instalação de sistemas de armazenamento e pela criação de uma comunidade de energia renovável, permitindo partilhar excedentes com infraestruturas locais, incluindo a Casa Museu da marca.

“Trabalhar o pilar ambiental tem de andar de mãos dadas com o pilar económico”, sublinha Paula Borrego, reconhecendo que soluções como o armazenamento em baterias ainda exigem maturidade tecnológica e financeira.

Vidro leve e logística mais eficiente

A pegada carbónica das garrafas de vidro representa cerca de 79% a 80% das emissões diretas da empresa. Por isso, a redução do peso das embalagens tornou-se uma prioridade estratégica. Em cinco anos, a percentagem de garrafas leves no portefólio passou de 45% para 70%, com o objetivo de atingir 85% num horizonte de dois a três anos.

A empresa tem igualmente investido na otimização logística, quer na consolidação de cargas, quer na reformulação de formatos de embalagem. Um dos projetos em curso prevê a alteração da geometria de uma garrafa icónica, reduzindo o diâmetro para permitir transportar mais unidades por palete e, assim, diminuir emissões por unidade.

Também as caixas de cartão foram alvo de revisão: a multiplicidade de cores deu lugar a embalagens castanhas com apenas uma cor, reduzindo custos, complexidade e impacto ambiental – ainda que com o desafio adicional de reforçar sistemas internos de identificação e controlo.

Reciclagem: um desafio coletivo

Apesar dos avanços internos – 100% do vidro residual é encaminhado para entidades certificadas -, a empresa reconhece que Portugal enfrenta dificuldades no cumprimento das metas europeias de reciclagem de vidro. Grande parte do material chega às centrais de tratamento contaminado com outros resíduos, obrigando a processos intensivos de separação e, em muitos casos, à importação de casco de vidro do estrangeiro.

O canal Horeca é apontado como um dos elos críticos, num contexto em que o crescimento do turismo aumenta o consumo de embalagens. Para a empresa, a solução passa por maior formação, sensibilização e responsabilidade partilhada ao longo de toda a cadeia.

Sustentabilidade como cultura

Para Paula Borrego, o maior desafio não é técnico, mas cultural. “Mais do que atingir resultados, é conseguirmos criar uma cultura diferente”, afirma. A sustentabilidade é trabalhada de forma transversal, envolvendo equipas de cima a baixo e integrando inovação, digitalização e melhoria contínua.

Aos produtores de menor dimensão, o conselho é claro: começar com objetivos realistas, mapear processos já existentes e dar passos pequenos, mas consistentes. “O nosso objetivo é sempre melhor do que o último objetivo alcançado”, resume.

Com quase 200 anos de história, a José Maria da Fonseca demonstra que tradição e inovação podem coexistir – e que a sustentabilidade, longe de ser uma tendência, é uma estratégia de longo prazo.

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