#7 Pegada Positiva – Queijo com consciência: como a Montiqueijo transformou tradição em pegada positiva
Com 60 anos de história, a empresa familiar portuguesa alia práticas centenárias de economia circular a investimentos em energia solar, embalagens mais leves e inclusão social. A sustentabilidade, garante Sandra Ferreira, responsável da área, nunca foi obrigação – foi sempre um dever.
Há sectores em que a transição para modelos mais sustentáveis exige uma rutura com o passado. No caso da Montiqueijo, sucedeu precisamente o contrário: foi o passado que serviu de base. A empresa, fundada em 1963 por Carlos e Ludovina Duarte na Grande Lisboa, começou a fabricar e a distribuir queijo fresco porta a porta, com moldes de madeira e numa escala quase doméstica. Sessenta anos depois, processa 30 mil litros de leite por dia, exporta para mais de 14 países e tem certificação de bem-estar animal para o efetivo de cerca de 1.500 vacas da sua exploração em Canha. Mas algumas lógicas mantêm-se intactas.
“A sustentabilidade foi um termo que surgiu mais recentemente, mas as práticas mais antigas da empresa eram bastante sustentáveis”, admite Sandra Ferreira, responsável de sustentabilidade da Montiqueijo. O estrume dos animais é armazenado e usado como fertilizante natural. A água da lavagem dos parques é tratada e reutilizada. O soro resultante da produção de queijo – um subproduto com valor proteico – é devolvido aos animais. O ciclo fecha-se sem desperdício.
Da tradição à inovação energética
A coalhada do leite ainda é retirada à mão – uma opção deliberada, para preservar sabor e textura – mas a fábrica já conta com 628 painéis solares que permitem reduzir a dependência da rede elétrica para menos de 15% do consumo total. “Isso tem um impacto significativo nas emissões de CO2”, sublinha Sandra Ferreira. O sistema de iluminação da unidade é regulado automaticamente em função da luz solar disponível, sem intervenção humana.
O objetivo a médio prazo é crescer na capacidade instalada – há espaço disponível tanto na fábrica como na exploração agrícola de Canha – e, num horizonte mais ambicioso, atingir autonomia energética total. “Até um dia, quem sabe, não precisarmos de energia da rede. Isso seria fantástico”, diz a responsável, sem esconder a ambição.
Embalagens: menos plástico, mais inteligência
Na indústria alimentar, a questão das embalagens encerra uma tensão difícil de resolver: reduzir o plástico sem comprometer a segurança dos produtos. A Montiqueijo optou por enfrentar esse dilema pela via da engenharia. “Não podemos olhar para o plástico como um inimigo”, argumenta Sandra Ferreira. “Temos de ser conscientes na sua utilização”.
Na prática, isso significou reduzir ao máximo a espessura do plástico das embalagens de queijo fresco, garantindo ainda assim que o produto chega ao consumidor em condições adequadas. Mais significativa foi a decisão de eliminar o cincho – a forma plástica colocada no interior das embalagens de queijo – numa altura em que a maioria dos concorrentes ainda o utilizava. “Estávamos a emitir mais CO2 porque o peso era diferente, e a produzir plástico que normalmente era descartado”, explica. Sem o cincho, manteve-se a integridade do produto. Com ele, saíam emissões e resíduos desnecessários.
Internamente, a empresa separação de resíduos por correntes – papel, plástico, vidro – que seguem para operadores licenciados. Um compactador permite organizar os volumes em fardos, tornando a logística interna mais eficiente e reduzindo o espaço ocupado pelo lixo na fábrica.
Inclusão como dimensão de sustentabilidade
A Montiqueijo alargou o conceito de sustentabilidade para além do ambiente. Nas embalagens de queijo fresco de 200 gramas e nos cestos de queijo curado, passou a incluir informação em braille – uma iniciativa pioneira no sector dos lacticínios em Portugal. “Não encontrávamos embalagens de queijo em braille e achámos que era importante tentar chegar a todos”, justifica Sandra Ferreira. O plano é estender a iniciativa a toda a gama de produtos.
No plano comunitário, a empresa integra a rede local de responsabilidade social e empresarial de Loures, que lhe permite identificar necessidades concretas da região e colaborar com outras organizações em soluções de impacto direto. O projeto “O queijinho vai à escola”, lançado em 2018, já chegou a cerca de 30 escolas dos concelhos de Loures e de Lisboa, com o objetivo de promover hábitos alimentares saudáveis junto das gerações mais jovens.
Os excedentes de produção – queijo em perfeito estado para consumo, mas fora dos padrões de calibragem exigidos pelos clientes – são doados a associações. “Não desperdiçamos esse queijo”, afirma Sandra Ferreira. “Simplesmente, as normas não nos permitem vendê-lo porque o peso não corresponde ao indicado”.
O consumidor interno como prioridade
Com 56 colaboradores, a empresa tem apostado também na dimensão interna da sustentabilidade social. Um exemplo aparentemente simples revela a lógica que orienta as decisões: a oferta de um copo de vidro a cada trabalhador, para substituir os copos de plástico descartáveis usados nas pausas para café. “Parece uma coisa muito pequena, um copo por dia, mas somos 56 pessoas, às vezes a consumir duas vezes por dia”, calcula Sandra Ferreira. “São muitos copos por dia que deixam de ir para o indiferenciado”.
A empresa realizou um questionário interno de satisfação e obteve uma avaliação de 97% entre os colaboradores. “As pessoas fazem as empresas”, resume Sandra Ferreira. “É importante que se sintam integradas na política e nas normas da empresa”.
O futuro: relatórios, certificações e passos pequenos
Olhando para os próximos cinco anos, Sandra Ferreira antecipa um contexto regulatório mais exigente para as PME – atualmente ainda isentas de obrigações formais de reporte em matéria de sustentabilidade – e prepara-se para ele. A empresa está a finalizar um manual de sustentabilidade que documenta normas internas e contabiliza a pegada ambiental, como base para os futuros relatórios anuais que, prevê, serão inevitáveis.
A mensagem que deixa a outros empresários do sector é direta: “Olhem para a sustentabilidade não como uma obrigação. É um dever. Temos de olhar para o nosso planeta como algo que tem de ter continuidade e que as novas gerações têm que aproveitar da mesma forma que nós aproveitamos”.
A Montiqueijo não é um caso de rutura. É um caso de continuidade consciente – de uma empresa que descobriu que as práticas que a tornaram resiliente durante 60 anos têm, afinal, um nome moderno: sustentabilidade.

