Floresta que arde e o país que não aprende

Portugal tem mais floresta do que há um século. A Europa também. Mas é uma floresta doente, mal gerida e cada vez mais inflamável. Enquanto as alterações climáticas apertam o cerco, os mesmos erros estruturais acumulam-se – e os incêndios devastadores de 2024 e 2025 confirmaram que o problema está longe de resolvido.

Mais de um terço do território da União Europeia está coberto por floresta. O número parece reconfortante – até se perceber o que esconde.

As florestas e outros terrenos arborizados da UE cobrem cerca de 43% do território comunitário, o equivalente a aproximadamente 182 milhões de hectares, ou seja, 4% da superfície florestal global. E esta área tem vindo a crescer: desde 1990, o coberto florestal europeu aumentou cerca de 10%, segundo dados do Eurostat. A evolução parece positiva. O diagnóstico não o é.

“Apesar de a área florestal ter aumentado nas últimas décadas, a perda de coberto acelerou e o estado de conservação das florestas europeias é considerado deficiente”, alertou a Comissão Europeia. A expansão em extensão não correspondeu a uma melhoria em qualidade – e as ameaças multiplicaram-se: secas mais frequentes, pragas invasoras, fogos cada vez mais intensos e uma gestão fragmentada que deixa a maioria das florestas europeias sem intervenção ativa.

As assimetrias internas são marcantes. A Finlândia e a Suécia têm mais de 60% do seu território coberto por floresta; os Países Baixos ficam pelos 9,9% e a Irlanda pelos 11,6%. Os países mediterrânicos ocupam uma posição intermédia: Espanha com 37%, Portugal com 36%, Itália com 32% e Grécia com 30%. No topo da diversidade florestal europeia, países como a Eslovénia, a Estónia e a Letónia têm mais de metade do território sob coberto arbóreo.

A estrutura de propriedade é outro dado revelador: 60% das florestas europeias pertencem a cerca de 16 milhões de privados, a maioria com menos de 10 hectares. Esta fragmentação extrema torna quase impossível a gestão integrada em grande escala – e é um obstáculo recorrente em países como Portugal, onde o minifúndio herdado do Norte e Centro do país se traduz em dezenas de milhares de proprietários sem capacidade ou incentivo para gerir os seus terrenos.

Sequestro de carbono em causa

Uma das funções mais valorizadas das florestas – a absorção de CO2 – está a ser comprometida. Uma investigação jornalística apoiada pelo Journalismfund Europe revelou que três grandes áreas florestais europeias emitiram mais gases com efeito de estufa do que absorveram nos últimos 20 anos: os bosques de Les Landes em França, a floresta do Harz na Alemanha – e a região Centro de Portugal.

Na Alemanha, o problema é de escala: entre 2011 e 2022, o país perdeu o equivalente a quase 10% da sua floresta total. Quatro em cada cinco árvores apresentam sintomas de doença, segundo o relatório florestal nacional. O besouro da casca dizimou largas áreas de abeto-branco na região do Harz, fenómeno associado às monoculturas e às secas sucessivas que enfraquecem a resistência natural das árvores.

“O mundo tem comido vastas áreas de florestas do planeta para alimentar um consumismo insaciável por carne, energia e madeira.” – Greenpeace Brasil, referindo-se ao relatório da Comissão Europeia sobre a pegada florestal europeia.

As florestas primárias – as que se mantêm sem intervenção humana visível – são uma raridade na Europa. Um mapeamento desenvolvido com a participação de investigadores portugueses do CEABN InBIO identificou mais de 1,4 milhões de hectares de florestas primárias em 34 países, mas a maioria é pequena, fragmentada e dispersa. Ironicamente, 89% estão dentro de áreas protegidas, mas apenas 46% têm proteção rigorosa. “A preservação das florestas primárias não pode ser tomada como garantida, nem mesmo na Europa”, concluíram os autores do estudo.

Portugal: a floresta que cresceu ao avesso

No final do século XIX, as florestas cobriam apenas 7% do território nacional. Hoje cobrem mais de um terço. Mas o país pagou um preço alto por este crescimento acelerado e pouco planeado.

A história florestal portuguesa é uma história de intervenção humana intensa. Em 1874, a área de floresta estimada rondava os 640 mil hectares – menos de 7% do território. A desflorestação anterior, provocada pela construção naval nos séculos XV e XVI, pela agricultura de subsistência e pelas guerras, havia deixado um país praticamente pelado. A partir de 1886, com a criação dos Serviços Florestais, começou a reflorestação sistemática, inicialmente com pinheiros para fixar dunas e cobrir incultos. Na segunda metade do século XX, juntou-se o eucalipto.

Em 1995, a área florestada atingiu 3,3 milhões de hectares. Segundo o 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, com dados de 2015), a floresta cobria 36% do território continental, num total de cerca de 3,2 milhões de hectares – o valor mais recente disponível do levantamento oficial. A área está a crescer gradualmente: 8,3% entre 2005 e 2015.

Três espécies, um desequilíbrio

A floresta portuguesa é dominada por três espécies que juntas cobrem mais de dois terços do território florestal. Os montados de sobro e azinho lideram com 36% da área, seguidos pelos pinheiros com cerca de 30%, e pelo eucaliptal com 26% da superfície florestal. Esta aparente diversidade esconde uma concentração em monoculturas que cria vulnerabilidades estruturais.

O eucaliptal é o caso mais controverso. Chegou a Portugal no século XIX, vindo da Austrália, mas foi a partir da segunda metade do século XX que explodiu em extensão. De 70 mil hectares em 1956, passou para 786 mil em 2005 e para 844 mil em 2015 – um aumento de 7% apenas nessa década. O crescimento chegou a ser de 10% na década anterior. Segundo dados do sector, a indústria da celulose gere diretamente cerca de 194 mil hectares de eucaliptal, como proprietária ou arrendatária.

“A expansão desta espécie começa em meados do século XX. Desde então, pela mão da indústria da pasta e do papel, não parou de aumentar”, sublinha uma investigação do jornal Público sobre gestão florestal. O sector é economicamente relevante: o eucalipto, o pinheiro-bravo e o sobreiro geram 9% das exportações portuguesas e mais de 100 mil postos de trabalho.

Mas o preço ecológico é alto. O pinheiro-bravo – que chegou a dominar a paisagem do Centro e Norte do país – perdeu cerca de 10,5% entre 2005 e 2015, passando de 798 para 714 mil hectares. Entre 1995 e 2015, a área de eucalipto aumentou 17,7% enquanto a de pinheiro-bravo diminuiu 27%. As monoculturas densas e contínuas de eucalipto e pinheiro criam corredores de combustível que facilitam a propagação do fogo e acumulam cargas de biomassa que tornam os incêndios incontroláveis.

“Quando uma área florestal não ajuda a conservar solos, a reciclar nutrientes e a armazenar água, não armazena carbono durante longos períodos de tempo… podemos chamar-lhe floresta?” – Livro Portugal em Chamas, 2018

O problema da propriedade

Além da composição, Portugal enfrenta um problema estrutural de propriedade. Estima-se que mais de 20% do território não tenha dono identificado – ou que este seja desconhecido. O minifúndio do Norte e Centro, com propriedades de menos de cinco hectares, impossibilita a gestão integrada. E sem gestão ativa – controlo de combustíveis finos, desramações, desadensamentos – a floresta acumula matéria inflamável durante décadas, tornando cada incêndio mais devastador do que o anterior.

“Não existe gestão florestal em Portugal porque as contas de cultura das atividades lenhosas são negativas – exceto alguns casos pontuais no eucaliptal, no pinhal e na produção de cortiça, onde a produtividade é mais elevada”, sintetiza um especialista em desenvolvimento territorial numa análise publicada em 2025. “Na floresta de conservação, não existem atualmente outras formas de valorização de mercado que sustentem a respetiva gestão.”

A era do fogo: de Pedrogão a uma nova geração de incêndios

Em junho de 2017, dois especialistas americanos em incêndios florestais vieram a Portugal estudar a tragédia de Pedrógão Grande. “Portugal entrou numa nova era do fogo”, escreveram no relatório. Tinham razão.

O incêndio de Pedrógão Grande, ocorrido a 17 de junho de 2017, matou 66 pessoas, feriu 253 e destruiu cerca de 500 casas. Em outubro do mesmo ano, novos incêndios mataram mais 45 pessoas. No total, 2017 tornou-se o pior ano de fogos em Portugal, com 117 mortes e 902 mil hectares ardidos. Os americanos Mark Beighly e Albert C. Hyde alertaram então que sem mudanças rápidas e profundas, Portugal poderia esperar algo bem pior. A previsão confirmou-se.

Entre 2000 e 2025, registaram-se em Portugal 37 megaincêndios – fogos com características que os tornam impossíveis de extinguir e que chegam a alterar as condições meteorológicas ao seu redor. São os chamados incêndios de sexta geração. O primeiro incêndio europeu qualificável como tal aconteceu em Pedrógão Grande, em junho de 2017. O segundo, em outubro do mesmo ano. Desde então, a frequência aumentou.

Os números são inequívocos: nas duas primeiras décadas do século XXI, a área média anual percorrida pelo fogo mais do que duplicou em Portugal face à década de 1980-1989. Na década de 90, a média anual de área ardida ultrapassou os 100 mil hectares; entre 2000 e 2009, superou os 150 mil. A tendência recente mostra menos ocorrências totais, mas incêndios de maior dimensão: entre 2009 e 2018, os grandes incêndios (superiores a 100 hectares) foram responsáveis por 68% da área ardida, representando apenas 0,66% das ocorrências.

2024: um ano que parecia diferente… e não foi

Até finais de agosto de 2024, Portugal encaminhava-se para o ano com menos incêndios desde 2014. Depois, em setembro, tudo mudou. Os incêndios do Norte e Centro, incluindo os de Sever do Vouga e Albergaria-a-Velha, devastaram em poucos dias mais do que em todo o ano de 2023. Segundo o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS) do Copernicus, 2024 terminou com 146 mil hectares ardidos em Portugal continental – o terceiro pior da última década e o pior desde 2017.

Portugal registou a maior área ardida da UE em 2024, com quase 450 km² destruídos (incluindo os incêndios na Madeira em agosto). Bulgária e Espanha ficaram em segundo e terceiro lugares. No panorama europeu, o EFFIS confirmou que a área total ardida na UE em 2024 ficou cerca de 9% acima da média dos anos 2006-2023, com aproximadamente 51% mais incêndios de grandes dimensões (acima de 30 hectares) do que o habitual.

As principais espécies ardidas em Portugal em 2024 foram o eucalipto (10.422 hectares) e o pinheiro-bravo (6.237 hectares). A Quercus denunciou que dois terços do eucaliptal ardido estão ocultos das estatísticas oficiais por classificações incorretas que registam eucaliptais jovens em regeneração como “mato” – o que, segundo a associação, distorce a realidade e compromete as políticas públicas.

A escala europeia do problema

Os incêndios deixaram de ser um problema exclusivo do Mediterrâneo. Em 2024, 20 estados-membros da UE registaram mais área ardida do que a média histórica. O Mecanismo de Proteção Civil da UE foi ativado 16 vezes para responder a fogos florestais. Entre 2007 e 2024, cerca de 20% de todos os pedidos de assistência ao mecanismo foram em resposta a incêndios.

O ano de 2025 agravou ainda mais o cenário. Até meados de agosto, a área ardida era quatro vezes superior à do mesmo período de 2024. A Europa registou mais de 1.600 incêndios até essa data – contra menos de 1.100 no mesmo período do ano anterior. A Agência Europeia do Ambiente estima que o comportamento humano – negligência e fogo posto – é direta ou indiretamente responsável por 95% dos incêndios florestais na Europa. Mas são as alterações climáticas que os tornam mais frequentes, mais intensos e mais extensos.

“As condições mais quentes e secas, combinadas com secas e ondas de calor mais frequentes, estão a criar paisagens altamente inflamáveis, especialmente no sul e no centro da Europa”, alerta a Agência Europeia do Ambiente. Estima-se que os incêndios florestais custem à UE 2,5 mil milhões de euros por ano, entre destruição de infraestruturas, habitações, impacto no turismo e perdas nos ecossistemas.

Regulação: muitas leis, poucos resultados

Nem faltam leis. O que falta é execução.

A resposta legislativa portuguesa aos grandes incêndios tem seguido um padrão cíclico: catástrofe, comoção, pacote legislativo, esquecimento gradual, nova catástrofe. Já em 2003, na sequência dos grandes fogos desse verão, uma resolução do Conselho de Ministros identificava os mesmos problemas que se repetiram em 2017 e em 2024: ausência de gestão florestal, parcelamento fundiário excessivo, desequilíbrios na composição dos povoamentos e abandono das áreas florestais.

Após 2017, o governo PS lançou aquela que chamou “a maior Reforma da Floresta desde D. João I”. Um pacote de 12 diplomas com três eixos: gestão e ordenamento florestal, titularidade da propriedade e defesa contra incêndios. As medidas incluíam a proibição de novas plantações de eucalipto, a criação de Entidades de Gestão Florestal, o Sistema de Informação Cadastral Simplificada, e benefícios fiscais para os proprietários. O Banco Nacional de Terras, o instrumento central para recuperar terrenos sem dono identificado, foi rejeitado no parlamento.

Sete anos depois, o balanço é sombrio. O cadastro das propriedades rurais continua por completar – apenas 28% das propriedades dos concelhos afetados pelos fogos de 2017 foram cadastradas. O Pinhal de Leiria, patrimônio nacional secular, tem hoje um repovoamento que pouco ultrapassa 50% da área ardida. Os mosaicos florestais com espécies autóctones – identificados como essenciais para criar descontinuidade de combustível – “continuam por concretizar”, na avaliação do Partido Comunista Português em 2024.

Em 2025, o governo atual apresentou o Plano de Intervenção para a Floresta 2025-2050, com um investimento médio anual de 250 milhões de euros. A oposição e especialistas independentes consideram o valor manifestamente insuficiente e criticam a falta de metas quantitativas e de indicação dos recursos humanos necessários.

A resposta europeia

A nível europeu, a Estratégia da UE para as Florestas 2030, lançada em 2021, estabelece como objetivos aumentar a quantidade e qualidade das florestas europeias, reforçar o papel de sumidouro de carbono e promover a gestão sustentável. A Estratégia de Biodiversidade para 2030 prevê a proteção de 30% de todas as zonas terrestres e marítimas da UE e a plantação de 3 mil milhões de árvores.

Em abril de 2023, o Parlamento Europeu aprovou legislação para eliminar do mercado europeu produtos que contribuem para a desflorestação global – como determinados tipos de soja, bovinos, palma de óleo, madeira, cacau e café. A aplicação às grandes empresas estava prevista para dezembro de 2024, mas foi adiada para 2026 e, para pequenas empresas, para 2027.

O Regulamento de Restauro da Natureza (2024/1991) estabelece metas vinculativas para restaurar ecossistemas degradados, com particular atenção aos que têm maior potencial para capturar carbono. O Mecanismo de Proteção Civil da UE foi reforçado em 2023, com uma maior frota rescEU de aviões e helicópteros de combate a incêndios. Em agosto de 2024, aviões de Espanha e Portugal foram mobilizados para combater os incêndios na Madeira, num exemplo de cooperação operacional.

Especialistas: da paisagem viva ao fogo controlado

O consenso científico é claro quanto ao diagnóstico. As divergências estão nas soluções – e, sobretudo, na velocidade e escala da sua implementação.

“A chave não é a espécie, mas a gestão ativa”, defende a catedrática Teresa Soares David, investigadora na área da fisiologia florestal, em declarações publicadas a propósito do Dia Internacional das Florestas deste ano. “Paisagens diversificadas e bem geridas facilitam o combate aos fogos e promovem uma maior estabilidade dos ecossistemas face a eventos meteorológicos extremos associados à mudança climática”. A especialista sublinha a necessidade de “medidas específicas de prevenção, como a criação de aceiros, faixas de proteção e o controlo da vegetação arbustiva”.

Maria Conceição Caldeira, investigadora e coordenadora do ForEco, alerta: “Estamos a caminhar para uma situação muito preocupante em termos de alterações climáticas, em que estas condições muito críticas que temos tido vão acontecer cada vez mais. Precisamos efetivamente de ter uma paisagem muito adaptada.” Francisco Guerreiro, antigo eurodeputado pelos Verdes, sintetiza: “O que falta nas florestas portuguesas é biodiversidade e gestão responsável de longo prazo. Precisamos de mais e melhor floresta”.

Fogo controlado: uma solução antiga ainda pouco usada

O fogo controlado – combustão gerida para reduzir a carga de biomassa antes que um incêndio descontrolado o faça – está entre as medidas com maior consenso científico. Em Portugal, a sua história é longa: já em 1836, Frederico Varnhagen, primeiro administrador do Pinhal de Leiria, descreveu o uso de fogo controlado no pinhal durante o inverno para evitar incêndios no verão.

Um especialista em desenvolvimento territorial propôs em 2025 que o Estado consignasse um orçamento mínimo de 1.000 milhões de euros por ano durante cinco anos para financiar, entre outras medidas, fogo controlado em pelo menos 600 mil hectares. “Os mosaicos sem massa combustível só podem ser concretizados no curto prazo (2025-2027) através de fogo controlado ou queimadas, sempre que existam condições de humidade no solo e na vegetação”, defende o especialista. A proposta contrasta com o investimento atual: a Estratégia Nacional para as Florestas definia o objetivo de criar 500 equipas de sapadores florestais desde 1998, mas nos últimos cinco anos apenas foram criadas 15.

Mosaicos, diversidade e abandono rural

A construção de mosaicos de paisagem – alternando espécies com diferentes comportamentos face ao fogo, áreas agrícolas e zonas de baixa inflamabilidade – é outra das apostas defendidas pelos especialistas. Espanha, que registou incêndios de sexta geração em 2021 e 2023, está a desenvolver estratégias de “paisagens corta-fogo” que criam descontinuidades naturais no combustível.

Mas o sucesso destas estratégias depende de resolver um problema anterior: o abandono rural. “É crucial devolver aos proprietários o interesse na gestão das suas áreas florestais”, sublinha Teresa Soares David. Sem rentabilidade, não há gestão; sem gestão, acumula-se combustível. O CoLAB ForestWISE – laboratório colaborativo que desde 2018 trabalha na interface entre empresas, academia e sociedade – desenvolve soluções que vão do melhoramento genético de espécies mais resistentes à seca e ao fogo, até ferramentas digitais de apoio ao pequeno proprietário.

A resinagem do pinheiro-bravo é apontada como um exemplo de produto florestal não lenhoso que pode criar rentabilidade para proprietários que, de outro modo, abandonariam os seus terrenos. A revitalização deste setor – que chegou a tornar Portugal num dos maiores produtores mundiais de resina natural – está entre as apostas do projeto rePLANT e da Agenda transForm, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência.

Tecnologia e cadastro: dois anos decisivos

A digitalização do cadastro predial rústico é um pré-requisito para qualquer política florestal eficaz – e continua a ser um dos principais bloqueios. Sem saber quem são os proprietários, não é possível impor obrigações de gestão, estabelecer contratos de condomínio ou criar entidades de gestão coletiva. O sistema de informação cadastral simplificada criado em 2017 avançou a passo lento.

Ao mesmo tempo, as ferramentas tecnológicas multiplicam-se. A Google lançou em 2024 uma ferramenta de mapeamento de incêndios florestais com base em inteligência artificial em 15 novos países europeus e africanos, incluindo Portugal. O EFFIS – Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, do Copernicus – monitoriza em tempo quase real as condições de risco, os focos ativos e os danos pós-incêndio com base numa base de dados de cerca de dois milhões de registos de 22 países. O projeto europeu FIRE-RES está a testar 34 soluções inovadoras para grandes incêndios em 11 laboratórios vivos, incluindo dois em Portugal, na zona do Vale do Sousa e na Lousã.

A floresta como espelho de um país

Portugal tem motivos para celebrar: a floresta que cobria apenas 7% do território há 150 anos cobre hoje mais de um terço do país. Mas tem mais motivos para preocupação: essa floresta é das mais inflamáveis da Europa, sofre de abandono crónico, está dominada por monoculturas rentáveis, mas frágeis, e continua a arder ano após ano enquanto os planos se sucedem sem execução.

A Europa enfrenta um desafio semelhante, mas de escala continental: mais floresta em extensão, mais frágil em qualidade, mais vulnerável ao fogo e à seca numa era em que 2024 foi confirmado como o ano mais quente alguma vez registado – o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou 1,5°C acima dos valores pré-industriais.

Os especialistas são unânimes: a solução não passa por uma única medida. Passa por mais gestão ativa e contínua; por paisagens diversificadas que quebrem a continuidade do combustível; por fogo controlado em larga escala; por política de repovoamento do interior; por cadastro completo; por pagamentos aos proprietários pelos serviços de ecossistema que prestam. E, acima de tudo, por vontade política de comprometer recursos humanos e financeiros à escala do problema – e não apenas nos dias de catástrofe.

“Não têm faltado planos, relatórios e orientações para a prevenção e o combate aos incêndios. O que tem faltado é vontade política de disponibilização de meios financeiros e recursos humanos”, afirmou o PCP em 2024. É uma crítica que transcende partidos – e que ecoa em cada verão que o interior de Portugal arde.

Fontes: Eurostat, EFFIS/Copernicus, ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (IFN6), Parlamento Europeu, Comissão Europeia, Agência Europeia do Ambiente, Jornal Público/Journalismfund Europe, Euronews, florestas.pt, PORDATA.

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