Imagem gerada por IA

Fogo que arde debaixo da terra: as emissões ocultas dos incêndios boreais

Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicado em fevereiro de 2026, mostra que os modelos climáticos podem estar a subestimar dramaticamente as emissões de carbono dos incêndios nas florestas boreais. O problema e o que não se vê: o fogo que arde silenciosamente nas turfeiras durante semanas ou anos.

As florestas boreais do Canada, Rússia, Escandinávia e Alasca são o maior bioma terrestre do planeta, cobrindo mais de 16 milhões de quilómetros quadrados. São também o maior reservatório de carbono terrestre – armazenam mais carbono do que existe atualmente na atmosfera. Quando ardem, libertam esse carbono acumulado. Mas quanto exatamente? E aqui que a nova investigação muda o quadro.

O estudo, liderado por Johan Eckdahl, investigador do grupo de Energia e Recursos da UC Berkeley, e publicado na revista Science Advances, reconstruiu as emissões de carbono de 324 incêndios florestais que ocorreram na Suécia em 2018 – um verão de recordes de calor com 324 fogos registados. Combinando medições de campo com dados do Instituto Meteorológico e Hidrológico Sueco, da Agência Florestal Sueca e de satélites, os investigadores criaram o mapa de emissões mais detalhado alguma vez produzido para incêndios boreais.

Os resultados são reveladores. Os modelos climáticos amplamente utilizados – que se baseiam sobretudo em imagens de satélite de chamas visíveis – subestimam as emissões das camadas profundas de solo orgânico em até 50%. Nalgumas regiões especificas, como o condado de Dalarna, onde fogos de baixa intensidade, quase invisíveis nos satélites, queimaram camadas profundas de solo, a subestimação chegou a um fator de 14 vezes.

O problema das turfeiras: fogo debaixo do chão

O mecanismo que explica esta subestimação e a combustão das turfeiras – camadas de matéria orgânica parcialmente decomposta que se acumularam durante centenas ou milhares de anos nas condições frias e húmidas do norte. Ao contrário dos incêndios de superfície, que queimam visivelmente e são detetados por satélite com relativa facilidade, os fogos que se propagam para dentro das turfeiras são lentos, invisíveis e persistentes. Podem durar semanas – ou até anos, como os chamados ‘incêndios que hibernam‘ que reemergem na primavera seguinte debaixo da neve.

Como resumiu o investigador: o que parece dramático vista do espaço não é necessariamente o que mais afeta o clima. As emissões verdadeiramente significativas ocorrem silenciosamente, debaixo do solo. E o que não se vê não é contado – com consequências diretas para os modelos climáticos globais e, portanto, para as políticas de mitigação.

A dimensão do problema: implicações para o Acordo de Paris

A relevância desta descoberta não é meramente académica. Se os modelos de emissões de incêndios florestais estão a subestimar sistematicamente as emissões das florestas boreais – e as evidencias sugerem que sim -, então o ‘orçamento de carbono’ disponível para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C e ainda mais limitado do que se pensava. Um estudo anterior, publicado na Science Advances, calculou que os incêndios boreais na América do Norte poderão contribuir com até 12 gigatoneladas de CO2 acumuladas até meados do século.

Investigadores da Universidade de Alberta acrescentam uma dimensão adicional: as turfeiras que arderam durante os extremos incêndios canadenses de 2023 – que queimaram cerca de 15.000 km2 de turfeiras na Planície Taiga – continuarão a libertar carbono ao longo de 2026 e anos seguintes. A estimativa e que esses fogos libertarão cerca de dois milhões de toneladas de carbono em 2026 – equivalente as emissões per capita anuais de 500.000 canadianos. O impacto de um incendio estende-se muito para além do momento em que as chamas se apagam.

Implicações para a Europa e para Portugal

A relevância europeia deste estudo é direta. A Europa tem as suas próprias florestas boreais e sub-boreais – sobretudo na Escandinávia, nos Bálticos e na Rússia ocidental – com turfeiras significativas. A Agência Europeia do Ambiente (AEA) monitoriza o risco de incendio através do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), que tem registado temporadas de incêndios cada vez mais severas. Em 2022, a Europa sofreu a segunda pior temporada de incêndios desde que há registos fiáveis.

Portugal não é um país boreal, mas os incêndios florestais são um dos seus maiores desafios climáticos. A ENAAC 2030 identifica os incêndios como um risco prioritário, e a ministra Maria da Graça Carvalho tem sublinhado que os incêndios dos últimos anos foram muito mais graves do que o histórico. A investigação sobre turfeiras boreais lembra que existe carbono armazenado nos solos que pode ser libertado de formas que os modelos atuais não capturam completamente – um aviso que se aplica também aos solos orgânicos portugueses.

O que falta: melhor modelação e políticas mais robustas

A investigação de Eckdahl e coautores abre caminho para uma melhoria significativa dos modelos de emissões. Ao demonstrar que a composição local do solo, o uso do território e as condições climáticas regionais afetam profundamente o total de emissões por incendio, o estudo sugere que os modelos globais precisam de ser complementados com dados de alta resolução a nível local. O investigador está já a adaptar à metodologia para florestas do oeste dos EUA.

As implicações políticas são igualmente claras: a gestão ativa das florestas e das turfeiras – incluindo a proteção de zonas de turfa rica em carbono, a prevenção de incêndios em áreas de alto risco e a restauração de turfeiras drenadas – tem um potencial de mitigação climática que ainda não está devidamente incorporado nos planos nacionais de clima. Num momento em que a UE negocia as metas climáticas para 2040, compreender a verdadeira dimensão das emissões por incendio é essencial para não subestimar o desafio.

Fontes utilizadas

  • Eckdahl et al., ‘Reassessing boreal wildfire drivers enables high-resolution mapping of emissions for climate adaptation’, Science Advances, vol. 12, n.9, 2026. DOI: 10.1126/sciadv.adw5226.
  • Schulze et al., Universidade de Alberta, Folio, marco 2026; Science Advances (PMC).
  • UC Berkeley News, fevereiro 2026; Universidade de Lund; ScienceDaily, marco 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.