Dois milhões de portugueses em risco de pobreza: o retrato social do país em 2025
A Nova SBE lança a 6.ª edição do “Portugal, Balanço Social” e revela melhorias nos indicadores de pobreza, mas persistem desigualdades estruturais na saúde, na habitação e nas condições de vida de crianças e idosos
Um em cada cinco portugueses vive em risco de pobreza ou exclusão social. A frase, repetida há anos nas estatísticas europeias, tem hoje um rosto mais preciso: 1,66 milhões de pessoas abaixo do limiar de pobreza, famílias monoparentais com uma taxa de pobreza de 35%, idosos que não conseguem pagar uma semana de férias, crianças sem acesso a cuidados dentários. Estes são alguns dos dados que emergem da 6.ª edição do relatório “Portugal, Balanço Social 2025“, elaborado por investigadores da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) com apoio da Fundação “la Caixa“, apresentado na semana passada.
O relatório – assinado pelos economistas Bruno P. Carvalho, Francisco Tavares, João Fanha, Miguel Fonseca e Susana Peralta – analisa a situação socioeconómica das famílias residentes em Portugal, cruzando dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR 2025), do Inquérito ao Emprego, do Eurobarómetro de Outono de 2024 e dos registos administrativos da Segurança Social e do IEFP. É um retrato que combina boas notícias conjunturais com alertas estruturais que não se resolverão num ciclo eleitoral.
Pobreza recua, mas continua a afetar 1,66 milhões de pessoas
A taxa de risco de pobreza em Portugal desceu de 16,6% em 2024 para 15,4% em 2025 – uma redução de 1,2 pontos percentuais que representa um progresso real, mas deixa ainda mais de um milhão e meio de portugueses abaixo do limiar de subsistência. Em 2025, esse limiar fixou-se nos 723 euros mensais para um adulto a viver sozinho, um valor que subiu 91 euros face ao ano anterior – mais do dobro da subida registada entre 2023 e 2024.
No contexto europeu, Portugal apresentava em 2024 uma taxa de risco de pobreza de 16,6%, ligeiramente acima da média da UE27 (16,2%), mas com uma taxa de privação material e social severa de 4,3%, abaixo da média europeia de 6,4%. A taxa de pobreza ou exclusão social – o indicador mais abrangente do Eurostat, que combina pobreza monetária, privação material e baixa intensidade laboral – era de 19,7%, 1,3 pontos percentuais abaixo da média comunitária.
A tendência de fundo é positiva: desde 2015, os indicadores de pobreza e exclusão social diminuíram progressivamente em Portugal, com a exceção do período pandémico. Mas os dados do relatório advertem para uma persistência preocupante nos extremos da distribuição: enquanto a taxa de pobreza global melhorou, a severidade da pobreza – que mede o grau de privação dos mais pobres de entre os pobres – piorou ligeiramente, passando de 2,3% em 2023 para 2,4% em 2024. Quem está mais longe da linha de pobreza não está a beneficiar das mesmas melhorias que os restantes.
Para retirar todas as famílias portuguesas da pobreza, seria necessário um investimento de cerca de 4,1 mil milhões de euros – menos de 1,4% do PIB. O número da conta possível, mas a realidade dos mecanismos de pobreza é muito mais complexa do que uma simples transferência de rendimento.
Grupos mais vulneráveis: famílias monoparentais, imigrantes e idosos
A pobreza não se distribui uniformemente. O relatório identifica com precisão os grupos mais vulneráveis. As famílias monoparentais – na sua esmagadora maioria encabeçadas por mulheres – apresentam uma taxa de pobreza de 35,1%, o que significa que mais de uma em cada três vive com rendimentos insuficientes. As famílias numerosas com três ou mais crianças enfrentam uma taxa de 26,7%.
Os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal registam uma taxa de pobreza de 27,6% em 2024, quase o dobro da média nacional. Este valor tem vindo a aumentar de forma consistente – em 2008 era de 13,2% – o que aponta para dificuldades de integração socioeconómica que não acompanham o crescimento da população migrante em Portugal.
Os idosos com 65 ou mais anos registaram em 2025 uma taxa de pobreza de 17,8%, ligeiramente acima da média nacional. A boa notícia é que houve uma redução expressiva face a 2024 (quando a taxa era de 21,1%), sobretudo para as pessoas que vivem sozinhas, cuja taxa de pobreza desceu de 33,7% para 27%. Mas a realidade das pensões de velhice continua a ser marcada por uma profunda desigualdade de género: mais de 60% das mulheres que receberam pensão de velhice em dezembro de 2025 receberam menos de 500 euros mensais. Entre os homens, apenas 28,5% estavam nessa situação.
Os desempregados continuam a ser o grupo mais exposto: em 2025, 42,6% das pessoas desempregadas viviam em risco de pobreza. Em 2008, essa taxa era de 34,6%. O desemprego empobrece mais do que há 17 anos, o que reflete a redução das redes de suporte informal e a maior precarização das situações de desemprego.
Desigualdade diminui, mas os mais ricos ficaram mais ricos em termos absolutos
O coeficiente de Gini – o principal indicador de desigualdade de rendimentos – desceu de 31,9 em 2024 para 30,9 em 2025, continuando uma trajetória de redução iniciada em 2008 (quando era de 35,8). Em termos relativos, os rendimentos mais baixos cresceram mais: o decil mais pobre viu o seu rendimento crescer 38,3% em termos reais entre 2014 e 2024, contra 15,9% no decil mais rico.
Mas há uma ressalva crucial que o relatório sublinha: em termos absolutos, foram os mais ricos que mais ganharam. O rendimento médio dos 10% mais ricos aumentou 3.564 euros a preços constantes entre 2014 e 2024, enquanto o dos 10% mais pobres apenas cresceu 1.325 euros. Crescer mais em percentagem a partir de uma base muito baixa não compensa a distância que continua a separar os dois extremos da distribuição.
Em 2024, os 25% mais pobres detinham apenas 10,5% do rendimento total do país, enquanto os 25% mais ricos controlavam 46,5%. O rendimento médio de um indivíduo do primeiro quartil era de 634 euros mensais, face a 2.028 euros no quartil mais rico – uma razão de 1 para 3,2.
O Estado Social que impede o colapso
Sem o Estado Social, a taxa de pobreza em Portugal seria de 40,3% – mais do dobro do valor atual (16,6%). Este é um dos dados mais impactantes do relatório e merece ser lido com atenção: quatro pessoas em cada dez seriam pobres se não existissem pensões, subsídios de desemprego, rendimento social de inserção, abono de família e demais transferências sociais.
As pensões de velhice são a transferência de maior peso, com 2,1 milhões de beneficiários em 2025 e um valor médio mensal de 669 euros. Em 2024, mesmo após o pagamento de pensões, haveria mais 500 mil pessoas em risco de pobreza sem as restantes transferências sociais.
O rendimento social de inserção (RSI) apoiou em 2024 cerca de 214 mil beneficiários (109 mil famílias), com um valor médio de 154,52 euros por beneficiário. Um dado que surpreende: 31% dos beneficiários do RSI tinham menos de 18 anos. O abono de família cobria em 2024 cerca de 1,2 milhões de crianças e jovens, com um valor médio mensal de 105 euros.
Nas prestações de desemprego, 55% dos 388 mil beneficiários em 2025 eram mulheres. Na saúde, as mulheres dominam em quase todos os grupos etários: 58,2% dos quase 876 mil beneficiários de prestações de doença eram do sexo feminino.
Para além do dinheiro: saúde, habitação e privação material
A pobreza não se mede apenas em euros. O relatório dedica uma secção extensa às privações não monetárias, que revelam como a falta de rendimento se traduz em condições de vida concretas.
Em 2025, 10,2% da população portuguesa vivia em privação material e social, enquanto 4,3% enfrentava privação severa. Entre as pessoas pobres, mais de três em cada cinco não tinham capacidade para pagar uma semana de férias por ano fora de casa em 2024. Mais de metade não conseguia fazer face a despesas inesperadas sem recorrer a empréstimo. Quase um terço não tinha capacidade para manter a casa adequadamente aquecida.
Na saúde, as disparidades são claras. Em 2024, 19,6% das pessoas pobres avaliavam o seu estado de saúde como mau ou muito mau, face a 10,5% na população não pobre. O acesso à medicina dentária é o indicador mais crítico: 35,3% das pessoas pobres relataram pelo menos uma ocasião em que precisaram de cuidados dentários e não tiveram acesso – 2,5 vezes mais do que na população não pobre.
Na habitação, os dados são igualmente preocupantes. Em 2024, um em cada três portugueses em risco de pobreza tinha encargos habitacionais excessivos (acima de 40% do rendimento). Este valor mais do que duplicou entre 2008 e 2024 – de 21,2% para 33,4% – numa clara manifestação da crise habitacional que se instalou no país. Dois em cada cinco pessoas pobres viviam em habitações com telhados, paredes, janelas ou chão permeáveis à água ou apodrecidos.
Crianças pobres: privação que hipoteca o futuro
O capítulo dedicado à privação infantil é um dos mais perturbadores do relatório. Em 2024, havia mais de 301 mil crianças pobres em Portugal – uma taxa de pobreza infantil de 17,8%, superior à média nacional. As crianças com menos de cinco anos apresentam uma taxa de 17,6%, que paradoxalmente é ligeiramente superior à de 2008 (17,1%), ao contrário das faixas etárias mais velhas.
A privação material e social entre crianças pobres foi quase quatro vezes superior à das crianças não pobres (29,6% contra 7,6%). Uma em cada duas crianças pobres não participava numa atividade extracurricular ou de lazer de forma regular. Quase uma em cada cinco crianças pobres em idade pré-escolar frequentava menos de 30 horas semanais de ensino – o dobro da taxa nas crianças não pobres.
Um em cada três crianças pobres vivia em alojamentos sobrelotados. Quase um em cada dez não teve acesso a medicina dentária quando precisou. Em quase um em cada seis agregados com crianças pobres, não foi possível assegurar uma alimentação saudável e nutritiva.
Estes dados documentam um ciclo de transmissão intergeracional da pobreza que o relatório identifica explicitamente: crianças pobres crescem em condições que comprometem a sua saúde, educação e desenvolvimento, aumentando a probabilidade de continuarem pobres na vida adulta.
Mercado de trabalho: mais emprego, mas persistem as desigualdades
A taxa de desemprego fixou-se nos 6% em 2025, uma ligeira descida face aos 6,4% de 2024. O salário mínimo nacional atingiu os 870 euros mensais em 2025, um aumento significativo face aos 461 euros de 2008 – embora, a preços constantes, o ganho real seja de 265 euros.
As desigualdades salariais de género agravaram-se em 2024. Por cada euro que um homem ganha, uma mulher com ensino superior recebe apenas 72 cêntimos – uma deterioração de 8 cêntimos face a 2023. Entre as pessoas com escolaridade até ao ensino básico, a disparidade é ainda maior: as mulheres recebem 57 cêntimos por cada euro ganho pelos homens.
A precariedade laboral afeta desproporcionalmente os jovens: em 2025, metade dos trabalhadores entre os 18 e os 24 anos tinha contratos temporários. O acesso ao teletrabalho continua altamente estratificado: foi dez vezes mais comum entre trabalhadores com ensino superior do que entre os que têm no máximo o ensino básico.
Subsiste também o paradoxo do “trabalhador pobre“: quase um em cada três pessoas em risco de pobreza em 2024 trabalhava a tempo inteiro. O emprego, por si só, não garante a saída da pobreza quando os salários são insuficientes.
Diferenças regionais: Lisboa mais cara, Alentejo mais pobre
As assimetrias regionais continuam a ser um traço estrutural da pobreza em Portugal. Em 2025, o Alentejo registou a taxa de pobreza mais elevada do país (17,9%), enquanto a Grande Lisboa apresentou a mais baixa (12,2%). Mas este dado deve ser lido com cautela: quando se utilizam limiares de pobreza regionais em vez do limiar nacional, a Grande Lisboa surge como a região com maior taxa de pobreza (18,1%), reflexo do elevado custo de vida na capital.
As regiões autónomas são as mais dependentes das transferências sociais para reduzir a pobreza. Nos Açores, sem essas transferências a taxa de pobreza seria mais de 8 pontos percentuais superior. Na questão alimentar, os Açores registaram em 2024 a taxa mais elevada de insegurança alimentar do país: 13,4% da população não tinha capacidade para comprar alimentos para fazer refeições completas e saudáveis.
Desconfiança como sintoma social
O relatório inclui dados do Eurobarómetro de Outono de 2024 sobre perceções, expectativas e confiança nas instituições. Os resultados são um espelho do estado de espírito de um país dividido pelas circunstâncias económicas.
Entre as pessoas com dificuldades financeiras, 91% não confiavam nos partidos políticos. Quase 60% estavam insatisfeitas com a democracia em Portugal. Quase quatro em cada dez acreditavam que a sua situação financeira iria piorar nos 12 meses seguintes. A inflação, a saúde e a habitação eram as três principais preocupações.
O fosso de perceção entre os que têm dificuldades e os que não têm é significativo: nas dimensões dos serviços públicos e do mercado de trabalho, a avaliação negativa é quase o dobro entre as pessoas com dificuldades financeiras. Uma sociedade em que os mais vulneráveis têm uma visão radicalmente diferente do país que habitam é uma sociedade com uma fratura de confiança que vai para além do rendimento.
Progresso real, uma agenda incompleta
O “Portugal, Balanço Social 2025” é simultaneamente um documento de progresso e de alerta. A década que passou trouxe melhorias mensuráveis: a privação material e social severa caiu de mais de 10% para menos de 5% em dez anos; o rendimento dos mais pobres cresceu mais em percentagem do que o dos mais ricos; as pensões aumentaram; o desemprego estabilizou em níveis baixos.
Mas os dados mostram com igual clareza o que ainda falta. A crise da habitação aprofundou-se e está a empurrar para a pobreza pessoas que até recentemente eram financeiramente estáveis. A medicina dentária continua a ser um luxo para os mais pobres. A precariedade laboral hipoteca o futuro dos jovens. As crianças mais novas são o grupo em que a pobreza menos recuou. E os imigrantes – cada vez mais numerosos e com taxas de pobreza crescentes – revelam uma falha sistémica na integração socioeconómica.
Portugal comprometeu-se, na Cúpula Social do Porto de 2021, a reduzir o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social em 765 mil até 2030. O relatório não quantifica explicitamente a distância a essa meta, mas os números sugerem que o caminho, embora iniciado, exige uma aceleração política que os dados disponíveis ainda não confirmam.

