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Verdade em risco: o mundo a perder a liberdade de Imprensa

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

No pior momento em 25 anos para o jornalismo livre, os repórteres ambientais pagam o preço mais alto. Portugal cai para o 10.º lugar enquanto o planeta sufoca em desinformação climática.

A 3 de maio celebra-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Em 2026, há pouco a celebrar. O mais recente Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) revela um panorama sombrio: a pontuação média dos 180 países analisados nunca foi tão baixa em 25 anos de histórico do indicador. Para o GreenOcean — que existe precisamente porque acreditamos que informação livre e rigorosa é o oxigénio das democracias e da sustentabilidade —, esta data é um momento de reflexão incontornável.

Este ano, a Conferência Mundial organizada pela UNESCO decorre em Lusaca, na Zâmbia, sob o mote “Shaping a Future at Peace” – Construir um Futuro em Paz. O tema não é acidental: sem jornalismo livre, não há paz possível, nem transição ecológica informada, nem democracia funcional.

Imprensa: um quarto de século de recuo

Quando a RSF publicou o seu primeiro índice, em 2002, cerca de 20% da população mundial vivia em países com uma situação considerada “boa” para a liberdade de imprensa. Hoje, esse valor colapsou para menos de 1%. Em sentido contrário, mais de 52% dos países estão agora classificados como “difícil” ou “muito difícil” – uma maioria absoluta que seria impensável no início do milénio.

A diretora editorial da RSF, Anne Bocande, identificou quatro fatores estruturais para este retrocesso: a autoridade estatal crescente, a pressão política, atores financeiros predatórios e as próprias plataformas digitais. Segundo a organização, mais de 60% dos países criminalizaram os meios de comunicação através de leis antiterrorismo, legislação de segurança nacional ou normas vagas sobre desinformação. O ambiente jurídico é o indicador com deterioração mais rápida.

“A liberdade de imprensa, pedra angular das democracias, não está garantida para sempre. O seu futuro depende de escolhas políticas e da capacidade dos cidadãos de a defenderem”. – Repórteres Sem Fronteiras, 2026

Portugal no top 10, mas a cair

No contexto ibérico e lusófono, Portugal mantém uma posição de destaque, mas perdeu dois lugares face ao ano anterior. O país ocupa agora o 10.º lugar no ranking global com uma classificação de “satisfatório” (83,71 em 100), descendo do 8.º posto. No topo da tabela, pela enésima vez consecutiva, a Noruega – o único país a obter classificação de “excelente” (92,72 em 100) -, seguida pelos Países Baixos, Estónia, Dinamarca, Suécia e Finlândia.

No seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Portugal lidera destacado, seguido de Cabo Verde (40.º), Brasil (52.º) e Moçambique (99.º). Timor-Leste registou, aliás, uma das subidas mais expressivas, passando do 39.º para o 30.º lugar.

Ranking dos países da CPLP — RSF 2026

PaísPosição 2026Variação
Portugal10.º▼ 2
Cabo Verde40.º
Timor-Leste30.º▲ 9
Brasil52.º
Moçambique99.º
Angola~130.º
Guiné-Bissau~140.º

Fonte: RSF, Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026 | TATOLI Agência Noticiosa de Timor-Leste, 30 abril 2026

A descida de Portugal é atribuída sobretudo a pressões económicas no sector mediático e à concentração da propriedade dos meios de comunicação. Não existem, por enquanto, ameaças físicas sistemáticas a jornalistas ou mecanismos legais de repressão comparáveis aos registados em muitos países do sul global. Ainda assim, a tendência descendente merece atenção.

Jornalistas ambientais na mira

Para uma publicação como a GreenOcean, centrada nas crises climática e de biodiversidade, há uma estatística que não pode ficar por dizer: os jornalistas ambientais são dos profissionais mais vulneráveis do mundo.

Um relatório da UNESCO documenta que, entre 2009 e 2023, pelo menos 749 jornalistas, grupos de jornalistas e meios de comunicação que cobriam questões ambientais foram atacados em 89 países. Mais de 300 desses ataques ocorreram nos últimos cinco anos – um aumento de 42% face ao período anterior. Quarenta e quatro jornalistas foram assassinados, e apenas cinco casos resultaram em condenação.

Numa consulta realizada com mais de 900 profissionais de 129 países, 70% dos jornalistas ambientais afirmaram ter sofrido ataques, ameaças ou pressões durante o exercício da sua profissão. Destes, 85% relataram ameaças psicológicas, 60% assédio online e 41% violência física. Os atores estatais foram responsáveis por pelo menos metade dos 749 ataques documentados.

“Sem informações cientificamente fiáveis sobre a crise ambiental, não há como ter esperança de a superar”. – Audrey Azoulay, Diretora-Geral da UNESCO

Os riscos não se limitam às zonas de conflito. Na América Latina, jornalistas que investigam desmatamento, mineração ilegal ou criminalidade organizada ligada a recursos naturais enfrentam ameaças crescentes. No Equador, após os assassinatos dos jornalistas Darwin Baque e Patricio Aguilar, o país caiu 31 posições no índice RSF 2026, para o 125.º lugar. No Peru, o assassinato de quatro jornalistas valeu uma descida de 14 posições.

A dimensão de género agrava o quadro: as mulheres jornalistas estão desproporcionalmente expostas ao assédio online quando cobrem temas ambientais, ecoando padrões já identificados noutros domínios de cobertura de risco.

Plataformas digitais e desinformação climática: a crise dentro da crise

A RSF aponta, pela primeira vez com esta clareza, as plataformas tecnológicas como corresponsáveis pelo declínio da liberdade de imprensa. A decisão da Meta de abandonar os sistemas formais de verificação de factos em favor de um modelo de moderação descentralizado, e os ataques sistemáticos de Elon Musk ao jornalismo independente através da plataforma X, são enumerados como causas estruturais de um ecossistema informativo em deterioração.

O relatório “World Trends in Freedom of Expression and Media Development” da UNESCO quantifica o efeito: a autocensura cresceu mais de 60% nos últimos anos, alimentada pelo medo de represálias, assédio online, intimidação judicial e pressão económica. A desinformação climática, em particular, “corre desenfreada nas redes sociais“, segundo a diretora-geral da UNESCO.

Para o jornalismo ambiental, este cenário é duplamente perigoso. Num momento em que a comunicação de ciência climática é essencial para mobilizar políticas e cidadãos, os canais de informação estão contaminados por desinformação amplificada algoritmicamente. Investigações sobre cumplicidades entre interesses corporativos e degradação ambiental – exatamente o tipo de jornalismo de interesse público que mais precisa de proteção – tornam-se cada vez mais difíceis de financiar e publicar.

Conferência de Lusaca: jornalismo, paz e futuro

A escolha da Zâmbia como sede da Conferência Mundial de 2026 é em si mesma uma mensagem. O continente africano enfrenta algumas das piores condições para o jornalismo livre – do Sahel devastado pelas juntas militares (o Níger caiu 37 posições, para o 120.º lugar) às regiões em conflito no Sudão e na Etiópia – ao mesmo tempo que é palco de algumas das histórias ambientais mais urgentes do planeta.

O programa da conferência, que decorre a 4 e 5 de maio em Lusaca, debate a interdependência entre jornalismo, tecnologia, direitos humanos e paz. Um dos painéis centrais analisa como algoritmos, inteligência artificial e novos atores de informação reconfiguram a liberdade de expressão – e como enquadramentos regulatórios ancorados em direitos humanos podem responder a essas transformações.

A cerimónia de entrega do Prémio UNESCO/Guillermo Cano para a Liberdade de Imprensa, que homenageia jornalistas e organizações que contribuem para a defesa desta liberdade frequentemente em condições de risco pessoal, realiza-se em paralelo na sede da UNESCO em Paris.

Porquê importa para a agenda da sustentabilidade

A ligação entre liberdade de imprensa e objetivos climáticos não é metafórica – é operacional. O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) inclui explicitamente o acesso público à informação e a proteção de liberdades fundamentais, entre as quais a de imprensa. O ODS 13 (Ação Climática) pressupõe que o debate público sobre o ambiente seja alimentado por jornalismo independente e rigoroso.

Quando um jornalista é assassinado por investigar uma mina ilegal na Amazónia, quando uma repórter ambiental é processada judicialmente por uma empresa petrolífera europeia, quando um correspondente climático é assediado online até ao silêncio – a crise ecológica perde testemunhas, e o planeta perde aliados.

Artur Romeu, diretor da RSF Brasil, coloca a questão com clareza: a liberdade de imprensa não é um direito que pertence apenas a jornalistas e meios de comunicação. É um direito coletivo, da sociedade como um todo – comparável ao direito à saúde ou à habitação. Sem informação livre, plural e independente, os cidadãos não podem tomar decisões informadas sobre o clima, sobre a água que bebem, sobre o ar que respiram.

Fontes:

RSF — Repórteres Sem Fronteiras

UNESCO

Nações Unidas

Imprensa portuguesa

Imprensa internacional e lusófona

Jornalismo ambiental e segurança de jornalistas

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