Santa Marta 2026: a primeira conferência internacional sobre a saída dos combustíveis fósseis
A 28 e 29 de Abril, na cidade portuária de Santa Marta, na Colômbia, decorre aquela que pode ser a reunião climática mais importante de 2026 fora da ONU. É a primeira vez na história da diplomacia climática que uma conferência internacional tem como tema exclusivo e central a saída dos combustíveis fósseis. Mais de 50 países já confirmaram presença. A crise do Estreito de Ormuz tornou o argumento mais urgente do que nunca.
A conferência nasceu da frustração. Na COP30 de Belém, em Novembro de 2025, as negociações climáticas das Nações Unidas terminaram sem qualquer acordo sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis – o principal motor das alterações climáticas. O texto final não chegou sequer a mencionar a palavra “combustíveis fósseis“. Nesse contexto, a Colômbia e os Países Baixos anunciaram que coorganizariam uma conferência paralela, fora da arquitetura formal das Nações Unidas, exclusivamente dedicada ao tema que a COP não conseguiu resolver.
A escolha de Santa Marta é simbólica: é um porto relevante para as exportações de carvão colombiano. A Colômbia é o quinto maior produtor de carvão do mundo – e, paradoxalmente, o país que três anos atrás se comprometeu a deixar de aprovar novos contratos de exploração de petróleo, gás e carvão. Os Países Baixos, por seu lado, são o país natal da Shell. Dois países não estranhos aos fósseis a liderar a saída deles.
Finalmente temos um fórum onde os combustíveis fosseis são realmente a conversa principal e a tarefa e bem clara. – Nikki Reisch, Center for International Environmental Law, NPR
O que está em jogo
A conferência é aberta a países, governos subnacionais, povos indígenas, organizações da sociedade civil, sindicatos e peritos técnicos. Não é um processo de negociação formal – é uma “coligação dos atuantes“, como a descreveu a imprensa especializada: os países que querem avançar e não estão dispostos a esperar pelo consenso impossível de um processo multilateral travado pelos países produtores de petróleo.
Vinte e quatro países assinaram a Declaração de Belém sobre a Transição Justa para Fora dos Combustíveis Fósseis: Austrália, Áustria, Bélgica, Camboja, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dinamarca, Fiji, Finlândia, Irlanda, Jamaica, Quénia, Luxemburgo, Ilhas Marshall, México, Micronésia, Nepal, Países Baixos, Panamá, Espanha, Eslovénia, Vanuatu e Tuvalu. O objetivo declarado é negociar, no prazo de um ano, um tratado vinculativo para a transição justa e equitativa para fora dos combustíveis fósseis.
A crise de Ormuz como acelerador involuntário
O momento não podia ser mais propício – ou mais perturbador. O encerramento parcial do Estreito de Ormuz desde o final de Fevereiro, na sequência dos ataques ao Irão, expôs com brutalidade o que os países dependentes de petróleo e gás importado enfrentam quando a geopolítica dos fósseis desestabiliza. Portugal, Espanha, Escandinávia e o Reino Unido – com alta penetração renovável – amorteceram o choque. A Itália, a Coreia do Sul, o Japão e as Filipinas estão em crise energética.
A mensagem que o organizador colombiano leva para Santa Marta é direta: a dependência dos fósseis não é apenas um problema climático. É um problema de segurança nacional, de soberania energética e de estabilidade económica. E essa mensagem ressoa muito mais num mundo onde um estreito de 34 quilómetros de largura pode paralisar 20% do abastecimento mundial de petróleo.
FONTES

