Renováveis valem já 5,3 mil milhões de euros para a economia portuguesa e podem chegar aos 32,3 mil milhões em 2040
Portugal produziu 75,5% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis em 2025 e poupou cerca de 42 mil milhões de euros em custos de energia entre 2018 e 2025 graças a essas fontes. São alguns dos números do estudo de impacto das energias renováveis elaborado pela EY-Parthenon para a APREN, publicado em abril de 2026, que projeta um sector com capacidade para gerar 419 mil empregos e contribuir com 32,3 mil milhões de euros para o PIB nacional até 2040 – desde que o país mantenha e aprofunde o caminho já traçado.
O contexto global em que o estudo é publicado não é neutro. A instabilidade no Médio Oriente, com impacto no estreito de Ormuz por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás mundiais, veio juntar-se à memória recente da guerra na Ucrânia para reforçar uma convicção que vai ganhando terreno nas cúpulas políticas e económicas: a transição energética não é apenas uma resposta às alterações climáticas – é uma questão de segurança estratégica.
Neste quadro, Portugal surge numa posição invulgarmente favorável. O estudo identifica um conjunto de fatores que tornam o país altamente competitivo no sector das renováveis: recursos naturais abundantes para todas as fontes – hídrica, eólica, solar, biomassa, geotérmica; mão de obra qualificada; empresas nacionais com experiência em projetos complexos; um ambiente político estável e favorável ao investimento; e a perspetiva de corredores verdes para a Europa Central que permitirão ao país exportar energia renovável.
A nível global, o investimento em energia renovável cresceu 109% entre 2015 e 2025, atingindo 780 mil milhões de dólares. Em sentido contrário, o investimento em petróleo caiu 34% e em gás natural 19% no mesmo período. Na União Europeia, as renováveis foram, nas últimas duas décadas, o único tipo de energia com evolução positiva, crescendo a uma taxa média anual de 5,1% entre 2000 e 2023.
66% de eletricidade renovável em 2024, 75,5% em 2025
Em Portugal, o avanço das renováveis é consistente e acelerado. Em 2024, 66% da eletricidade consumida no país teve origem renovável – um valor que subiu para 75,5% em 2025, incluindo a energia de bombagem. A potência elétrica renovável instalada ascende a 21.930 MW, distribuídos entre hídrica (38%), fotovoltaica (31%), eólica (27%) e bioenergia (4%).
Em termos de consumo primário, as renováveis representam já 38,3% do total nacional, 37,4% do consumo final e 47% do aquecimento e arrefecimento. Nos transportes, a penetração é ainda de 14%, o que evidencia onde residem os maiores desafios ainda por vencer.
A distribuição geográfica da produção é também reveladora da natureza descentralizadora das renováveis: o Alentejo concentra 47% da geração, o Norte 29% e o Centro 14%. Uma geografia que transfere valor económico para territórios do interior, historicamente afastados dos centros de atividade.
42 mil milhões de euros poupados em sete anos
Um dos dados mais expressivos do estudo diz respeito ao impacto das renováveis no preço da eletricidade. Pelo facto de apresentarem custo marginal tendencialmente nulo, as fontes de energia renovável influenciam a formação do preço no mercado grossista através do mecanismo da ordem de mérito, ou seja, são despachadas primeiro, comprimindo os preços do mercado para baixo.
Entre 2018 e 2025, esta dinâmica gerou uma poupança acumulada de cerca de 41,9 mil milhões de euros na compra de energia elétrica em Portugal. Só em 2025, a poupança estimada foi de 7.332 milhões de euros. Num contexto em que as famílias e as empresas continuam muito expostas à volatilidade dos preços da energia, este efeito amortecedor tem um valor económico e social concreto e mensurável.
De 62 mil para 419 mil empregos até 2040
O impacto económico direto das fontes de energia renovável em Portugal em 2024 situa-se nos 5,3 mil milhões de euros de contribuição para o PIB, 62.400 empregos gerados, 1,4 mil milhões em remunerações e igual valor em receita fiscal. São números já significativos – mas as projeções para os anos seguintes são de outra dimensão.
Em 2030, o impacto no PIB deverá atingir 14,9 mil milhões de euros e o emprego gerado chegará a 193.800 postos de trabalho. Em 2040, os números são ainda mais ambiciosos: 32,3 mil milhões de euros de contribuição para o PIB, 418.800 empregos, 12 mil milhões em remunerações e 10,8 mil milhões em receita fiscal. Um salto que reflete não apenas o crescimento da capacidade instalada, mas também a maturação de um sector que vai aprofundando as suas ligações ao tecido económico nacional.
O estudo destaca que, entre 2024 e 2040, cresce o peso dos efeitos indiretos e induzidos no impacto total, ou seja, à medida que o sector amadurece, os seus benefícios propagam-se mais amplamente pelo tecido económico, gerando um efeito multiplicador mais elevado. A fase inicial, dominada por investimento em construção, dá lugar a uma fase de operação e consolidação que alimenta cadeias de fornecimento, serviços e consumo interno.
Menos dependência, menos emissões
O impacto ambiental e o impacto na dependência energética são as outras duas dimensões analisadas no estudo. Em 2025, Portugal evitou a emissão de 10,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente graças à produção renovável. Em 2040, esse valor deverá mais do que duplicar, chegando às 26,6 milhões de toneladas – num contexto em que o preço das licenças de CO2 deverá subir dos atuais 73,9 euros por tonelada para 220 euros em 2040, tornando os custos evitados ainda mais expressivos.
Na dimensão da dependência energética, os números são igualmente eloquentes. Em 2025, as importações de combustíveis fósseis evitadas graças às renováveis ascenderam a 45.005 GWh, gerando uma poupança de 1.966 milhões de euros. Em 2040, as importações evitadas deverão atingir 95.188 GWh – mais do dobro – e as poupanças associadas chegarão aos 7.702 milhões de euros anuais.
O contraste com um cenário sem renováveis é particularmente revelador: estima-se que, em 2030, sem fontes de energia renovável, a taxa de dependência energética de Portugal alcançaria 86,3% – quase 30 pontos percentuais acima do valor estimado com renováveis (56,9%). Uma diferença que traduz, em termos concretos, o que está em jogo na continuação – ou não – do esforço de transição.
Desafios que persistem
O estudo não ignora os obstáculos. A morosidade dos processos de licenciamento, os elevados custos iniciais de instalação, a capacidade limitada de armazenamento de energia, os desafios de integração nas redes elétricas e a maturidade ainda incompleta de algumas tecnologias emergentes são apontados como os principais entraves ao crescimento mais acelerado do sector.
O documento identifica também um desfasamento entre a perceção pública e os impactos reais – económicos, ambientais e sociais – das renováveis, o que torna o investimento em comunicação e literacia energética parte integrante de qualquer estratégia séria de transição. A digitalização e a inteligência artificial surgem como um fator de dupla face: por um lado, a expansão de centros de dados aumentará a procura de eletricidade nas próximas décadas; por outro, a IA é também um instrumento essencial para gerir de forma mais eficiente a produção e o consumo de energia renovável, equilibrar redes e reduzir desperdícios.
Janela de oportunidade que não espera
O Roteiro Nacional para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) estima que a incorporação renovável na produção de eletricidade deverá atingir 94% em 2030 e 97% em 2040. As projeções do estudo da APREN e da EY-Parthenon mostram que o caminho para esses objetivos é também um caminho de criação de riqueza, emprego e resiliência nacional.
Num mundo onde a instabilidade geopolítica veio recordar a todos o preço da dependência energética, Portugal tem a oportunidade de transformar a sua dotação natural em vantagem competitiva duradoura. Os números estão lá. O que falta, como sempre, é manter a consistência das políticas e a velocidade da execução.

