Olival lidera, Portugal destaca-se nas grandes operações: o que diz o sector agro-ibérico sobre o futuro do investimento
Estudo da CBRE revela que o investimento institucional em agronegócio ibérico atingiu 1.200 milhões de euros em 2025, um crescimento de 50% num ano. Portugal assume protagonismo nas transações de maior escala, a azeitona consolida-se como a melhor aposta agrícola e a escassez de água emerge como o principal obstáculo ao crescimento.
O Iberian Agribusiness Report 2026, publicado pela consultora CBRE em maio de 2026, traça um retrato abrangente das perspetivas dos investidores e operadores agrícolas na Península Ibérica. O estudo combina dados de mercado com os resultados de um inquérito realizado junto dos principais operadores do sector, cruzando expectativas de investimento, tendências de culturas e previsões de preços para produtos-chave como o azeite e a amêndoa.
1.200 milhões em 2025: o agronegócio ibérico entra numa nova fase
Em 2025, o volume de investimento institucional no agronegócio ibérico atingiu 1.200 milhões de euros, representando um crescimento de 50% face ao período homólogo. Entre 2022 e 2025, o total acumulado superou os 5.300 milhões de euros, numa base de investidores diversificada em que os operadores industriais representaram cerca de 40% do volume total investido.

Para a CBRE, o sector entrou numa nova fase de estabilidade e maturidade estrutural. As transações já não se limitam à simples compra e venda de propriedades – o mercado evoluiu para um ecossistema mais sofisticado, com operações de fusão e aquisição, novas estruturas de dívida e modelos de sale-and-leaseback. A profissionalização é visível na dimensão dos operadores: a Península Ibérica conta atualmente com mais de 40 operadores profissionais que gerem, em conjunto, mais de 400 mil hectares.
“Portugal tem-se afirmado como um dos principais polos de atração para operações de capital institucional na região. Historicamente, a maioria das transações de agribusiness na Península Ibérica com ticket superior a 20 milhões de euros concentram-se na região do Alqueva, superando outros polos produtivos mais consolidados, como a Andaluzia.” Manuel Valadas Albuquerque, diretor de Agribusiness para o Sul da Europa, CBRE
Terra portuguesa: competitiva face aos mercados internacionais
Em 2025, registou-se uma estabilização do valor da terra de regadio em Portugal, após cinco anos consecutivos de valorização. Os valores médios da terra nua situaram-se entre 28.000 e 40.000 euros por hectare no Alqueva, entre 20.000 e 42.000 euros no Sado, entre 20.000 e 28.000 euros em Santarém e entre 26.000 e 35.000 euros em Castelo Branco. No Algarve, fortemente impulsionado pela rentabilidade de culturas subtropicais como o abacate, os valores atingiram entre 50.000 e 90.000 euros por hectare.
Estes preços mantêm-se significativamente inferiores aos de mercados internacionais concorrentes: na Califórnia e na Austrália, os valores oscilam entre 70.000 e 90.000 euros por hectare, associados a maiores necessidades hídricas. O diferencial de custo é um dos principais argumentos de atratividade da Península Ibérica junto dos investidores internacionais.
Água: o critério central do investimento agrícola
A gestão hídrica tornou-se um fator determinante nas decisões de investimento. Em fevereiro de 2026, Portugal registou 242 mm de precipitação, um valor 329% acima da média histórica para o mês – um sinal positivo num contexto de crescente volatilidade climática. Em paralelo, a infraestrutura hídrica está a ser reforçada com novos blocos de irrigação que totalizam mais de 6.000 hectares em Messejana, Vidigueira e Moura, com conclusão prevista entre 2026 e 2027.
“Num contexto de crescente volatilidade climática, a segurança no acesso à água tornou-se um critério central de investimento. O ajuste das dotações de água – como a fixação nos 7.000 m³/ha para o amendoal e nos 3.700 m³ para os sistemas de olival em copa e em sebe no Alqueva – reforça a exigência do contexto atual e a transparência na comunicação com os investidores.” José Pedro Pereira, Associate Director de Agribusiness, CBRE Portugal
No inquérito realizado pela CBRE, a escassez de água lidera as preocupações do sector com 22% das respostas, seguida pela mão-de-obra (21%) e pelo risco climático (18%). A volatilidade de preços e o ambiente político e regulatório surgem empatados com 12% cada.
Otimismo moderado domina as expectativas de investimento
O inquérito da CBRE junto dos principais operadores do sector revela um clima favorável: 62% dos inquiridos antecipam um aumento moderado do investimento entre 5% e 20% para 2026, e 6% preveem um crescimento forte acima dos 20%. Apenas 4% apontam para uma descida. Este otimismo é alimentado sobretudo pela procura global – citada por 31% dos respondentes como principal fator de atratividade -, seguida pela mecanização (22%) e pelo desenvolvimento de novas variedades e genética vegetal (18%).
“O enquadramento macroeconómico atual, ainda que pautado por alguma volatilidade e por uma moderação na captação de capital na Europa, reafirma o agribusiness como um ativo defensivo contra a inflação, sustentado por fundamentos sólidos de longo prazo e capacidade de diversificação.” Francisco Horta e Costa, diretor geral da CBRE Portugal
Olival lidera; vinhas e amêndoa perdem terreno
Na análise por culturas, o olival consolida a liderança como melhor investimento atual, reforçando a sua posição em dez pontos percentuais face ao ano anterior. O abacate mantém-se em segundo lugar. No polo oposto, as vinhas continuam a encabeçar os piores destinos de capital, surgindo a amêndoa de forma crescente em segundo lugar – o mercado antecipa que as arrancas superarão as novas plantações, sobretudo devido a escolhas erradas de variedades e localização.
Quanto à evolução da área plantada nos próximos cinco anos, o pistácio lidera as expectativas de crescimento, com o olival a ganhar vinte pontos percentuais face ao ano anterior. A amêndoa e o pistácio continuam a gerar opiniões divergentes devido à volatilidade de preços, embora o pistácio se destaque pelo crescimento contínuo da área plantada.
Azeite e amêndoa: previsões de preços em alta
Nas previsões de preços a três anos, o inquérito de 2026 mostra um sentimento mais otimista do que em 2025 relativamente ao azeite virgem extra. A maioria dos inquiridos (54%) espera que o preço em exploração se situe entre 4 e 5 euros por litro – um regresso ao otimismo de 2024, após a correção que se seguiu ao pico histórico acima dos 8 euros por litro registado em 2023-2024.
No mercado da amêndoa, o otimismo é crescente: 54% dos inquiridos esperam preços acima dos 5 euros por quilograma nos próximos três anos, contra apenas 31% que partilhavam essa expectativa em 2025. A expectativa de redução de área plantada poderá justificar esta perspetiva de valorização – menos oferta, potencialmente mais pressão sobre os preços.
| EM NÚMEROS | |
| Investimento institucional ibérico em 2025 | 1.200 M€ (+50% face a 2024) |
| Total acumulado ibérico 2022-2025 | +5.300 M€ |
| Operadores profissionais na Península Ibérica | +40 operadores / +400.000 ha |
| Terra de regadio no Alqueva (valor médio) | 28.000-40.000 €/ha |
| Terra de regadio no Algarve (culturas subtropicais) | 50.000-90.000 €/ha |
| Novos blocos de irrigação em curso em Portugal | +6.000 ha (Messejana, Vidigueira, Moura) |
| Inquiridos que preveem aumento do investimento em 2026 | 68% (moderado + forte) |
| Principal desafio ao investimento | Escassez de água (22%) |
| Melhor cultura para investir hoje | Olival (1.º lugar, +10 p.p.) |
| Preço do azeite esperado em 3 anos (maioria) | 4 a 5 €/litro (54%) |
| Preço da amêndoa esperado em 3 anos (maioria) | Acima de 5 €/kg (54%) |
Fontes: CBRE, Iberian Agribusiness Report 2026 e Iberian Agribusiness Report Survey, maio de 2026. Dados de preço via MAPA e Lonjas Españolas (variedade Comuna, mercado de Reus, Espanha).
