O custo de não mudar: viabilidade financeira e conhecimento na transição para a viticultura regenerativa
Produtores, consultores e representantes associativos debatem os custos reais da transição para práticas regenerativas – e concluem que o maior risco é a inação.
Quanto custa mudar? A pergunta parece simples, mas a resposta obriga a desmontar um conjunto de pressupostos que o sector vitivinícola tem carregado durante anos. Num painel dedicado à viabilidade financeira da transição para métodos biológicos e regenerativos, durante o Regenerative Wine Fest, que decorreu, no passado dia 16 de maio, na Herdade das Servas, a consultora Georgette Félix foi direta na resposta: o custo mais elevado não é o da mudança, é o da inação. “Se mantemos um modelo que continua a ter como consequência a degradação do solo – que é um ativo crucial para a nossa produção -, alguma coisa vai correr mal“, disse. “E não agirmos agora em relação a esse ativo, isso sim é irresponsável“, acrescentou.
A ideia atravessou todo o debate: a viticultura convencional tem custos que não aparecem nos balancetes, mas que existem. Perda de produtividade por degradação do solo, menor resiliência a pragas e doenças, crescente dependência de fatores de produção externos – tudo com impacto económico real, mesmo que não quantificado de imediato. “O que vou perder daqui a cinco anos, quanto é que isso me custa hoje? Não fazemos essas contas“, sublinhou Georgette Félix. A sustentabilidade, insistiu, não pode ser apenas ambiental: tem de ser financeiramente viável ou não é sustentabilidade nenhuma.
Perdas de produção: um mito com contexto
Um dos medos mais citados por quem considera a transição é a perda de produção. João Raposeira, representante da Vinha Viva – Associação Portuguesa de Viticultura Regenerativa, criada em janeiro deste ano, reconhece que esse período existe, tipicamente entre três a cinco anos nas culturas permanentes. As estimativas iniciais apontavam para perdas entre 5% e 10%, mas Raposeira relativiza: “Na maior parte dos casos, acabam por não se concretizar. E quando existem, podem ser compensadas pela redução de custos com inputs e pela possibilidade de valorizar o produto de outra forma“.
Miguel Queimado, produtor na região dos Vinhos Verdes, vai mais longe e questiona a premissa. A sua exploração em Monção adotou mobilização mínima e gestão ativa da coberta vegetal há duas décadas. Resultado: matéria orgânica no solo a rondar os 6%, sem perdas de produção. “Acho que não podemos passar a mensagem de que adotar a agricultura regenerativa implica receio de perder produção“, disse. A ressalva é importante: o ponto de partida é determinante. Quem começou com solos degradados e práticas intensivas tem um caminho mais longo. Quem já pratica uma boa produção integrada está muito mais perto de conseguir fazer a transição.
Queimado desmontou ainda outro mito: o de que as práticas regenerativas são exclusivas de regiões mais secas e continentais. A região dos Vinhos Verdes, com os seus índices de humidade elevados, é frequentemente citada como um ambiente adverso a estas abordagens. A experiência da sua propriedade diz o contrário. “Os desafios são diferentes – eu tenho alguns problemas com fungos, mas não tenho problemas com pragas. Cada região tem os seus. Todos se resolvem com conhecimento“.
Apoios públicos: existem, mas são insuficientes
Sobre o quadro de apoios públicos disponíveis, o diagnóstico foi de suficiência parcial. Existem eco-regimes e medidas agroambientais que apoiam a conversão para o biológico, mas o suporte específico à transição regenerativa é ainda escasso. “Há trabalho a fazer, no sentido de consolidar algumas medidas e dar-lhes mais corpo e mais apoio financeiro“, disse Georgette Félix. A necessidade de criar um apoio específico à conversão regenerativa – análogo ao que já existe para o biológico – foi um dos pontos consensuais no painel.
Mas o financiamento não é só público. Félix destacou que o sector financeiro privado, sobretudo a nível internacional, está já mais avançado do que a política pública. Projetos de agricultura regenerativa acedem a capital em condições mais favoráveis porque a comunidade financeira reconhece o seu contributo para os objetivos ambientais da taxonomia da União Europeia. “Isto abre portas para muita coisa“, sublinhou Félix, defendendo a necessidade de combinar capitais públicos e privados – o chamado blended finance – para alavancar a transição e capacitar os produtores.
João Raposeira acrescentou uma nota de cautela sobre as motivações financeiras: quando a transição assenta sobretudo na possibilidade de monetizar carbono, o caminho é o errado. “O projeto tem de assentar numa lógica de redução de dependências, de resiliência e de preparação para as alterações climáticas. Os créditos de carbono podem ser um benefício adicional, mas não o mote central“.
Vinha Viva: clarificar o que regenerativo significa
A criação da Vinha Viva, em janeiro de 2025, partiu precisamente da constatação de que o mercado está cada vez mais ruidoso. Certificações multiplicam-se, empresas afirmam praticar agricultura sustentável, biológica ou regenerativa, e o consumidor não tem ferramentas para distinguir. Pedro Santos, diretor-geral da Consulai e membro fundador, definiu a missão da associação em três linhas: partilhar conhecimento, gerar discussão construtiva e criar formações específicas – não só para técnicos, mas também para o público.
A distinção entre biológico e regenerativo foi um dos momentos mais disputados do debate. O consenso chegou, mas com nuances: a viticultura regenerativa pressupõe o biológico – não faz sentido regenerar o solo com químicos de síntese -, mas o biológico não é necessariamente regenerativo. “Quem pratica viticultura regenerativa pratica claramente viticultura biológica. Quem pratica viticultura biológica não é líquido que esteja a fazer regenerativa“, sintetizou Queimado.
Da audiência surgiu uma intervenção que clarificou a dimensão legal do problema: a agricultura biológica é, neste momento, o único instrumento jurídico europeu que proíbe expressamente o uso de produtos de síntese – pesticidas, herbicidas, fungicidas e adubos minerais. A viticultura regenerativa não tem certificação equivalente, o que significa que qualquer produtor pode afirmar que a pratica sem qualquer verificação externa. “É a agricultura biológica a ferramenta legal que separa o trigo do joio“, resumiu um participante da audiência.
Dimensão, medo e PAC: três debates em aberto
A dimensão das propriedades foi outro tema em discussão. A perceção de que a transição só é viável em explorações de pequena escala foi contestada. Raposeira admitiu que, na prática, quem inicia a jornada são frequentemente explorações de maior dimensão, com capacidade de fazer projetos-piloto antes de alargar. Mas as pequenas, pelo acompanhamento mais próximo e pela menor complexidade operacional, também podem ter sucesso. O fator decisivo não é a dimensão, é o nível de dependência de fatores externos: quem mais depende de inputs caros e escassos tem mais razões para mudar.
Sobre o futuro da Política Agrícola Comum após 2028 – com implementação real prevista só a partir de 2030 -, Raposeira foi cautelosamente otimista. A nova arquitetura da PAC prevê um corte de 17% nas medidas ambientais em termos reais, mas também inclui medidas por resultados para a transição climática e ambiental que se alinham com os princípios da agricultura regenerativa. “Há essa esperança, numa arquitetura diferente, com indicadores simplificados e foco em resultados“, disse. Georgete Félix defendeu que o processo não pode ser apenas top-down e que associações como a Vinha Viva devem assumir um papel ativo de lobby – no bom sentido – junto das instituições.
A fechar, o debate convergiu num problema que atravessa todo o sector: a comunicação. O consumidor que frequenta a grande distribuição – ainda uma parcela considerável do mercado – desconhece os processos por trás da produção de vinho e não tem instrumentos para valorizar o diferencial de uma produção regenerativa. “O sector tem uma grande tarefa a fazer, que é comunicar“, disse um participante da audiência. Queimado concordou, mas com realismo: “O sector é tão confuso a comunicar… é só mais uma coisa para confundir“. A solução, defendeu outro participante, passa por uma imagem de marca conjunta do vinho português que incorpore estes valores – uma maratona, não um sprint.
O debate terminou sem soluções definitivas – o que, dados os temas em jogo, seria surpreendente. Mas ficou um mapa claro: a transição é financeiramente viável, exige conhecimento e apoio, e o seu maior inimigo não é o custo de mudar. É o hábito de não o fazer.

