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AMOC: a corrente que aquece a Europa está a enfraquecer há 20 anos, e os sinais de alerta acumulam-se

A 10 de maio de 2026, cientistas da Universidade de Miami publicaram na Science Advances as evidências observacionais mais diretas até agora de que a Circulação de Revolvimento do Atlântico – a AMOC – está em declínio consistente há quase duas décadas. O sistema de correntes que regula o clima da Europa, mantém os invernos temperados em Portugal e controla os padrões de precipitação do Atlântico Norte está a perder força ao longo de uma vasta área do oceano. Em paralelo, o serviço Copernicus registou em abril de 2026 as segundas temperaturas mais altas alguma vez medidas na superfície dos oceanos extrapolares. Os sinais convergem numa direção que os cientistas descrevem como uma das mais preocupantes da ciência do clima contemporânea.

A Circulação de Revolvimento do Atlântico Meridional, conhecida pela sigla inglesa AMOC, é um dos sistemas de correntes oceânicas mais importantes do planeta. Funciona como uma esteira transportadora gigante: leva água quente e superficial dos trópicos em direção ao Atlântico Norte, onde arrefece, torna-se mais densa, afunda para as profundezas do oceano e regressa para sul nas camadas mais frias e profundas. Este ciclo distribui calor e energia por todo o oceano Atlântico – e tem consequências diretas no clima de toda a bacia atlântica.

Para a Europa Ocidental, e para Portugal em particular, a AMOC é o mecanismo que explica por que razão o continente europeu é significativamente mais quente do que outras regiões à mesma latitude. Nova Iorque, por exemplo, está à mesma latitude que Lisboa – mas tem invernos substancialmente mais frios. A diferença deve-se, em grande parte, ao transporte de calor realizado pela AMOC. O sistema transporta uma quantidade de energia equivalente a cerca de um milhão de centrais nucleares de grande porte – uma escala que torna imediatamente compreensível porque é que qualquer enfraquecimento desta circulação pode ter consequências climáticas de enorme amplitude.

A AMOC é também um dos mecanismos que regula os padrões de precipitação no Atlântico Norte. Influencia a posição e a intensidade da corrente de jato – a corrente de ar de alta altitude que guia as tempestades e os sistemas de baixa pressão que chegam à Europa Ocidental. E desempenha um papel importante na regulação do nível do mar ao longo das costas atlânticas: uma AMOC mais fraca tende a acumular mais água junto às margens costeiras, amplificando a subida do nível do mar acima da média global.

O estudo de 10 de maio: as evidências mais diretas até agora

O estudo publicado a 10 de maio na Science Advances, liderado por Shane Elipot e colegas da Universidade de Miami Rosenstiel School of Marine, Atmospheric and Earth Science, representa um avanço significativo na qualidade das evidências disponíveis sobre o enfraquecimento da AMOC. A investigação analisou dados de longo prazo recolhidos por quatro redes de monitorização instaladas ao longo da margem ocidental do Atlântico Norte, entre os trópicos e as latitudes médias – uma faixa que se estende entre 16,5 graus norte e 42,5 graus norte.

Os instrumentos utilizados estão ancorados ao fundo do oceano e medem continuamente pressão, temperatura, densidade e correntes a profundidades superiores a mil metros. Os investigadores aplicaram a mesma metodologia em todos os locais de medição, usando variações na pressão do fundo para estimar o movimento das massas de água profunda ao longo do tempo. A consistência dos resultados ao longo de uma área tão vasta – quase 30 graus de latitude – é o que torna este estudo particularmente significativo: o declínio detetado não é uma variação local ou temporária, mas um padrão de escala oceânica que persiste ao longo de quase duas décadas.

Shane Elipot foi direto nas implicações: uma AMOC mais fraca pode alterar padrões meteorológicos, potencialmente conduzindo a tempestades mais extremas, alterações na precipitação e invernos mais frios em algumas regiões. Pode também influenciar a subida do nível do mar ao longo das costas, afetando comunidades e infraestruturas. Os resultados deverão ajudar os investigadores a melhorar os modelos climáticos e a compreender melhor como as alterações climáticas em curso podem afetar o futuro.

O estudo foi financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos e pelo Natural Environment Research Council do Reino Unido – dois dos principais financiadores de ciência oceânica do mundo – o que reflete a seriedade com que a comunidade científica internacional trata o monitoramento da AMOC.

O que pode mudar para Portugal e para a Europa Ocidental

As consequências de um enfraquecimento continuado da AMOC para a Europa Ocidental e para Portugal são, segundo a literatura científica, multidimensionais e interligadas. A primeira dimensão é a térmica: com menos calor a ser transportado pelos trópicos para o Atlântico Norte, as temperaturas médias na Europa Ocidental tendem a diminuir – um efeito que pode, em cenários de enfraquecimento significativo, contrariar parcialmente o aquecimento provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa. Isto não significa que a Europa ficará mais fria num cenário de alterações climáticas globais, mas que o aquecimento será menos pronunciado do que seria sem o enfraquecimento da AMOC.

A segunda dimensão é a pluviométrica. Uma AMOC mais fraca tende a deslocar para sul a Zona de Convergência Intertropical – a faixa de precipitação intensa que circunda o equador – e a alterar os padrões da corrente de jato. Para o Sul da Europa, os modelos climáticos sugerem verões mais quentes e mais secos e invernos com padrões de precipitação alterados. Para Portugal, que já enfrenta pressões crescentes de seca estrutural e de aridificação no interior e no sul do país, um enfraquecimento adicional da circulação oceânica acrescenta uma camada de incerteza aos cenários hídricos para as próximas décadas.

A terceira dimensão é o nível do mar. As costas atlânticas europeias – incluindo as costas portuguesas – são particularmente vulneráveis à subida dinâmica do nível do mar associada ao enfraquecimento da AMOC. Quando a circulação abranda, a água acumula-se junto às margens costeiras do Atlântico Norte, amplificando localmente a subida do nível do mar acima da média global. Nalguns cenários de enfraquecimento severo, modelos publicados em revistas como a Nature estimam subidas dinâmicas de 70 centímetros ou mais nas costas atlânticas – um valor que, somado à subida média global, representaria uma ameaça existencial para muitas zonas costeiras de baixa altitude.

A quarta dimensão, frequentemente esquecida, é a ecológica. A AMOC regula a distribuição de nutrientes e temperatura nos oceanos, o que tem impacto direto nos ecossistemas marinhos – desde as populações de peixe nas águas do Atlântico Norte até à produtividade dos ecossistemas costeiros que sustentam a pesca portuguesa. Uma alteração significativa na circulação oceânica não é apenas um problema climático: é também um problema de segurança alimentar e de sustentabilidade das comunidades costeiras.

O CONTEXTO COPERNICUS: ABRIL DE 2026 REGISTOU AS SEGUNDAS TEMPERATURAS OCEÂNICAS MAIS ALTAS DE SEMPRE

O boletim climático de abril de 2026 do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus (C3S), publicado em maio, registou as segundas temperaturas mais altas alguma vez medidas na superfície dos oceanos extrapolares – entre as latitudes 60°S e 60°N – para um mês de abril. O valor ficou apenas abaixo do record de abril de 2025, num contexto em que o C3S assinala que as condições El Niño estão a desenvolver-se e poderão intensificar-se nos próximos meses.

O dado do Copernicus é relevante em dois sentidos no contexto do estudo sobre a AMOC. Por um lado, as temperaturas oceânicas elevadas são um dos fatores que contribuem para o enfraquecimento da circulação: água mais quente é menos densa, afunda com menos facilidade e perturba o ciclo de afundamento que mantém a AMOC ativa. Por outro lado, as temperaturas superficiais mais altas nos oceanos tropicais e subtropicais podem introduzir mais energia no sistema climático atlântico, potencialmente intensificando os eventos meteorológicos extremos cujo risco é amplificado por uma AMOC mais fraca.

O relatório do Estado do Clima na Europa em 2025, publicado pelo C3S e pela Organização Meteorológica Mundial, documenta que a Europa é o continente que aquece mais rapidamente no globo. Em 2025, o continente registou vagas de calor records do Mediterrâneo ao Ártico, tanto em terra como nos oceanos. A confluência entre um continente que aquece mais depressa do que a média global e uma circulação oceânica que enfraquece progressivamente cria um contexto de complexidade climática crescente – em que os cenários lineares de aquecimento gradual podem dar lugar a dinâmicas menos previsíveis e potencialmente mais abruptas.

O que sabemos… e o que ainda não sabemos

O estudo publicado na Science Advances representa uma contribuição importante, mas não resolve todas as questões científicas em aberto sobre a AMOC. A comunidade científica continua dividida sobre a proximidade ou não de um ponto de inflexão – um limiar a partir do qual a AMOC poderia entrar numa espiral de enfraquecimento autossustentado, com consequências muito mais abruptas do que uma desaceleração gradual. O IPCC, no seu mais recente relatório de avaliação, classifica a possibilidade de um colapso da AMOC neste século como de baixa probabilidade, mas de alto impacto – uma formulação que os cientistas especialistas em sistemas de tipping point consideram conservadora face à evidência acumulada.

O que os dados mais recentes mostram com maior confiança é que o declínio já está em curso e que é detetável ao longo de uma vasta área do oceano. Os instrumentos de monitorização ao longo da margem ocidental do Atlântico – que Elipot descreve como um canário na mina de carvão para as alterações climáticas de longo prazo – estão a registar um sinal consistente que os modelos climáticos mais pessimistas já previam, mas que agora tem suporte observacional direto ao longo de quase duas décadas.

Para Portugal, país com uma das costas atlânticas mais extensas da Europa e uma economia costeira e marítima significativa, este não é um tema científico abstrato. O enfraquecimento da AMOC tem implicações diretas para a gestão dos recursos hídricos, para o planeamento territorial costeiro, para a segurança alimentar assente na pesca e aquacultura, e para os sistemas de alerta precoce de eventos meteorológicos extremos. A resposta a estas implicações exige tanto investimento em ciência oceânica – Portugal participa no programa de monitorização RAPID do Atlântico Norte – como integração dos cenários de enfraquecimento da AMOC nos planos nacionais de adaptação climática.

Fonte: Science Advances / Universidade de Miami / Copernicus Climate Change Service / Carbon Brief

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