Fast fashion e os seus custos escondidos: o que pagamos quando não pagamos nada
A indústria têxtil é uma das mais poluidoras do mundo. Perceber porquê é o primeiro passo para consumir de outra forma
Uma t-shirt a cinco euros. Umas calças a doze. Um casaco de inverno a vinte e cinco. Os preços da moda rápida parecem um milagre económico – e, de certa forma, são. Mas por trás de cada etiqueta com um preço incrivelmente baixo existe uma cadeia de custos que simplesmente foram deslocados para outro lugar: para os rios do Bangladesh, para os pulmões das costureiras do Camboja, para os aterros do Gana ou do Chile, para a atmosfera de todo o planeta.
A indústria da moda é responsável por entre 8 e 10% das emissões globais de gases com efeito de estufa – mais do que a aviação e o transporte marítimo combinados. Consome enormes quantidades de água: produzir uma única t-shirt de algodão requer cerca de 2.700 litros de água, o equivalente ao consumo médio de uma pessoa durante dois anos e meio. E gera quantidades colossais de resíduos: estima-se que mais de 90 mil milhões de peças de roupa sejam produzidas por ano no mundo, das quais uma parte significativa nunca chega a ser vendida, e outra é descartada após poucas utilizações.
O modelo do fast fashion – coleções novas a cada semana, tendências descartáveis, qualidade deliberadamente reduzida para forçar a renovação – foi inventado nos anos 1990 e acelerou exponencialmente com o comércio eletrónico. Marcas como a Shein, que lança milhares de novos produtos por dia, representam a versão mais extrema deste modelo: o ultra fast fashion, onde o produto é tão barato e tão descartável que a própria noção de guardar roupa se torna obsoleta.
As consequências ambientais são documentadas, mas as sociais são igualmente graves. A pressão para reduzir custos empurrou a produção têxtil para países onde a mão de obra é mais barata e as regulações ambientais e laborais mais laxas. O colapso do Rana Plaza, em Daca, em 2013 – onde morreram mais de 1.100 trabalhadores de uma fábrica têxtil – foi o evento que trouxe à atenção global as condições em que a roupa barata é produzida. Mas a pressão estrutural que gerou aquelas condições não desapareceu.
Na Europa, a resposta regulatória está em curso. A Estratégia Têxtil Sustentável da União Europeia, publicada em 2022, impõe requisitos de durabilidade, reparabilidade e reciclabilidade às peças de roupa vendidas no mercado europeu. O passaporte digital do produto, que deverá informar o consumidor sobre o impacto ambiental de cada peça, está em fase de implementação. Em Portugal, cresce o movimento de segunda mão – lojas vintage, plataformas digitais de revenda, feiras de troca – que encontrou na geração mais jovem um público inesperadamente fiel.
Para o consumidor individual, as escolhas são reais e têm impacto. Comprar menos e melhor, preferir marcas transparentes na sua cadeia de produção, optar por fibras naturais ou recicladas, reparar em vez de substituir, comprar em segunda mão – cada uma destas decisões, multiplicada por milhões de pessoas, altera os sinais que chegam à indústria.
A moda pode ser uma forma de expressão, de identidade, de criatividade. Mas não tem de ser sinónimo de desperdício. O guarda-roupa do futuro não será necessariamente menor, será mais escolhido, mais cuidado, mais duradouro. E, por isso, paradoxalmente, muito mais nosso.

