Mais vida não significa mais espécies: estudo português desafia a ecologia convencional
Dia Mundial do Ambiente 2026 | Investigação do MARE-NOVA publicada na Communications Earth & Environment
Num ecossistema abundante e bem regado, com plantas a crescer vigorosas e o espaço a ser preenchido até ao limite, esperaríamos encontrar mais biodiversidade. A intuição parece lógica: mais vida, mais diversidade. Um novo estudo português, publicado esta semana na revista Communications Earth & Environment do grupo Nature, demonstra que essa intuição está errada – e as implicações para a forma como medimos a saúde dos ecossistemas são profundas.
A investigação, liderada por Vasco Vieira, do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade NOVA de Lisboa, monitorizou 17.089 plantas de 46 espécies na Charneca de Caparica, ao longo de 2021 e 2022. O que os investigadores encontraram foi um paradoxo: à medida que a biomassa vegetal aumenta e o espaço disponível aproxima-se da saturação, a diversidade de espécies diminui. Não aumenta – diminui. O título do artigo científico sintetiza com precisão o fenómeno que está em causa: o paradoxo da biodiversidade, quando mais passa a ser menos.
O mecanismo subjacente chama-se self-thinning comunitário. O conceito era já conhecido para populações de uma única espécie – quando os indivíduos crescem e competem por espaço, os mais fracos são eliminados. O que este estudo demonstra, pela primeira vez, é que o mesmo processo ocorre ao nível de comunidades naturais com múltiplas espécies. Quando as condições ambientais são favoráveis e as plantas atingem o limite físico de compactação de biomassa – a chamada Interspecific Boundary Line -, a competição intensa expulsa as espécies menos competitivas. A diversidade colapsa precisamente quando a abundância é máxima.
O papel da água nesta dinâmica é central – e especialmente pertinente num contexto de alterações climáticas. Em 2021, ano de maior pluviosidade, as plantas cresceram mais, ocuparam o espaço com máxima eficiência e a diversidade de espécies caiu por exclusão competitiva. Em 2022, com menos chuva, o crescimento abrandou, a competição reduziu e a diversidade aumentou. “A um máximo de abundância de vida não corresponde um máximo de diversidade de vida“, afirma Vasco Vieira. “Abundância e diversidade não são sinónimos, e podem mesmo ser antagónicas em caso de extrema abundância“.
Esta conclusão tem uma implicação direta para a política ambiental: a diversidade de espécies não pode ser usada como bioindicador universal da qualidade de um ecossistema. Um prado com poucos anos de restauro e elevada diversidade pode, paradoxalmente, estar num estado menos consolidado do que uma comunidade mais madura e densa, onde a competição já reduziu o número de espécies, mas a biomassa e a estabilidade são superiores. A simplificação de “mais espécies igual a melhor ambiente” não corresponde à realidade ecológica.
O estudo coloca também em causa um pilar da teoria de Gestão Holística do biólogo Allan Savory, segundo o qual a acumulação de talos secos de plantas mortas – por falta de pastoreio – contribui para a desertificação ao bloquear o nascimento de novas plantas. Os investigadores do MARE testaram parcelas com uma camada espessa de biomassa morta – em média 354 gramas de matéria seca por metro quadrado – e os resultados foram o oposto do previsto por Savory: a cobertura de matéria orgânica morta não impediu o desenvolvimento de uma comunidade vegetal diversa. Pelo contrário, funcionou como proteção para as plantas mais vulneráveis à herbivoria e à dissecação.
Uma terceira contribuição prática do estudo diz respeito às espécies invasoras. Ao aplicar a mesma métrica de eficiência de ocupação do espaço separadamente à comunidade autóctone e à azedinha-dos-jardins (Oxalis pes-caprae) – uma das invasoras mais comuns nos ecossistemas mediterrânicos do sul da Europa -, os investigadores identificaram a sua principal vantagem competitiva: a capacidade de emergir no início do inverno e ocupar rapidamente o espaço disponível antes das espécies nativas. Esta antecipação temporal explica o seu sucesso e abre caminho a estratégias de controlo mais eficazes, baseadas na janela temporal de intervenção.
O estudo contou com uma colaboração multidisciplinar e internacional, envolvendo investigadores do MARE/ARNET (Universidade NOVA de Lisboa), do MARETEC (Instituto Superior Técnico), da Terraprima (Serviços Ambientais), da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), do Centro de Ciências do Mar de Faro (CCMar) e ainda estudantes do Colégio Valsassina em Lisboa – uma parceria que incluiu o ensino secundário na produção de ciência de fronteira publicada num dos grupos editoriais mais prestigiados do mundo.
No Dia Mundial do Ambiente 2026, sob o tema “Inspirados pela Natureza. Pelo Clima. Pelo Nosso Futuro“, a ciência portuguesa oferece exatamente este tipo de contribuição: não respostas simples, mas ferramentas melhores para pensar um planeta que é mais complexo do que as nossas intuições. Saber que abundância e diversidade podem ser antagónicas não é uma má notícia – é um instrumento de precisão para quem trabalha na restauração de ecossistemas, no controlo de invasoras e na adaptação às alterações climáticas. E esse trabalho é, agora mais do que nunca, urgente.

