Os sinais estão em todo o lado: Dia Mundial do Ambiente 2026
“Os sinais de aviso estão em todo o lado.” A frase é do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e abre a mensagem com que o Azerbaijão, país anfitrião, recebe o mundo em Baku neste 5 de junho de 2026 – o Dia Mundial do Ambiente. O tema deste ano, definido pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA), é “Inspirados pela Natureza. Pelo Clima. Pelo Nosso Futuro“, com o mote de ação #NowForClimate. E a escolha das palavras não é retórica – é um diagnóstico.
Os números que enquadram este Dia Mundial do Ambiente são os mais preocupantes de sempre. Os onze anos entre 2015 e 2025 foram os onze mais quentes alguma vez registados na história da humanidade, segundo o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas da União Europeia e a Berkeley Earth. Em 2024, a temperatura média global superou 1,55 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais – o primeiro ano a ultrapassar, por si só, o limiar de 1,5 graus Celsius estabelecido no Acordo de Paris. Em 2025, o terceiro ano mais quente de sempre, a temperatura ficou em 1,47 graus. E, pela primeira vez, a média dos três anos consecutivos de 2023 a 2025 excedeu o limiar de 1,5 graus – não por um ano, mas por um ciclo inteiro. A Organização Meteorológica Mundial projeta que existe 91% de probabilidade de que pelo menos um ano entre 2026 e 2030 quebre novamente o recorde. O Copernicus alerta que o limiar de 1,5 graus poderia ser atingido de forma permanente antes do final desta década – mais de uma década antes do que os modelos anteriores projetavam.
É neste contexto que o PNUMA convoca o mundo a “ler os sinais” e a “enviar um de volta“. A campanha #NowForClimate não é apenas um apelo à consciência – é um apelo à ação sistémica e imediata. As energias renováveis estão a escalar a um ritmo sem precedentes. Cidades estão a ser redesenhadas para a mobilidade sustentável. Florestas estão a ser replantadas. Acordos globais sobre biodiversidade, plásticos e mercados de carbono estão em negociação. O mundo está, em muitos domínios, a mover-se. O problema é que não se está a mover suficientemente depressa.
A escolha do Azerbaijão como país anfitrião não é neutra. O país – que acolheu também a COP29 em Novembro de 2024 e está a organizar este ano a Baku Climate Action Week e a reunião de chefes de delegação da UNFCCC em Shamakhi – representa um paradoxo que é, afinal, o paradoxo do nosso tempo: uma nação cuja riqueza histórica assenta nos combustíveis fósseis e que se compromete, ao mesmo tempo, a reduzir 40% das suas emissões até 2035 face a 1990 e a atingir 30% de eletricidade renovável até 2030. A transição energética não acontece apenas nos países que nunca tiveram petróleo. Acontece, também e sobretudo, naqueles que têm de abandonar o que durante décadas foi a sua fonte de prosperidade.
Para Portugal, o Dia Mundial do Ambiente 2026 acontece num momento de tensão produtiva. O país é o terceiro da União Europeia em percentagem de eletricidade renovável – 82,9% em 2025, segundo o Eurostat -, mas enfrenta o desafio de acompanhar um consumo recorde com investimento insuficiente em nova capacidade solar e em armazenamento. O apagão ibérico de 28 de Abril de 2025 recordou que a transição energética não é apenas uma questão de quanto se produz, mas de como se gere e se protege o sistema. E o território continental apresenta dois terços de área em risco elevado de desertificação – uma das vulnerabilidades climáticas mais urgentes do país, ainda sub-representada no debate público.
O Dia Mundial do Ambiente existe desde 1973. Meio século depois, a data já não é apenas uma celebração ou uma campanha de sensibilização. É um ponto de balanço anual sobre o estado do planeta – e sobre a distância entre o que foi prometido e o que foi feito. Em 2026, essa distância continua a ser demasiado grande. Os sinais estão, de facto, em todo o lado. A questão é se estamos dispostos a ouvi-los.

