55 anos de Dia da Terra: o planeta aqueceu, a urgência cresceu
22 de abril · Dia Mundial da Terra
O primeiro Dia da Terra, em 1970, reuniu 20 milhões de americanos nas ruas e catalisou a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA. 55 anos depois, mais de um bilhão de pessoas em 192 países participam na data, segundo a EarthDay.org. O planeta está mais quente, mais degradado e mais pressionado do que nunca. O tema de 2025 é energia renovável. O desafio é existencial.
No dia 22 de abril de 1970, o senador norte-americano Gaylord Nelson teve uma ideia que parecia simples: organizar um Dia Nacional de Demonstração sobre o ambiente. O que aconteceu superou qualquer expectativa. Vinte milhões de americanos saíram à rua – estudantes, trabalhadores, cientistas, políticos. Uma das maiores mobilizações cívicas da história dos Estados Unidos, numa época em que os rios ardiam de poluição industrial e o smog sufocava as grandes cidades. A organização prática ficou a cargo de Denis Hayes, que transformou uma ideia de um senador num movimento global.
Cinquenta e cinco anos depois, o Dia da Terra é a maior celebração ambiental do mundo – considerada a maior celebração secular do planeta, segundo a EarthDay.org -, com mais de um bilhão de participantes em 192 países. A organização promotora escolheu para 2025 o tema “O Nosso Poder, O Nosso Planeta” – uma convocação para a aceleração da transição energética e para a triplicação da produção global de eletricidade renovável até 2030. Um objetivo ambicioso, urgente e, segundo as análises mais recentes da ONU, ainda longe de ser garantido.
O impacto do primeiro Dia da Terra foi rápido e concreto: resultou na criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA e no reforço de legislação fundamental como a Lei do Ar Limpo. Em 1990, a data tornou-se global, mobilizando 200 milhões de pessoas em 141 países, segundo dados do arquivo da EarthDay.org, e ajudando a preparar o terreno para a Cúpula da Terra de 1992 no Rio de Janeiro. Em 2016, o 22 de abril foi escolhido para a assinatura oficial do Acordo de Paris – o tratado que estabeleceu a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius acima dos valores pré-industriais.
O estado atual do planeta: a crise que não para de se agravar
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse-o sem metáforas na mensagem de 2025: “A Mãe Terra está com febre.” A imagem é mais literal do que poética. 2024 foi confirmado o ano mais quente em 175 anos de registos instrumentais, segundo a Exame com base em dados das agências climáticas internacionais. A temperatura média global ultrapassou a marca de 1,5 graus Celsius acima dos valores pré-industriais durante períodos crescentemente longos.
O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) é inequívoco no seu relatório de síntese mais recente, analisado pelo WRI Brasil: para manter o aquecimento dentro de 1,5 graus Celsius, as emissões globais de gases com efeito de estufa teriam de ter atingido o pico antes de 2025 e terão de cair 43% até 2030 face aos níveis de 2019, atingindo o zero líquido por volta de 2050. “Uma janela de oportunidade estreita ainda está aberta, mas não temos mais nem um segundo a perder”, escreveu o WRI. O caminho não está a ser percorrido à velocidade necessária: as emissões globais continuaram a crescer ao longo da última década, e as contribuições nacionalmente determinadas apresentadas pelos países no âmbito do Acordo de Paris continuam, na sua maioria, insuficientes.
Os sintomas são visíveis, frequentes e cada vez mais severos. Ondas de calor de intensidade sem precedentes históricos. Incêndios florestais de escala histórica. Inundações que destroem infraestruturas e ceifam vidas. Secas prolongadas que ameaçam a segurança alimentar e hídrica. Derretimento acelerado das calotas polares e das geleiras de montanha, com consequências para o nível do mar e para o abastecimento de água doce a centenas de milhões de pessoas. A biodiversidade a desaparecer a uma taxa que os cientistas comparam às cinco grandes extinções em massa da história da vida na Terra. A ONU estima que, até 2050, o número de refugiados climáticos poderá ultrapassar os 1,2 mil milhões de pessoas.
Para além das alterações climáticas, a crise ambiental tem outras dimensões que se alimentam mutuamente. A poluição por plásticos contamina os oceanos, os rios, o solo e a cadeia alimentar – incluindo o corpo humano, onde microplásticos têm sido detetados em concentrações crescentes em praticamente todos os órgãos analisados. A perda de biodiversidade ameaça os serviços ecossistémicos que sustentam a produção alimentar, a qualidade da água e a regulação do clima. A degradação dos solos compromete a base física da agricultura global – um tema que o artigo sobre o 15 de abril deste mesmo mês explorou em detalhe. São crises paralelas e profundamente interligadas, que se reforçam numa espiral de destabilização dos sistemas de suporte de vida do planeta.
“O Nosso Poder, O Nosso Planeta”: a aposta nas renováveis
O tema de 2025 não é arbitrário. A transição energética é identificada pelo IPCC e pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) como uma das alavancas mais poderosas disponíveis para reduzir as emissões. Sem uma expansão massiva e rápida da energia solar, eólica e de outras fontes limpas, os objetivos climáticos do Acordo de Paris tornam-se inalcançáveis, segundo ambas as organizações.
A meta concreta proposta pela EarthDay.org para 2025 é triplicar a produção global de eletricidade renovável até 2030 – um objetivo que, na COP28 em Dubai em 2023, foi formalmente adotado por quase 200 países. A Agência Internacional de Energia (IEA) analisou a viabilidade desta meta e concluiu, no relatório “From Taking Stock to Taking Action” de 2024, que está ao alcance – mas exigirá um esforço concentrado. Será necessário construir e modernizar 25 milhões de quilómetros de redes elétricas até 2030 e instalar 1.500 gigawatts de capacidade de armazenamento de energia. Os investimentos necessários, segundo estimativas da Bloomberg NEF citadas pela IEA, rondam um bilhão de dólares por ano para a triplicação da capacidade renovável, mais 193 mil milhões anuais para armazenamento em baterias e 607 mil milhões para redes elétricas.
A boa notícia é que o custo das energias renováveis caiu dramaticamente. Desde 2010, os custos da energia solar e eólica reduziram-se em até 85%, segundo o IPCC. A solar fotovoltaica e a eólica foram as tecnologias de geração elétrica que mais cresceram em 2024. Mas o crescimento registado, embora recorde, continua aquém dos 11,2 terawatts necessários para alinhar com a meta global de triplicação até 2030, segundo alerta da ONU. A EarthDay.org sublinha ainda que mais de 3,8 mil milhões de pessoas vivem abaixo do “Mínimo Moderno de Energia”, com consumo per capita inferior a 1.000 quilowatts-hora por ano – e que a transição renovável tem de incluir soluções de acesso universal à energia limpa, garantindo que a descarbonização não reproduz desigualdades geopolíticas.
Portugal: entre a ambição declarada e a concretização necessária
Em Portugal, o Dia da Terra de 2025 encontra um país com uma posição energética acima da média europeia. Em 2023, as fontes de energia renovável representaram 63% da produção de eletricidade nacional, tornando Portugal o 4.º país da União Europeia com maior quota de eletricidade de origem renovável, segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) publicados na edição 2025 do relatório “Energia em Números”. A dependência energética nacional diminuiu para 66,7% – o segundo valor mais baixo dos últimos 20 anos, aproximando-se da meta de 65% definida para 2030 no Plano Nacional de Energia e Clima.
O Plano Nacional de Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), revisto e aprovado pela Assembleia da República em dezembro de 2024 sem votos contra – com votos favoráveis do PSD, PS e Livre -, traça metas mais ambiciosas. O PNEC 2030 prevê uma quota de 51% de energias renováveis no consumo final bruto de energia até 2030, acima da meta europeia mínima de 42,5% fixada pela Diretiva das Renováveis RED III, segundo o Governo. Para a eletricidade, Portugal antecipou para 2026 a meta de 80% de geração renovável, e quer atingir 85% em 2030. A neutralidade climática foi fixada em 2045 – cinco anos antes da meta europeia de 2050.
Para concretizar estas metas, o PNEC prevê crescimento expressivo das capacidades instaladas: a solar fotovoltaica deverá crescer de 8,4 para 20,8 gigawatts; a eólica terrestre, de 6,3 para 10,4 gigawatts; e a eólica offshore deverá atingir os 2 gigawatts até 2030, com um primeiro leilão já realizado. O investimento total associado à transição energética no PNEC 2030 está estimado em 75 mil milhões de euros para a próxima década, segundo o Governo. O licenciamento de projetos renováveis continua, porém, a ser um dos principais estrangulamentos do sector. A Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 (EMER), criada em março de 2024, foi desenhada para desburocratizar estes processos – mas o tempo de implementação de grandes projetos de energia é longo, e 2030 aproxima-se.
Portugal tem ainda um desafio específico que o PNEC reconhece: a necessidade de reforço das redes de transporte e distribuição de energia elétrica para acomodar a produção descentralizada crescente, nomeadamente o autoconsumo solar de famílias e empresas. Segundo dados da DGEG, a potência instalada de solar fotovoltaico cresceu 44,7% em 2023 face ao ano anterior, atingindo os 5,6 gigawatts – um ritmo de crescimento que pressiona as redes existentes. A criação de comunidades de energia renovável, incentivada pelo PNEC e pelo quadro europeu, representa uma oportunidade para democratizar a transição energética – mas também exige regulação ágil e investimento em infraestrutura que ainda está em curso, segundo a PwC Portugal na análise à transposição da RED III.
O Dia da Terra entre o símbolo e a crítica
Uma das acusações mais frequentes ao Dia da Terra é que se transformou num exercício de “greenwashing” coletivo – um dia em que governos e empresas publicam mensagens de amor ao planeta enquanto continuam, nos restantes 364 dias do ano, a destruí-lo. A jovem ativista Greta Thunberg disse numa ocasião que a data “se transformou numa oportunidade para pessoas no poder postarem o seu amor pelo planeta enquanto ao mesmo tempo o destroem em velocidade máxima” – uma crítica citada pela Exame que tem substância e merece ser tomada a sério.
A crítica é legítima. Mas a história do ambientalismo moderno sugere que a mobilização de massa tem consequências reais e mensuráveis. O primeiro Dia da Terra produziu legislação ambiental concreta. A pressão do movimento verde europeu nas últimas décadas produziu o Pacto Ecológico Europeu. A COP30, realizada em Belém do Pará em novembro de 2025, foi a primeira realizada na Amazónia – o maior ecossistema tropical do mundo – e contou com a maior delegação indígena alguma vez presente numa conferência climática da ONU, segundo o Brasil de Fato. O recado era deliberado: não é possível falar de clima sem falar de florestas, sem falar de biodiversidade, sem falar dos povos que as habitam e protegem. Foi também o ano em que todos os países tinham de apresentar novos planos nacionais de ação climática, mais ambiciosos e mais alinhados com a meta dos 1,5 graus Celsius.
Há também uma dimensão de escala que a crítica ao Dia da Terra muitas vezes subestima. As mudanças sistémicas – na energia, na alimentação, nos transportes, na indústria – dependem de condições políticas e regulatórias que só existem quando a opinião pública as exige. A mobilização de um bilhão de pessoas, ainda que imperfeitamente, cria pressão. E a pressão, ao longo do tempo, produz resultados: legislação, investimentos públicos, standards industriais, acordos internacionais. A alternativa – esperar que os governos ajam sem pressão popular – tem 55 anos de evidência contra si.
A dimensão da terra: muito mais do que energia
O Dia da Terra começou, em 1970, como resposta a crises ambientais muito concretas: rios que ardiam de poluição industrial, smog que sufocava as cidades, ecossistemas destruídos pela exploração sem controlo. Cinquenta e cinco anos depois, a data mantém-se fiel a essa origem – mas o âmbito expandiu-se para abraçar a totalidade da crise ambiental contemporânea.
A EarthDay.org e as organizações que trabalham em torno desta data não limitam o seu apelo à energia renovável. A proteção das florestas, a restauração dos solos degradados, a eliminação da poluição plástica, a conservação da biodiversidade marinha e terrestre, a justiça climática para as comunidades mais vulneráveis: tudo isto faz parte do mandato do Dia da Terra. A campanha de reflorestação da organização – o Canopy Project – plantou dezenas de milhões de árvores em todo o mundo desde 2009, segundo o seu relatório anual, trabalhando em comunidades de todas as regiões.
A crise ambiental é, no fundo, uma crise de relação: a relação entre a espécie humana e os sistemas naturais que a sustentam. Durante séculos, a civilização industrial operou com base na premissa de que os recursos naturais eram inesgotáveis e que os resíduos podiam ser depositados na atmosfera, nos oceanos e nos solos sem consequências. Essa premissa revelou-se falsa. O planeta não está em perigo – o planeta sobreviverá, como sobreviveu a cinco extinções em massa anteriores. O que está em perigo é a civilização humana tal como a conhecemos, e a maior parte das espécies com as quais partilhamos este mundo.
O planeta que herdámos e o que deixaremos
Em 55 anos de Dia da Terra, algo mudou profundamente: a consciência. A esmagadora maioria das pessoas no mundo reconhece hoje que há uma crise ambiental, que as alterações climáticas são reais e causadas pela ação humana, e que é necessário agir urgentemente. Em 1970, essa consciência era minoritária e frequentemente ridicularizada. Essa transformação não é pequena.
O que não mudou suficientemente foi a ação. A distância entre o que o IPCC diz que é necessário e o que os governos e as economias estão a fazer continua a ser enorme. “O Nosso Poder, O Nosso Planeta” – o lema de 2025 – não é apenas um apelo à energia renovável. É um lembrete de que o poder de transformar o rumo das coisas existe: nos governos que podem mudar políticas, nas empresas que podem mudar práticas, e nos cidadãos que podem mudar hábitos e exigir mudanças dos outros.
O planeta não vai esperar. O IPCC avisa que o pico das emissões devia ter ocorrido antes de 2025. Mas o que for feito a partir de hoje determina a diferença entre um futuro difícil e um futuro insuportável. Desde que a gente comece hoje, ainda há tempo. Este 22 de abril é mais um ponto de virada em que podemos escolher o que somos.
Cinquenta e cinco anos de Dia da Terra ensinaram uma coisa: a mudança não acontece por si só. Acontece quando suficientes pessoas, em suficientes lugares, decidem que o mundo pode ser diferente – e agem em conformidade. Os governos que ratificam acordos climáticos, as empresas que mudam cadeias de valor, os agricultores que adotam práticas regenerativas, os cidadãos que pressionam e escolhem e recusam: são todos parte do mesmo movimento. O planeta que deixaremos às gerações seguintes será o resultado da soma dessas escolhas, feitas agora.
Fontes utilizadas:
- EarthDay.org — Earth Day 2025: Our Power, Our Planet: https://www.earthday.org/earth-day-2025-our-power-our-planet/
- Agência Internacional de Energia (IEA) — From Taking Stock to Taking Action (2024): https://www.iea.org/reports/from-taking-stock-to-taking-action
- IPCC — Relatório de Síntese AR6 (2023): https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/
- WRI Brasil — 10 conclusões do Relatório do IPCC sobre Mudanças Climáticas de 2023: https://www.wribrasil.org.br/noticias/10-conclusoes-do-relatorio-do-ipcc-sobre-mudancas-climaticas-de-2023
- DGEG — Energia em Números, edição 2025: https://www.dgeg.gov.pt/pt/destaques/energia-em-numeros-edicao-2025/
- Governo de Portugal — PNEC 2030 aprovado sem votos contra (dezembro 2024): https://www.portugal.gov.pt/pt/gc24/comunicacao/comunicado?i=plano-de-energia-e-clima-2030-com-metas-mais-ambiciosas-aprovado-sem-votos-contra-no-parlamento
- PwC Portugal — RED III em Portugal: novas metas renováveis até 2030: https://www.pwc.pt/pt/temas-actuais/transposicao-da-diretiva-red-iii-em-portugal.html
- Exame — O que é o Dia da Terra e por que este ano é crucial para a ação climática: https://exame.com/esg/o-que-e-o-dia-da-terra-e-por-que-este-ano-e-crucial-para-a-acao-climatica/
- National Geographic Brasil — Dia da Terra: 3 fatos que mostram o progresso da energia renovável: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2025/04/dia-da-terra-3-fatos-que-mostram-o-progresso-da-energia-renovavel-no-mundo
- DGAV — 22 de abril: Dia Mundial da Terra: https://www.dgav.pt/destaques/noticias/22-de-abril-dia-mundial-da-terra/
- Brasil de Fato — COP30, defensores ameaçados (citado para contexto da COP30 em Belém) ClimaInfo — Meta de triplicar fontes renováveis no mundo até 2030 é factível, afirma IEA: https://climainfo.org.br/2024/09/24/meta-de-triplicar-fontes-renovaveis-no-mundo-ate-2030-e-factivel-afirma-iea/

