Imagem gerada por IA

A areia que não se vê: microplásticos invadem a Praia da Barra

A Praia da Barra, em Aveiro, é uma das mais frequentadas do litoral centro de Portugal. Areias extensas, ondas atlânticas, infraestruturas balneares consolidadas. O que os olhos não veem – e um novo estudo da Universidade de Aveiro tornou visível – é o que existe misturado nessa areia: microplásticos, em quantidades que os investigadores classificam como significativas e que apontam para uma contaminação sistemática ainda muito pouco monitorizada nas praias portuguesas.

O estudo, publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin e assinado por uma equipa do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Química da Universidade de Aveiro, recolheu 33 amostras de sedimentos na Praia da Barra e encontrou uma concentração mediana de 100 partículas de microplásticos por quilograma de sedimento. Os valores variaram entre 15 e 320 partículas por quilograma, consoante a zona de amostragem – sendo as concentrações mais elevadas registadas junto à linha de água, onde as ondas depositam preferencialmente este tipo de resíduos.

Quase todas as partículas identificadas – 99,5% do total – tinham menos de um milímetro. São, na prática, invisíveis a olho nu. Transparentes ou pretas na sua maioria, misturam-se com os grãos de areia sem deixar qualquer sinal visível de contaminação. O banhista que estende a toalha na Barra não vê nada de anormal. A areia parece limpa. Não está.

Os polímeros identificados são os do quotidiano doméstico e industrial: polietileno (30%), presente em sacos e embalagens; polipropileno (27%), comum em recipientes e tampas; poliestireno (18%), o material da esferovite; nylon (12%), associado a redes de pesca e têxteis; e poliéster (6%), omnipresente nas roupas sintéticas. É o inventário do plástico que usamos todos os dias, fragmentado e redistribuído pelo oceano até chegar à areia onde as crianças brincam.

As duas principais fontes de contaminação identificadas pelos investigadores são o turismo balnear e o tráfego marítimo – o porto de Aveiro e a barra que lhe dá acesso estão precisamente na vizinhança imediata da praia estudada. Esta combinação de pressões torna a Praia da Barra um caso de estudo particularmente representativo do litoral atlântico português, onde a atividade portuária e o turismo de massas coexistem em zonas costeiras de elevado valor ecológico.

O risco não é apenas ambiental – é alimentar. Os organismos marinhos ingerem microplásticos por não os conseguirem distinguir do plâncton e de outros alimentos naturais. Essas partículas acumulam-se nos tecidos e sobem na cadeia trófica. Peixes, bivalves e crustáceos capturados nas costas portuguesas – e consumidos nas mesas portuguesas – podem ser vetores de exposição humana a microplásticos e aos contaminantes químicos que estas partículas adsorvem. A investigação neste domínio está ainda em curso, mas os sinais de alerta acumulam-se.

A equipa da Universidade de Aveiro, que contou com a colaboração da Universidade de Sfax, na Tunísia, sublinha a necessidade urgente de monitorização sistemática das praias portuguesas. Portugal tem 943 quilómetros de costa continental, mais de 500 praias classificadas e uma Zona Económica Exclusiva de 1,7 milhões de quilómetros quadrados – a terceira maior da União Europeia. A dimensão do mar português é um ativo estratégico e um motivo de orgulho nacional. É também uma responsabilidade que obriga a conhecer o estado real dos seus sedimentos, das suas águas e dos seus ecossistemas.

No dia em que o mundo assinala o Dia Mundial dos Oceanos, 8 de junho – a mensagem deste estudo é direta: a poluição por microplásticos não é um problema longínquo dos grandes oceanos. Está na areia de Aveiro. Está, muito provavelmente, na areia de todas as praias atlânticas do país. E não desaparece com a maré.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.