#10 Pegada Positiva – Vinho português aposta na certificação de sustentabilidade para conquistar mercados exigentes
Lançado em 2022, o referencial nacional de sustentabilidade do vinho já pesa nas exportações e quer tornar Portugal uma referência mundial
O vinho português nunca teve tanta visibilidade no estrangeiro. As exportações crescem, o preço médio sobe e o reconhecimento internacional acumula-se ano após ano. É um sucesso que resultou de décadas de trabalho sobre qualidade, sobre a identidade das regiões e sobre as castas que só existem em Portugal. Mas por trás deste sucesso comercial há outra história a ganhar força: a da sustentabilidade, que deixou de ser uma palavra para colar no contrarrótulo e passou a ser um referencial técnico exigente e certificado, com peso real na forma como se faz vinho no país.
O contexto que explica esta mudança é europeu. Bruxelas tem apertado as regras sobre o uso de fitofármacos, sobre a pegada de carbono e sobre a forma como a agricultura interage com o território. Os mercados internacionais começam a fazer perguntas que há cinco anos ninguém fazia e os consumidores, pelo menos uma parte deles, estão a mudar aquilo que valorizam quando escolhem uma garrafa.
Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal desde 2020 e reeleito em março deste ano para um terceiro mandato, acompanha esta transição na primeira linha. Agrónomo de formação e enólogo de carreira, trabalhou em produtores como o Esporão, a Companhia das Lezírias e os Pegos Claros, foi o mais jovem presidente de sempre do Instituto da Vinha e do Vinho, entre 2012 e 2018, e passou ainda pela liderança executiva da Bacalhôa antes de assumir a presidência da ViniPortugal. Em entrevista ao podcast “Pegada Positiva”, traçou o retrato de um sector que, apesar de ter chegado tarde à sustentabilidade certificada, quer agora liderar a corrida.
Um referencial que tardou, mas chegou em 2022
Portugal lidera o estudo genético e a preservação de castas autóctones, mas, na sustentabilidade, partiu atrasado. “Todos os países produtores já tinham construído referenciais de sustentabilidade. Apesar de muita parte do nosso sector já cumprir regras de sustentabilidade, não tínhamos nenhum referencial nacional. Existia apenas um, regional, no Alentejo“, reconhece Frederico Falcão.
A ideia de um referencial único nasceu em 2020, quando Frederico Falcão tomou posse na presidência da ViniPortugal, e foi aprovada nesse mesmo ano em assembleia geral da associação. O Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), sob tutela do Ministério da Agricultura, quis também construir um referencial próprio e as duas entidades chegaram a um entendimento: o documento final foi coordenado pelo IVV, mas contou com forte participação da ViniPortugal, que cedeu cinco pessoas ao grupo de trabalho. O referencial nasceu em 2022 e a ViniPortugal ficou como entidade gestora, responsável pela sua promoção e, agora, também pela sua revisão.
A lógica de ter um único referencial nacional, em vez de catorze referenciais regionais diferentes, tinha sobretudo uma motivação de comunicação. “Se cada região seguisse o seu próprio caminho, com regras e velocidades diferentes, cada uma com o seu símbolo, isso seria um caos em termos de comunicação externa. Por isso, precisávamos verdadeiramente de criar um referencial único“, explica o presidente da ViniPortugal.
Quase noventa indicadores e uma exigência crescente
O referencial conta atualmente com cerca de 90 indicadores, distribuídos pelas três dimensões clássicas da sustentabilidade: ambiental, social e económica. A vertente ambiental tem o maior peso, seguida da social, ficando a económica com menos indicadores associados. Está em curso uma revisão que deverá acrescentar mais 13 indicadores ao documento.
Entre estes parâmetros existem os chamados critérios “Q.O.“, obrigatórios e transversais às três dimensões, que têm de ser cumpridos para que um produtor possa ser certificado, independentemente da pontuação que obtenha nos restantes indicadores facultativos.
Para Frederico Falcão, o valor do referencial não está tanto na novidade das exigências, já que muitas práticas já eram seguidas pelos produtores, mas na validação externa que a certificação introduz. “A maior parte dos produtores já cumpria muitos destes parâmetros no seu dia a dia. O que o referencial traz é uma evidência externa, atribuída por entidades independentes e acreditadas, de que estamos, de facto, a cumprir essas regras“, afirma. “É fácil dizer que se é sustentável. Sem alguém que valide isso, não há prova“, acrescenta.
Os mercados que já fecham portas a quem não certifica
O impacto mais visível está nas exportações. Em mercados como o Canadá, o Japão, os Países Baixos, a Suécia, a Finlândia ou a Noruega, a sustentabilidade já é praticamente uma condição de entrada. “Em muitos destes países, se os produtores não tiverem certificação de sustentabilidade, começam a ver as portas a fechar-se“, alerta o presidente da ViniPortugal.
Dentro do próprio Canadá, a exigência varia consideravelmente: os compradores do Quebec pressionam fortemente os fornecedores nesta matéria, enquanto no Ontário, através da central de compras LCBO, essa pressão é bastante menor. Frederico Falcão nota ainda que a procura por certificação nem sempre nasce diretamente do consumidor final. Em muitos casos são as próprias cadeias de distribuição que procuram produtos certificados para reforçar a sua imagem de sustentabilidade junto dos clientes, criando uma pressão que acaba por chegar aos produtores por duas vias diferentes.
Já nas grandes feiras internacionais do sector, como as de Paris e Düsseldorf, onde a ViniPortugal esteve recentemente presente, a sustentabilidade ainda não é o principal critério de decisão dos compradores. “Na maior parte dos compradores, ainda não é o fator decisivo. Pesa mais a vertente económica. Mas, se tiverem de escolher entre dois produtores semelhantes, e um estiver certificado e o outro não, escolherão provavelmente o que está certificado“, explica.
Na sua atividade de promoção internacional, a ViniPortugal só divulga vinhos com indicação de proveniência assegurada, ou seja, DOC ou vinho regional. Sempre que esses produtores têm também a certificação de sustentabilidade, a associação evidencia esse facto em masterclasses dirigidas a compradores e jornalistas e em provas específicas dedicadas a produtores certificados. Não é, sublinha Frederico Falcão, a mensagem principal da promoção do vinho português, mas é já uma mensagem complementar com peso crescente.
Entre a ambição europeia e o risco de fragilizar o sector
Questionado sobre estratégias europeias como o Farm to Fork e o Pacto Ecológico Europeu, Frederico Falcão não esconde reservas. Considera que, embora meritórias, tiveram, numa primeira fase, objetivos demasiado exigentes para a realidade atual da agricultura europeia, com risco de levar empresas à falência se a transição não for bem calibrada.
O presidente da ViniPortugal defende equilíbrio entre as três dimensões da sustentabilidade, recusando soluções simplistas. “Não queremos voltar àquela luta química cega do passado, mas também não podemos ser ingénuos. Se um produtor não usar nenhum químico na vinha, vai ter de fazer muito mais passagens mecânicas no terreno, o que significa mais consumo de combustível e mais compactação do solo. Tem de haver aqui equilíbrio“, argumenta.
Frederico Falcão aponta ainda uma contradição que considera incómoda para o sector agrícola europeu: as exigências impostas aos produtores comunitários colocam-nos, muitas vezes, em desvantagem face a produtores de outras regiões do mundo sujeitos a restrições muito menores. “Há aqui alguma hipocrisia quando exigimos tudo e mais alguma coisa aos nossos produtores e depois importamos de geografias onde nada disto é exigido“, admite. Para o presidente da ViniPortugal, o caminho da transição europeia está traçado e não está em causa, mas o ritmo precisa de ser gerido com cuidado, sob pena de comprometer todo o sector agrícola comunitário.
Da vinha à garrafa: inovação em toda a cadeia
A sustentabilidade no vinho não se esgota na vinha. Estende-se à adega e à distribuição, com iniciativas como garrafas mais leves, embalagens com menos tinta e papel de rótulo proveniente de florestas certificadas, com menor gramagem. Segundo Frederico Falcão, esta pressão estende-se também aos fornecedores da cadeia de valor, dos produtores de vidro e cartão aos fabricantes de cápsulas.
Sobre novos formatos, o presidente da ViniPortugal mostra-se reservado quanto ao vinho em lata, uma tendência que teve algum impulso, sobretudo ligado ao mercado norte-americano, mas que, no caso de produtores portugueses, não teve o sucesso esperado nem em Portugal nem na exportação. Também os vinhos sem álcool são vistos com distância: o processo de remoção do álcool exige um consumo energético elevado, o que os torna, paradoxalmente, pouco sustentáveis, além de continuarem a representar uma quota de mercado residual. A tendência que Frederico Falcão antecipa como mais relevante nos próximos anos é antes a dos vinhos com teor alcoólico reduzido, entre sete e nove graus, impulsionada mais pela procura dos consumidores do que por motivações ambientais.
Castas autóctones como vantagem para o futuro
Quando o tema é a adaptação às alterações climáticas, Frederico Falcão considera que Portugal tem condições raras. A enorme diversidade climática entre regiões como os Vinhos Verdes, o Douro, Trás-os-Montes, o Dão, a Beira Interior, o Alentejo ou o Algarve funciona como uma rede de segurança natural para a produção nacional. A isto soma-se a riqueza genética das castas autóctones, muitas delas pouco plantadas, mas preservadas e em estudo, com menores necessidades de água e maior resistência ao calor e a doenças.
Frederico Falcão recorda uma inversão de tendência reveladora. Durante anos, os produtores portugueses plantaram castas internacionais, como o Cabernet Sauvignon, a Syrah ou o Chardonnay, para facilitar a venda em mercados que não conheciam as variedades nacionais. Hoje o caminho inverte-se: castas como a Touriga Nacional ou o Alvarinho ganham reconhecimento internacional, a ponto de a região de Bordéus, confrontada com um clima mais quente e mais seco, as estar já a plantar como estratégia de adaptação. “Se calhar, no futuro, vamos ter outros países a plantar as nossas castas“, resume, com ironia, o presidente da ViniPortugal.
De custo a investimento: o conselho a quem começa agora
Para os produtores que estão a dar os primeiros passos no processo de certificação, Frederico Falcão deixa um conselho central: olhar para a sustentabilidade como investimento e não como custo. O primeiro passo, explica, é uma autoavaliação introspetiva, feita com uma ferramenta da ViniPortugal, em formato de folha de cálculo, onde cada produtor se pontua de zero a três em cada indicador do referencial, zero correspondendo ao incumprimento e os restantes níveis a diferentes graus de cumprimento.
“Dá algum trabalho ao início. É preciso conhecer o referencial, perceber onde se está e onde é preciso melhorar, e por vezes fazer formação de adaptação. Mas isso traz uma mudança de mentalidade que se reflete depois em mais eficiência, menos desperdício e abertura de novos mercados“, remata Frederico Falcão.
Uma ambição de liderança mundial
A conversa termina com um retrato mais nítido do que significa hoje fazer vinho de forma responsável em Portugal: já não é apenas uma questão de consciência, mas de competitividade para o futuro do sector. A sustentabilidade do vinho português não começa na garrafa, começa na vinha, na certificação e no referencial técnico que a ViniPortugal está agora a rever. E, com a riqueza das suas castas autóctones e a diversidade das suas regiões, Portugal acredita ter, finalmente, condições reais para liderar este caminho a nível mundial. “Temos a vontade e a ambição de nos tornarmos uma referência mundial em sustentabilidade“, resume Frederico Falcão.

