Plástico nos oceanos: o risco não está só onde pensávamos
Novo estudo revela que as ameaças da poluição plástica aos ecossistemas marinhos variam consoante a região oceânica – e que o Atlântico Norte emerge como ponto crítico a nível global, com implicações diretas para as políticas internacionais em debate.
Toda a gente já ouviu falar das “ilhas de plástico” – aquelas enormes concentrações de resíduos que flutuam em zonas remotas do oceano. Mas um novo estudo científico vem questionar a lógica que tem orientado grande parte dos esforços de limpeza marítima: mais plástico não é necessariamente igual a mais risco para os ecossistemas. O que verdadeiramente importa é a combinação entre a presença de resíduos e a presença de vida.
A investigação, publicada na revista Nature Sustainability e divulgada pela Comissão Europeia no âmbito do seu serviço científico Science for Environment Policy, cruzou dados existentes sobre concentrações e distribuição de plástico nos oceanos com dados de biomassa marinha e simulações de emissão, transporte e afundamento de resíduos plásticos. O resultado é o mapeamento mais detalhado até hoje produzido sobre o risco ecológico da poluição plástica à escala global.
Atlântico Norte no centro das preocupações
Os resultados identificam o Atlântico Nordeste como uma área de alto risco para a ingestão de plástico por animais de maior porte, enquanto o Atlântico noroeste apresenta risco mais elevado para organismos mais pequenos. Mas é na questão dos poluentes orgânicos associados ao plástico que o Atlântico Norte se destaca de forma mais preocupante: a região regista risco elevado de contaminação por metilmercúrio e sulfato de perfluorooctano – dois compostos tóxicos que se ligam ao plástico e, quando ingeridos, se acumulam nos tecidos dos animais e progridem ao longo da cadeia alimentar.
Quando o risco de ingestão e o risco de contaminação por poluentes se sobrepõem – como acontece no Atlântico Norte -, o perigo de bioacumulação no ecossistema é substancialmente maior. Por outras palavras, o problema não é só o plástico que entra no estômago de um peixe: é o que esse plástico carrega consigo, e como esses compostos vão passando de presa em presa até chegar ao topo da cadeia alimentar – incluindo ao prato dos seres humanos.
Emaranhamento: o risco é costeiro, não no alto mar
Quanto ao risco de emaranhamento em resíduos de maior dimensão – sobretudo artes de pesca abandonadas -, os investigadores concluem que este é essencialmente um problema costeiro. O risco em zonas costeiras é mais de cem vezes superior ao registado em alto mar, concentrando-se especialmente em áreas com pesca intensa. Além do Atlântico Nordeste, destacam-se como zonas críticas o Atlântico Sudeste, o Pacífico subtropical e o oceano Índico meridional.
Acima dos 40 graus de latitude Norte, o risco de emaranhamento para organismos maiores aumenta de forma particularmente acentuada. A causa é a conjugação de três fatores: maior biomassa marinha, atividade mais intensa de pesca e navegação, e acumulação progressiva de resíduos no oceano Ártico – uma região que os próprios investigadores elegem como prioritária para futura investigação de campo.
2060: quase três vezes mais plástico no oceano
As projeções para o futuro dão ainda mais que pensar. No cenário de manutenção dos níveis atuais de emissão de resíduos plásticos, os modelos estimam que em 2060 existirá 2,8 vezes mais plástico nos oceanos do que hoje, com aumentos generalizados em todas as bacias oceânicas. Mesmo nos cenários de redução moderada, o Pacífico Sul e o Atlântico Sudeste deverão registar concentrações mais elevadas, impulsionadas pelo aumento previsto de emissões de plástico provenientes da América do Sul e de África.
Mesmo no cenário mais otimista – de redução significativa das emissões -, o risco de emaranhamento em zonas costeiras continua a aumentar. A razão é a acumulação persistente de plástico ao longo das costas, que não regride ao mesmo ritmo que as concentrações em mar aberto. A limpeza de praias, alertam os investigadores, não é um gesto simbólico: é uma necessidade ecológica concreta.
O que muda na estratégia de combate
As implicações para as políticas públicas são diretas. Os investigadores argumentam que os esforços de limpeza oceânica não se devem concentrar exclusivamente nas chamadas “manchas de lixo“, já que outras áreas com menor volume de plástico podem apresentar riscos ecológicos mais elevados, pelo simples facto de alojar populações animais mais densas. A lógica de intervenção tem de mudar: do foco na acumulação para o foco no impacto.
O estudo lança ainda um aviso sobre as artes de pesca ditas “biodegradáveis“: embora possam reduzir o risco de emaranhamento, a sua degradação em micropartículas pode aumentar os riscos de ingestão e de toxicidade por poluentes orgânicos. Uma solução que resolve um problema e cria outro – e que ilustra bem a complexidade das respostas necessárias.
A publicação chega num momento em que as negociações em torno de um Tratado Global sobre Plásticos, no âmbito das Nações Unidas, continuam em curso – e em que a União Europeia mantém em vigor a sua Estratégia para os Plásticos, integrada no Plano de Ação para a Economia Circular. Os dados agora publicados reafirmam o que os cientistas já defendiam: sem abordagens globais coordenadas, as ações regionais serão sempre insuficientes. O plástico não conhece fronteiras – e os seus efeitos também não.
Fonte: Zhang et al. (2025), Ecological risk assessment of marine plastic pollution, Nature Sustainability. Divulgado pela Comissão Europeia – Science for Environment Policy, 25 de junho de 2026.

