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A terra que se perde: Portugal na linha da frente da desertificação europeia

17 de junho – Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca

A cada segundo, cerca de quatro campos de futebol de terra saudável são degradados em algum ponto do planeta. É com esta imagem brutal que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, enquadra o estado atual dos solos do mundo – e é neste contexto que, a 17 de junho, se assinala o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, criado em 1994 no âmbito da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

Os números globais são vertiginosos. Quarenta por cento das terras do planeta estão já degradadas. Mais de três mil milhões de pessoas vivem em regiões afetadas pela degradação dos solos. A frequência e a duração das secas aumentaram 29% desde o ano 2000. E as projeções apontam para que, até 2050, as secas possam afetar mais de três quartos da população mundial, com custos económicos anuais estimados em 5,4 biliões de euros. A UNCCD alerta que estamos a perder a base de toda a agricultura, de toda a pecuária, de toda a vida terrestre.

Para Portugal, este não é um problema distante. É o chão debaixo dos pés. Os dados do IPMA mostram que o Baixo Alentejo e o Algarve estiveram, no ano hidrológico 2023/2024, em situação de seca meteorológica durante dez dos doze meses do ano, com o Guadiana e as Ribeiras do Algarve a atingirem a classe de seca extrema no final do ano hidrológico. Na estação meteorológica de Vale Formoso, em Mértola, a média anual de precipitação caiu de 755 milímetros na década de 1940 para 474 milímetros na de 2010 – uma redução de 37% em oitenta anos. Investigadores da Universidade do Algarve alertam que o que está em curso no sul do país não são episódios pontuais de seca, mas um processo estrutural e irreversível de desertificação, “perfeitamente alinhado com todas as previsões dos modelos de alterações climáticas“, nas palavras do professor Nuno Loureiro. No Baixo Alentejo, 94% do território apresenta já suscetibilidade à desertificação – 38% em grau crítico.

A boa notícia – se é que assim se pode chamar – é que Portugal encerrou o ano hidrológico 2025/2026 sem seca meteorológica no território continental, beneficiando de uma época de chuvas mais favorável entre dezembro e abril. O alívio é real, mas os especialistas são inequívocos: um ano mais chuvoso não reverte décadas de deficit hídrico acumulado. As albufeiras do Sul continuam abaixo da sua capacidade histórica, os solos estão estruturalmente mais pobres e a vegetação mais vulnerável.

A resposta exige ação em várias frentes: restauração de solos agrícolas e florestais degradados, reconversão de culturas para espécies adaptadas ao clima mediterrânico, gestão eficiente da água de rega, reflorestação com diversidade de espécies autóctones e ordenamento do território que trave o abandono rural. Os fundos europeus – do PEPAC ao PRR – disponibilizam instrumentos de financiamento para estas intervenções. O que falta, frequentemente, é a velocidade de execução que a urgência do problema exigiria.

Neste 17 de junho, o apelo é simples e urgente: a terra não espera. Cada hectare que se perde para a desertificação é um hectare que não produz alimentos, não retém água, não armazena carbono. É um pedaço de futuro que desaparece silenciosamente – mas para sempre.

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