A pegada ambiental da IA é três vezes maior do que as empresas admitem – e a ONU fez as contas
Os centros de dados globais consumiram 448 terawatt-hora de eletricidade em 2025 – mais do que todos os países do mundo exceto dez. Produziram 189 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Consumiram 4,5 biliões de litros de água. E até 2030, o consumo de eletricidade quase duplica para 945 TWh. Estes são os números centrais do relatório Environmental Cost of AI’s Energy Use, publicado a 3 de junho pela Universidade das Nações Unidas – Instituto para a Água, Ambiente e Saúde. O documento é o mais abrangente alguma vez produzido sobre a pegada ambiental da inteligência artificial, e a sua conclusão principal é perturbadora: a maioria das avaliações atuais subestima significativamente o impacto real da IA porque se focam apenas no carbono e ignoram a água e a terra. Em Portugal, onde os centros de dados estão a crescer como sector de investimento estratégico, o relatório coloca questões que não podem ser ignoradas.
O relatório Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints, elaborado pelo UNU-INWEH – o Instituto das Nações Unidas para a Água, Ambiente e Saúde, sediado em Richmond Hill, no Canadá – foi publicado a 3 de junho de 2026 coincidindo deliberadamente com a semana do Dia Mundial do Ambiente. A sua metodologia é mais abrangente do que qualquer análise anterior sobre o tema: em vez de se focar exclusivamente nas emissões de carbono do treino de modelos de IA, analisa as três pegadas ambientais em simultâneo – carbono, água e terra – e projeta a sua evolução até 2030.
Os dados de base para 2025 são de escala de país. Os 448 TWh de eletricidade consumidos pelos centros de dados globais em 2025 representam mais do que o consumo total de países como a Argentina, a Polónia ou os Países Baixos. Se os centros de dados fossem um país, seriam o 11.º maior consumidor mundial de eletricidade – atrás da França e à frente da Arábia Saudita. O consumo de água associado – 4,5 biliões de litros, utilizados principalmente nos sistemas de arrefecimento dos servidores – seria suficiente para satisfazer as necessidades domésticas mínimas de toda a população da África Subsaariana.
A pegada de carbono de 189 milhões de toneladas de CO2 equivalente é comparável às emissões anuais da Argentina inteira. E a pegada de terra – a área de solo ocupada pelas infraestruturas dos centros de dados, incluindo os sistemas de energia e as cadeias de abastecimento – está a crescer a um ritmo que o relatório descreve como sem precedentes na história da infraestrutura digital.
O especto mais perturbador da análise não são os valores absolutos, mas a trajetória. Entre 2025 e 2030, o consumo de eletricidade dos centros de dados está projetado para crescer de 448 para 945 TWh – quase duplicar em cinco anos. A pegada hídrica associada atingirá 9,3 biliões de litros até 2030. E a área de terra ocupada poderá ultrapassar os 14.500 quilómetros quadrados – uma área equivalente ao dobro da região metropolitana de Jacarta.
O problema que as empresas não contam: água e terra além do carbono
A contribuição metodológica mais importante do relatório da UNU-INWEH é a demonstração de que avaliar a sustentabilidade da IA exclusivamente através das emissões de carbono não apenas subestima o impacto real – cria incentivos perversos que podem exacerbar outros problemas ambientais.
O argumento é técnico, mas com consequências práticas imediatas. Os centros de dados que utilizam eletricidade de origem renovável têm uma pegada de carbono muito mais baixa do que os que dependem de gás ou carvão, o que os torna atrativos do ponto de vista das metas de descarbonização das empresas tecnológicas. Mas a eletricidade renovável não tem necessariamente uma pegada hídrica baixa: as centrais hidroelétricas consomem grandes volumes de água por evaporação nos seus reservatórios; os painéis solares e as turbinas eólicas requerem água para limpeza e manutenção; e os sistemas de arrefecimento dos centros de dados por água são frequentemente mais eficientes em termos energéticos, mas mais intensivos em água do que os sistemas de arrefecimento a ar.
O relatório da UNU identifica casos concretos onde esta tensão já está a criar conflitos locais. Na Irlanda, os centros de dados representavam 21% da procura de eletricidade em 2023 – um valor que levou o operador da rede a impor restrições a novas ligações. No México e no Uruguai, a expansão dos centros de dados em regiões com stress hídrico criou pressões sobre os recursos de água locais que afetam diretamente as populações e a agricultura. E nos Estados Unidos, vários estados estão a reconhecer que as suas metas de energia renovável estão a ser comprometidas pelo crescimento acelerado dos centros de dados.
O caso mais revelador do relatório é a comparação entre diferentes tipos de tarefas de IA em termos de intensidade energética. Uma query conversacional típica de IA consome cerca de 200 vezes mais energia do que uma classificação básica de texto. Gerar uma única imagem por IA pode requerer quase 1.450 vezes mais energia. E produzir um vídeo curto gerado por IA pode consumir tanta eletricidade como 200.000 classificações de spam. Estes dados, pela primeira vez sistematizados a esta escala, mostram que a pegada energética da IA não é homogénea – e que as escolhas de design dos produtos e serviços de IA têm consequências ambientais muito diferentes.
ChatGPT sozinho consome 383 GWh por ano
Um dos dados mais citados do relatório é a estimativa do consumo energético do ChatGPT: processando cerca de 2,5 mil milhões de prompts por dia, o serviço consome aproximadamente 383 GWh de eletricidade por ano – só para um produto de uma só empresa. Este número é ao mesmo tempo revelador e conservador: o ChatGPT é um dos produtos de IA mais utilizados do mundo, mas está longe de ser o único. Google Gemini, Microsoft Copilot, Claude, Grok, e dezenas de outros serviços de IA conversacional, de geração de imagens, de síntese de vídeo e de código estão a operar simultaneamente, todos sobre infraestruturas de centros de dados que consomem quantidades análogas de eletricidade.
A IA generativa – a categoria de produtos que inclui os modelos de linguagem de grande dimensão, os geradores de imagens e os sintetizadores de vídeo – é apenas uma fração do consumo total dos centros de dados, que inclui também computação em nuvem convencional, streaming de vídeo, armazenamento de dados e comunicações. Mas é a categoria de crescimento mais rápido: o relatório estima que a IA representava cerca de um quinto do consumo total dos centros de dados em 2025, e que essa fração crescerá de forma acelerada nos próximos anos à medida que a adoção empresarial e de consumo se expande.
O secretário-geral da UNU-INWEH, Vladimir Smakhtin, enquadrou a publicação do relatório com uma formulação que merece atenção: a revolução da IA está a acontecer a uma velocidade sem precedentes, e a sua pegada ambiental está a escalar da mesma forma. Precisamos de agir agora, antes de atingir pontos de não retorno. O paralelismo com os pontos de inflexão negativos que o PNUA identifica nos sistemas climáticos não é casual: um sector que duplica o seu consumo de eletricidade em cinco anos pode criar pressões sobre as redes energéticas e os recursos hídricos que são difíceis ou impossíveis de reverter uma vez estabelecidas.
O que fazer: a tríade de recomendações da ONU
O relatório da UNU-INWEH não se limita ao diagnóstico: propõe um quadro de ação organizado em torno de três imperativos. O primeiro é a transparência e a medição: as empresas de IA devem reportar obrigatoriamente as três pegadas – carbono, água e terra – e fazê-lo de forma desagregada por produto e por tipo de tarefa, em vez de apenas reportar emissões agregadas de Âmbito 1 e 2. O segundo é a eficiência tecnológica: investir em hardware mais eficiente, em técnicas de compressão de modelos que reduzam o consumo energético sem comprometer o desempenho, e em sistemas de arrefecimento que minimizem o consumo de água. O terceiro é a localização inteligente: os centros de dados devem ser localizados onde a água e a energia são abundantes, onde a eletricidade é renovável, e onde o calor residual pode ser aproveitado para aquecimento urbano ou industrial.
Para a União Europeia, o relatório reforça o argumento de que o AI Act, aprovado em 2024, deve ser complementado por regulação ambiental específica para os centros de dados, e que os requisitos de reporte de sustentabilidade da CSRD devem ser adaptados para capturar as três pegadas identificadas pela UNU. A Comissão Europeia, que está a finalizar as orientações para a implementação do AI Act, tem a oportunidade de integrar estas dimensões ambientais na fase de implementação sem necessidade de nova legislação.
A Diretiva de Eficiência Energética europeia já inclui disposições específicas para os centros de dados: a partir de 2024, os centros de dados com capacidade superior a 500 kW são obrigados a reportar a sua eficiência energética, o consumo de água e a utilização do calor residual. É um passo na direção certa, mas o relatório da UNU sugere que o âmbito e a granularidade do reporte precisam de ser significativamente alargados para capturar a dimensão real do problema.
Portugal e os centros de dados: uma oportunidade que exige condições
Portugal tem vindo a emergir como destino atrativo para o investimento em centros de dados, beneficiando da sua posição geográfica, da disponibilidade de energia renovável, de cabos submarinos de dados que ligam a Europa, as Américas e África, e de incentivos fiscais e regulatórios competitivos. Vários centros de dados de grande escala foram anunciados ou inaugurados em Portugal nos últimos anos, com destaque para a região de Lisboa e Setúbal.
O relatório da UNU coloca em perspetiva este investimento. As vantagens competitivas de Portugal – energia renovável em grande proporção, localização atlântica, clima ameno que reduz as necessidades de arrefecimento no Inverno – são reais e relevantes para a pegada ambiental dos centros de dados. Um centro de dados alimentado por eletricidade maioritariamente renovável em Portugal tem uma pegada de carbono significativamente menor do que um equivalente alimentado por gás na Alemanha ou por carvão na Polónia.
Mas as restrições são igualmente reais. Portugal enfrenta uma trajetória de stress hídrico crescente – particularmente no sul e no interior – e um verão de 2026 que, com o Super El Niño em desenvolvimento, promete ser excecional em termos de temperatura. Centros de dados que utilizam sistemas de arrefecimento por água em regiões com pressão hídrica crescente podem criar conflitos locais com outros utilizadores de água – agricultura, turismo, abastecimento público – que Portugal não pode ignorar.
A mensagem do relatório da UNU para Portugal é de oportunidade com condições: acolher centros de dados de forma que maximize os benefícios económicos e minimize os custos ambientais requer políticas de localização, de eficiência hídrica e de aproveitamento do calor residual que não estão ainda plenamente integradas no enquadramento regulatório nacional. É o tipo de decisão que, uma vez tomada, tem consequências que se prolongam por décadas, e que, tomada bem, pode posicionar Portugal como referência europeia de infraestrutura digital sustentável.
Fonte: UNU-INWEH / PBS News / Business Standard / CBC News / Earth.org / IndexBox

