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Reciclar nas férias: o que está cada entidade a fazer para travar a quebra de verão

Julho e agosto são, todos os anos, os meses mais críticos para a produção de resíduos em Portugal. O calor, as deslocações, o turismo e a alteração das rotinas fazem disparar o volume de lixo produzido – e, ao mesmo tempo, tornam mais frágil o hábito de separar para reciclar. Perante este cenário, e com o país a falhar pelo segundo ano consecutivo as metas europeias de reciclagem de embalagens, as entidades que gerem o sistema de resíduos em Portugal têm vindo a multiplicar campanhas, investimentos e novos mecanismos para inverter a tendência.

Agência Portuguesa do Ambiente: reciclar primeiro as desculpas

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) lançou o terceiro momento da campanha “Vamos lixar o lixo”, desta vez dedicado precisamente à época do ano em que a produção de resíduos mais aumenta. Sob o mote “reciclar as desculpas”, a iniciativa desafia os portugueses a abandonar justificações comuns durante as férias – “isso vai tudo para o mesmo sítio”, “o caixote está longe”, “nas férias não quero ter trabalho” – e a manter a separação de resíduos mesmo fora da rotina habitual.

A campanha, desenvolvida pela agência Nossa e divulgada pela Nova Expressão em televisão, rádio, meios digitais, imprensa e outdoors, integra ainda um roadshow itinerante de 18 dias por todo o país, que inclui um mural reunindo as principais desculpas dadas pelos cidadãos para não separar corretamente o lixo. A APA aproveita também para relembrar que, nas zonas onde não existe ainda recolha seletiva de biorresíduos implementada, os cidadãos devem contactar diretamente o respetivo município. A iniciativa prolonga-se até ao final de 2026, com atualizações no site da campanha.

Sociedade Ponto Verde: mais investimento, resultados ainda aquém

Responsável pelo Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) há quase três décadas, a Sociedade Ponto Verde (SPV) atravessa um momento de pressão acrescida. Portugal encerrou 2025 com uma taxa de retoma de embalagens de 60,2%, valor preliminar que fica aquém da meta europeia de 65% em vigor até 2029 e que confirma o incumprimento das metas comunitárias.

A resposta da SPV passa por reforçar o financiamento ao sistema: depois de um investimento histórico de cerca de 212 milhões de euros em 2025, está previsto mais um reforço de 25 milhões de euros em 2026, elevando o total do sistema para perto de 237 milhões de euros em dois anos. Apesar deste esforço financeiro, a CEO da SPV, Ana Trigo Morais, tem sido clara: “a reciclagem de embalagens não se resolve apenas com mais financiamento”, defendendo maior transparência, métricas claras e responsabilização sobre o desempenho de quem opera a recolha seletiva no terreno.

No plano da comunicação, a SPV relançou a campanha “Estamos a chegar ao ponto”, com presença em televisão, rádio, imprensa, outdoor, podcast e marketing de influência, depois de a primeira vaga ter obtido, segundo um estudo da NielsenIQ, os melhores resultados de sempre da marca em persuasão, impacto e empatia junto dos cidadãos. O foco da mensagem está nos dados: sete em cada dez portugueses já separam embalagens nos ecopontos, mas apenas um em cada dez o faz de forma correta – é nesse salto, de adesão para desempenho, que a SPV diz querer concentrar-se.

O vidro continua a ser identificado como o material mais problemático do sistema, com taxas de reciclagem a rondar os 56%, longe da meta de 75% fixada para 2025. A SPV tem testado um novo processo de recolha em ecopontos para captar mais vidro, sobretudo no canal Horeca (hotéis, restauração e cafetaria), que aguarda agora condições para ser escalado a nível nacional.

Sistema de Depósito e Retorno: o início de um novo capítulo

A 10 de abril de 2026 entrou em vigor em Portugal o Sistema de Depósito e Retorno (SDR) de garrafas e latas até três litros, que acrescenta cerca de dez cêntimos ao preço destas embalagens, valor devolvido ao consumidor quando estas são depositadas num ponto de recolha próprio. A medida surge depois de Portugal apresentar, em 2024, uma das taxas mais baixas da União Europeia de utilização de materiais reciclados e de reciclar apenas 37% das garrafas, muito aquém da meta europeia de 70% fixada para 2030.

O sistema, já testado com sucesso em países como Alemanha, Noruega, Finlândia, Dinamarca e Estónia – onde as taxas de retorno chegam aos 97-98% -, conta com uma rede de pontos de recolha manual e máquinas automáticas instaladas em superfícies comerciais. O Ministério do Ambiente e Energia descreve o SDR como “crucial” para o cumprimento das metas de reciclagem, evitando penalizações da União Europeia, enquanto a Sociedade Ponto Verde sublinha que o novo mecanismo deve funcionar em complementaridade, e não em sobreposição, com o sistema já existente.

Sistemas multimunicipais: investimento no terreno e ação junto das comunidades

Entre os sistemas que operam diretamente a recolha e o tratamento de resíduos no território, vários têm reforçado a aposta na prevenção e na recolha seletiva de biorresíduos. A Lipor, que serve oito municípios da região do Grande Porto, apresentou um Roadmap 2026 estruturado em seis áreas de atuação, depois de em 2025 ter evitado a produção de mais de 11.600 toneladas de resíduos, entre prevenção direta e reciclagem na origem de biorresíduos, um resultado que se traduziu numa poupança superior a 598 mil euros e na redução de mais de 3.280 toneladas de emissões de CO2 equivalente. A componente educativa mantém-se central na estratégia da Lipor, com 147 ações realizadas apenas durante a Semana Europeia da Prevenção de Resíduos.

Na região de Lisboa e Oeste, a Valorsul tem apostado em campanhas de sensibilização de proximidade, como a iniciativa “Mercado a Reciclar”, levada a feiras e mercados municipais em parceria com as câmaras locais, e disponibiliza uma Linha da Reciclagem nacional e gratuita para esclarecer dúvidas dos cidadãos, agora também acessível através de aplicação móvel. O grupo EGF, ao qual a Valorsul pertence, mantém ainda a campanha solidária “Toneladas de Ajuda”, que já permitiu atribuir 130 mil euros a instituições de solidariedade social em troca de material reciclável entregue pelas comunidades.

No norte do país, a Braval – responsável pela gestão de resíduos em Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde – encerrou 2024 com um aumento da recolha seletiva, ainda que insuficiente para o cumprimento das metas, e tem vindo a alertar os municípios para o custo da Taxa de Gestão de Resíduos aplicada aos resíduos indiferenciados que poderiam ter sido separados na origem.

O que está em causa

O denominador comum a todas estas entidades é o mesmo: Portugal continua a separar mais do que separava há uma década, mas não o suficiente para cumprir as metas europeias cada vez mais exigentes. O investimento no sistema tem crescido de forma significativa nos últimos dois anos, mas, como a própria Sociedade Ponto Verde reconhece, o reforço financeiro ainda não se traduziu numa evolução estrutural do desempenho. Entre campanhas de sensibilização, novos sistemas de depósito e retorno, e o trabalho diário dos sistemas municipais e multimunicipais no terreno, o desafio mantém-se: transformar a adesão dos portugueses à reciclagem – que já é maioritária . em desempenho efetivo, com mais quantidade e melhor qualidade de separação.

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