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Trabalhar perto de casa pode cortar emissões de carbono até 90%

22 de abril · Dia Mundial da Terra

Um estudo da International Workplace Group e da Arup demonstra que o trabalho híbrido localizado é uma das medidas mais eficazes para reduzir a pegada carbónica das deslocações. Em Portugal, onde o automóvel domina 66% das viagens diárias, o potencial de transformação é considerável.

A deslocação diária de casa para o escritório – aquela rotina que durante décadas definiu o ritmo das cidades – pode ser uma das mudanças mais simples e com maior impacto para travar as emissões de carbono. É o que conclui um estudo da International Workplace Group (IWG) em parceria com a Arup, divulgado esta semana por ocasião do Dia Mundial da Terra, que se assinala a 22 de abril.

Segundo a investigação, que analisou seis cidades dos Estados Unidos e do Reino Unido – Atlanta, Los Angeles, Nova Iorque, Glasgow, Manchester e Londres -, o modelo de trabalho híbrido localizado pode reduzir as emissões associadas às deslocações profissionais entre 49% e 90%, consoante a cidade e o perfil de mobilidade dos trabalhadores. Atlanta lidera o potencial de redução, com 90%, seguida de Los Angeles (87%) e Nova Iorque (82%). No Reino Unido, Glasgow surge com 80%, Manchester com 70% e Londres com 49%.

A lógica é simples: quanto mais próximo do local de residência é o espaço de trabalho, menor é a distância percorrida – e menor a emissão de gases com efeito de estufa. A distância percorrida é, aliás, o principal fator de impacto identificado no estudo. Em Londres, por exemplo, dividir o tempo entre um escritório central e um espaço de trabalho local permitiu reduzir as emissões em 49%; alternar entre casa e um espaço local atingiu uma redução de 43%, face ao modelo tradicional de presença cinco dias por semana num escritório no centro.

Portugal: um país feito de automóvel

O contexto português torna este debate especialmente relevante. Em 2022, o sector dos transportes foi responsável por 35,4% do consumo final de energia e por cerca de 30% das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal, de acordo com o Inventário Nacional de Emissões. É um dos sectores de maior impacto ambiental no país – e aquele onde os hábitos individuais têm mais peso.

Os números da mobilidade confirmam a dependência: cerca de 66% da população portuguesa recorre ao automóvel para as deslocações diárias. Em Braga, essa percentagem sobe para 75,4%; em Aveiro e Coimbra, para 73,8%. Mesmo em Lisboa – onde a oferta de transportes públicos é mais densa -, 60,7% dos trabalhadores utilizam o carro. Só na Área Metropolitana de Lisboa entram diariamente cerca de 390 mil veículos, segundo dados do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT).

A tendência é transversal à Europa. De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, o sector dos transportes representa cerca de 25% das emissões de gases com efeito de estufa na UE – sendo o único onde os valores têm aumentado nas últimas três décadas, em grande parte por causa das deslocações entre casa e trabalho.

Mais do que ambiente: produtividade, bem-estar e poupança

O argumento ambiental é poderoso, mas não está sozinho. O mesmo relatório aponta que o trabalho híbrido pode aumentar a produtividade em 11% nos Estados Unidos e 12% no Reino Unido. Para os trabalhadores, os benefícios percebidos são equiparados a um aumento salarial de 7% a 8%, com melhorias no bem-estar e na conciliação entre vida pessoal e profissional.

Do lado das empresas, um estudo adicional da IWG e da Arup revela que organizações que adotaram modelos híbridos conseguiram reduzir o consumo energético em cerca de 19%, através de uma utilização mais eficiente dos espaços de escritório e do recurso a soluções de trabalho flexíveis.

Com potencial para reduzir as emissões associadas ao trabalho até 90%, os resultados deste estudo são claros: a deslocação diária para escritórios no centro das cidades é um dos maiores fatores de impacto ambiental, e a simples redução das viagens pode gerar uma diminuição significativa das emissões“, afirma Mark Dixon, fundador e CEO da IWG. “A maior mudança que podemos fazer neste momento é dar às pessoas a possibilidade de trabalhar mais perto de onde vivem. Este estudo demonstra que pequenas alterações nos padrões de trabalho podem gerar um impacto significativo na redução da pegada carbónica – e essa mudança está ao nosso alcance, hoje“.

EM NÚMEROS

  • Até 90% de redução de emissões de carbono com trabalho híbrido localizado (Atlanta)
  • 30% das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal são geradas pelos transportes
  • 66% da população portuguesa desloca-se de carro diariamente
  • 390 mil carros entram diariamente na Área Metropolitana de Lisboa
  • 19% de redução do consumo energético nas empresas que adotaram trabalho híbrido
  • +11% de produtividade (EUA) e +12% (Reino Unido) com modelos híbridos

Fonte: International Workplace Group / Arup, abril de 2026. Dados de mobilidade: EasyPark, IMT, AEA, APA.

* Estudo realizado pela Mortar Research em abril de 2024 junto de 511 líderes empresariais e gestores de instalações no Reino Unido que trabalham em regime híbrido. A Mortar Research é acreditada pela Market Research Society.

** Estudo O futuro do trabalho: Um futuro mais sustentável e híbrido, publicado em abril de 2023 pela IWG e pela ARUP

*** Estudo Relatório sobre a Produtividade do Trabalho Híbrido do IWG, publicado em junho de 2025 pelo IWG e pela ARUP


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