2025: um ponto de inflexão agridoce na sustentabilidade global

O ano de 2025 encerrou com um balanço complexo e, por vezes, contraditório no que diz respeito à sustentabilidade. Se, por um lado, a transição para energias limpas demonstrou uma aceleração sem precedentes, por outro, a inação política, a pressão de lobbies industriais e a contínua degradação de ecossistemas vitais pintaram um quadro de urgência intensificada. Num cenário global marcado por instabilidade geopolítica e retrocessos em agendas ambientais, 2026 emerge como um ano crítico, onde as decisões tomadas a nível mundial, europeu e nacional ditarão a viabilidade de um futuro resiliente e sustentável.

Este artigo analisa os principais marcos de 2025 e traça as perspetivas críticas para 2026, cruzando dados de relatórios internacionais com a análise detalhada da associação ambientalista portuguesa ZERO, focando nas realidades global, europeia e portuguesa.

Cenário global: corrida entre inovação e colapso

O panorama mundial em 2025 foi um espelho da dualidade que caracteriza a nossa era. A inovação tecnológica, particularmente no sector energético, ofereceu vislumbres de um futuro descarbonizado, enquanto os indicadores biofísicos do planeta continuaram a piscar em alerta vermelho.

A revolução da “Electrotech”

O progresso mais notável veio do sector das energias renováveis. Pela primeira vez, a geração combinada de energia solar e eólica não só acompanhou, como ultrapassou o crescimento da procura global de eletricidade. Nos primeiros três trimestres de 2025, estas fontes forneceram 17,6% da eletricidade mundial, um aumento significativo face aos 15,2% do ano anterior – dados do estudo “Highlights of the global energy transition in 2025”. Este marco, impulsionado por um crescimento solar três vezes superior a qualquer outra fonte, sinaliza uma mudança estrutural no sistema energético global. A Agência Internacional de Energia (IEA) reportou que o mundo adicionou 793 GW de capacidade renovável em 2025, um aumento de 11% face a 2024, mantendo o planeta no caminho para a meta de triplicar a capacidade renovável até 2030, acordada na COP28, revela o relatório “Renewables 2025”.

Esta transição foi acompanhada por avanços rápidos e uma queda de preços na tecnologia de baterias, tornando o armazenamento de energia e a estabilidade da rede uma realidade cada vez mais tangível. O conceito de “electrotech” – a sinergia entre solar, eólica, baterias e a eletrificação dos transportes e indústria – consolidou-se como o principal motor do crescimento energético, com a China a posicionar-se como o primeiro “electroestado” do mundo.

Marco Energético Global (2025)DescriçãoFonte
Crescimento Solar e EólicoUltrapassou o crescimento da procura global de eletricidade pela primeira vez.Highlights of the global energy transition in 2025
Capacidade Renovável Adicionada793 GW, um aumento de 11% em relação a 2024.Renewables 2025
Geração Solar nos BRICSOs dez países BRICS foram responsáveis por mais de 51% da geração solar global.Highlights of the global energy transition in 2025
Solar na UETornou-se a maior fonte de eletricidade em junho de 2025.Highlights of the global energy transition in 2025

Alarme climático

Apesar das vitórias no sector energético, os sinais de alarme do planeta soaram mais alto do que nunca. Um artigo publicado no The Guardian – “Met Office: 2026 will bring heat more than 1.4C above preindustrial levels”, aponta que as previsões para 2026 indicam que a temperatura média global deverá situar-se cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, tornando-o um dos quatro anos mais quentes desde o início dos registos em 1850. Esta tendência aproxima perigosamente o mundo do limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris, um limiar que, se ultrapassado de forma sustentada, desencadeará impactos climáticos ainda mais severos e irreversíveis.

Enquanto isso, e como publicou a BBC News, no artigo “Biodiversity continues to decline, 2025 data shows”, simultaneamente, a crise da biodiversidade aprofundou-se. Relatórios de 2025 confirmaram que a perda de habitats e espécies continua a acelerar, com ecossistemas a deteriorarem-se a um ritmo alarmante. A associação ZERO destaca a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar como um dos desenvolvimentos mais positivos do ano, criando um quadro legal para proteger a biodiversidade em mais de dois terços do oceano. No entanto, a sua implementação efetiva em 2026 será um teste decisivo à vontade política global.

União Europeia: entre a ambição do Green Deal e a desregulamentação

A União Europeia, autoproclamada líder da ação climática, viveu um 2025 de tensões internas. A ambição do Pacto Ecológico Europeu (Green Deal) colidiu com uma forte vaga de pressão por parte de sectores industriais e agrícolas, resultando no que a ZERO descreve como uma “corrida para o abismo do business as usual” através de uma agenda de desregulamentação disfarçada de “simplificação”.

O Relatório de Progresso da Ação Climática da UE de 2025, publicado em novembro, reafirmou a meta de redução de 90% das emissões líquidas até 2040, mas o caminho para lá chegar tornou-se mais disputado. O alinhamento do Partido Popular Europeu (PPE) com a extrema-direita em dossiês ambientais cruciais representou um enfraquecimento significativo da legislação, pondo em causa os próprios alicerces do Green Deal. Este recuo político ameaça transferir o ónus da poluição e da perda de biodiversidade para os cidadãos e os cofres públicos, minando a resiliência do bloco a longo prazo.

Para 2026, a UE enfrenta uma encruzilhada. A Comissão Europeia deverá preparar as regras climáticas e energéticas para o pós-2030, e a transposição de diretivas como a do Direito a Reparar será um teste à sua capacidade de promover uma economia verdadeiramente circular. A forma como o bloco irá equilibrar a competitividade industrial com a urgência climática definirá a sua credibilidade e liderança na cena mundial.

Portugal: balanço de contrastes e a urgência de agir

Portugal reflete, a uma escala nacional, as contradições observadas a nível europeu e global. O país melhorou a sua posição no Índice de Desempenho em Alterações Climáticas (CCPI) de 2026, subindo para o 12.º lugar (9.º efetivo), com uma avaliação “alta” na redução de emissões de gases com efeito de estufa (GEE). O país antecipou a sua meta de neutralidade carbónica para 2045 e estabeleceu objetivos ambiciosos para as energias renováveis, visando que 93% da eletricidade seja de fonte renovável até 2030 – dados do Climate Change Performance Index sobre Portugal.

No entanto, este progresso é minado por falhas estruturais e inação em áreas críticas, conforme apontado pela ZERO.

Pontos críticos da sustentabilidade em Portugal

Recursos Hídricos e Conservação da Natureza: A estratégia “Água que Une”, focada no regadio industrial para o agronegócio, avançou sem a devida avaliação ambiental, ameaçando os já pressionados recursos hídricos. A política de conservação da natureza foi marcada pela inércia, culminando num processo no Tribunal de Justiça da UE contra Portugal por má aplicação das regras da Rede Natura 2000. A ausência, há 17 anos, do Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados é um sintoma da falta de força jurídica na proteção de habitats e espécies.

Resíduos e Economia Circular: A gestão de resíduos urbanos continua estagnada. A proposta da ZERO para desviar um milhão de toneladas de resíduos de aterros em três anos foi ignorada, enquanto a deposição ilegal de biorresíduos não estabilizados persiste. A esperança para 2026 reside no lançamento, previsto para abril, do muito atrasado Sistema de Depósito e Reembolso para embalagens de bebidas, que poderá aumentar as taxas de recolha para mais de 90%.

Atrasos na Implementação da Lei de Bases do Clima: A operacionalização de instrumentos cruciais, como o Conselho para a Ação Climática (CAC), continua atrasada, comprometendo o escrutínio das políticas públicas. A integração dos objetivos climáticos no Orçamento do Estado permanece incipiente, revelando uma desconexão entre as metas legais e a despesa pública.

Portugal: perspetivas para 2026

O ano de 2026 será decisivo para Portugal. A finalização do Plano Nacional de Restauro da Natureza, a atualização do Roteiro para a Neutralidade Climática e a criação de uma Estratégia Industrial Verde são tarefas urgentes e inadiáveis. O sucesso dependerá da capacidade do governo para mobilizar o sector privado, implementar políticas coerentes e resistir às pressões que favorecem o lucro a curto prazo em detrimento do bem-comum a longo prazo.

O balanço de 2025 é um alerta severo. O avanço tecnológico, por si só, não garantirá um futuro sustentável. Sem uma vontade política robusta, uma regulamentação eficaz e uma sociedade civil forte e vigilante, os ganhos obtidos num sector podem ser rapidamente anulados por perdas noutro. 2026 não será um ano de tréguas. Será um ano para transformar a ambição em ação concreta, a inovação em transformação sistémica e a esperança num compromisso inabalável com a sustentabilidade, antes que os pontos de inflexão do planeta se tornem pontos de não retorno.

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