Grânulos finos de borracha reciclada podem libertar químicos tóxicos no solo e na água
Estudo alerta que partículas mais pequenas de borracha proveniente de pneus usados libertam maiores quantidades de substâncias perigosas, com impactos em organismos do solo, plantas e ecossistemas aquáticos.
A borracha reciclada a partir de pneus usados tem sido promovida como uma solução sustentável para parques infantis, campos desportivos e pistas de atletismo. No entanto, um novo estudo científico levanta sérias preocupações ambientais, ao concluir que as partículas mais finas deste material podem libertar compostos tóxicos para o solo e para a água, com potenciais riscos para os ecossistemas e para a saúde humana.
A investigação, publicada na revista Environmental and Biogeochemical Processes, analisou granulado de borracha de diferentes tamanhos produzido a partir de pneus de veículos em fim de vida. Os resultados mostram que todos os materiais testados continham níveis elevados de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), um grupo de compostos orgânicos tóxicos, persistentes no ambiente e associados a efeitos adversos na saúde. Crucialmente, quanto menor o tamanho das partículas, maior foi a libertação destes químicos em formas que podem ser absorvidas pelos organismos vivos.
Os investigadores estudaram três frações de tamanho, desde partículas com menos de 1,5 milímetros até grânulos com cerca de 6 milímetros de diâmetro. As análises químicas revelaram concentrações totais de HAP superiores a 100 miligramas por quilograma nas partículas mais finas, valores que diminuíam com o aumento do tamanho, mas que permaneciam elevados mesmo nos grânulos maiores.
Mais relevante do que a quantidade total de contaminantes foi a fração de HAP dissolvida livremente na água – a parte efetivamente biodisponível e, portanto, mais perigosa do ponto de vista ecológico. O estudo conclui que as partículas mais pequenas libertam as maiores quantidades desta fração, sugerindo um risco ambiental superior ao de muitos solos e sedimentos já considerados contaminados.
Para avaliar os impactos biológicos, a equipa realizou testes ecotoxicológicos com invertebrados do solo, plantas e microrganismos aquáticos. Os resultados mostraram efeitos tóxicos consistentes: organismos do solo, como colêmbolos, apresentaram menor sobrevivência e reprodução; as plantas revelaram crescimento radicular inibido; e bactérias aquáticas responderam com elevada toxicidade à água em contacto com o granulado. Em todos os casos, os efeitos mais severos estiveram associados às partículas mais finas.
Além dos HAP, o granulado libertou metais potencialmente tóxicos, como zinco e cobre, em concentrações que ultrapassam os limites recomendados para a água potável, contribuindo para o impacto negativo observado.
Os autores alertam que a exposição prolongada a fatores ambientais como chuva, radiação solar e variações de temperatura poderá intensificar, ao longo do tempo, a libertação destas substâncias. Embora o estudo não defenda o abandono da reciclagem de pneus, sublinha a necessidade de regulamentação específica em função do tamanho das partículas, de uma seleção mais criteriosa dos materiais e do desenvolvimento de alternativas mais seguras, sobretudo em espaços frequentados por crianças.
A investigação reforça a ideia de que a sustentabilidade dos materiais reciclados não deve ser avaliada apenas pela sua origem, mas também pelo seu comportamento químico e pelos efeitos biológicos que podem ter quando utilizados em ambientes reais.

