O nosso poder, o nosso planeta: 56 anos a exigir o óbvio
O Dia da Terra nasceu em 1970 como um protesto. Cinquenta e seis anos depois, com o planeta mais quente, as emissões ainda a crescer, os EUA fora do Acordo de Paris e a COP30 a terminar sem acordo sobre o fim dos combustíveis fósseis, a pergunta já não é por que razão existe este dia, mas por que razão ainda é necessário.
Em 1970, rios americanos pegavam fogo, o ar das cidades era irrespirável e a legislação ambiental praticamente não existia. Foi nesse contexto que nasceu o Dia da Terra.
A história começa num desastre. Em janeiro de 1969, um poço de petróleo off-shore explodiu na costa de Santa Bárbara, na Califórnia, derramando cerca de 80.000 barris de crude no oceano e nas praias. As imagens de aves marinhas cobertas de petróleo chocaram a opinião pública americana. Nesse mesmo ano, o rio Cuyahoga, em Ohio, ficou tão contaminado com resíduos industriais que literalmente entrou em combustão – não era a primeira vez, mas foi a que gerou mais cobertura mediática.
O senador Gaylord Nelson, perturbado pela degradação ambiental que via em todo o país, teve a ideia de organizar uma jornada nacional de educação ambiental no modelo dos movimentos estudantis antiguerra. Contratou o jovem ativista Denis Hayes para coordenar o evento. A 22 de abril de 1970, mais de 20 milhões de americanos saíram à rua – estudantes, professores, trabalhadores, idosos – participando em manifestações, debates e ações de limpeza em milhares de localidades. Foi o maior evento cívico da história dos Estados Unidos até àquele momento.
O impacto político foi imediato. Nesse mesmo ano, o Congresso americano criou a Agência de Proteção Ambiental (EPA), aprovou a Lei do Ar Limpo e iniciou o processo que levaria à Lei da Água Limpa e à Lei das Espécies em Perigo. Dois anos depois, a Conferência da ONU sobre o Meio Humano, em Estocolmo, marcou a entrada formal do ambiente na agenda multilateral. O Dia da Terra exportou-se para o mundo: em 1990, foi celebrado em 141 países com 200 milhões de participantes. Hoje, a organização Earthday.org calcula que mais de mil milhões de pessoas participam anualmente em eventos e ações distribuídos por mais de 193 países.
O tema do Dia da Terra 2026 – “O nosso poder, o nosso planeta” – é, deliberadamente, um apelo à ação coletiva. “É um grito de guerra para que as pessoas de todo o mundo reclamem a sua voz, os seus direitos e o seu futuro”, descreve a Earthday.org. O foco central é a triplicação da capacidade de energia renovável até 2030, um dos compromissos do Acordo de Paris reafirmado na COP28, em Dubai, e de novo na COP30, em Belém.
O planeta em 2026: quanto avançámos
A boa notícia é que o mundo está a agir. A má notícia é que não está a agir depressa o suficiente.
Em novembro de 2025, a COP30 encerrou em Belém do Pará, na Amazónia brasileira, com um pacote de decisões que os seus organizadores descreveram como o início de uma nova fase – da negociação para a implementação. O chamado “Global Mutirão”, adotado por 195 países, reafirmou o compromisso com o limite de 1,5°C, endossou a triplicação das energias renováveis e duplicação da eficiência energética até 2030, e lançou um Acelerador de Implementação Global para priorizar ações de alto impacto.
Mas o que a COP30 não conseguiu é igualmente revelador. O texto final não incluiu um plano concreto para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, proposta apoiada por mais de 80 países, mas bloqueada pelos grandes produtores. Sessenta e quatro países chegaram ao final de 2025 sem apresentar as novas metas climáticas que o Acordo de Paris exigia. A Índia – terceiro maior emissor global, com 8,2% das emissões mundiais – começou 2026 ainda sem publicar o seu compromisso atualizado.
A curva das emissões conta a história mais clara: em 2025, as emissões globais de CO2 cresceram cerca de 1% em relação a 2024. Para cumprir o limite de 1,5°C, os cientistas estimam que seria necessário reduzir as emissões 5% ao ano, a partir de agora. O orçamento de carbono restante – a quantidade de CO2 que ainda podemos emitir antes de ultrapassar 1,5°C – está reduzido a aproximadamente 130 mil milhões de toneladas, o equivalente a apenas três ou quatro anos de emissões na taxa atual.
O ano de 2024 confirmou-se como o mais quente alguma vez registado, tornando-se o primeiro ano civil em que a temperatura média global ultrapassou 1,5°C acima dos valores pré-industriais – a barreira simbólica e científica que o Acordo de Paris se propõe não ultrapassar em média ao longo do século. Não foi uma ultrapassagem permanente, mas foi um sinal inequívoco da trajetória.
“A curva global das emissões de gases de efeito de estufa precisa começar a cair já em 2026. Precisamos começar agora a reduzir as emissões de CO2 provenientes de combustíveis fósseis em pelo menos 5% ao ano”. – Declaração de cientistas sobre o estado das negociações da COP30, Novembro de 2025
Recuo americano e os seus efeitos
Uma das sombras mais longas sobre a política climática global em 2025-2026 foi o regresso dos Estados Unidos ao negacionismo climático institucional. A retirada americana do Acordo de Paris – numa segunda administração de Donald Trump, que tomou posse em janeiro de 2025 – removeu o segundo maior emissor histórico do principal quadro multilateral de ação climática. Os Estados Unidos representam cerca de 14% das emissões globais anuais atuais.
O impacto não é apenas nas emissões diretas. O sinal político dado ao mundo – de que os compromissos climáticos são reversíveis conforme a orientação do governo do momento – fragiliza o multilateralismo e dá cobertura a outros países tentados a atrasar ou recuar nas suas metas. A Agência de Proteção Ambiental (EPA), criada diretamente pelo primeiro Dia da Terra, foi alvo de cortes orçamentais e de pessoal que reduziram significativamente a sua capacidade regulatória.
A UE respondeu acelerando a sua própria agenda. O Conselho da UE aprovou em novembro de 2025 a meta de redução de 90% das emissões até 2040- a mais ambiciosa da sua história – e apresentou a sua NDC para a COP30. A China, o maior emissor atual, apresentou metas atualizadas, mas insuficientes segundo os cientistas. O Brasil, anfitrião da COP30, comprometeu-se com uma redução entre 59% e 67% das emissões até 2035 e neutralidade climática em 2050.
O que o Dia da Terra alcançou: a legislação que um protesto gerou
É fácil subestimar o que 56 anos de ativismo ambiental mudaram concretamente. A resposta é: muito mais do que a maioria das pessoas imagina.
A lista de legislação ambiental diretamente atribuível ao movimento do Dia da Terra é extensa. Nos Estados Unidos: a Lei do Ar Limpo (1970), a Lei da Água Limpa (1972), a Lei das Espécies em Perigo (1973), a criação da EPA (1970). A nível global: a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982), o Protocolo de Montreal sobre a camada de ozono (1987), a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (ambas de 1992), o Protocolo de Quioto (1997) e o Acordo de Paris (2015).
Na UE, a pressão do movimento ambiental contribuiu para um corpus legislativo que nenhuma outra região do mundo possui: a Diretiva-Quadro da Água, a Diretiva Habitats, o sistema REACH de controlo de substâncias químicas perigosas, o mercado europeu de carbono, o Pacto Ecológico Europeu. Imperfeitos e incompletos como são, representam um nível de proteção ambiental jurídica sem paralelo noutras regiões.
Para Portugal, o caminho foi semelhante. O artigo 66.º da Constituição de 1976 garante o direito a um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado – uma das primeiras constituições do mundo a consagrar este direito fundamental. A adesão à CEE em 1986 trouxe um enquadramento legal europeu que obrigou à modernização das políticas ambientais nacionais. A criação do Ministério do Ambiente, a legislação de proteção da natureza, o regime de avaliação de impacte ambiental – tudo resulta, em grande medida, de um movimento global que começou a 22 de abril de 1970.
As grandes batalhas atuais
Em 2026, as batalhas do movimento ambiental são múltiplas e simultâneas. A principal é a transição energética: substituir os combustíveis fósseis – que são responsáveis por 75% das emissões globais de gases com efeito de estufa – por fontes renováveis, com rapidez e justiça. A Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) estima que o mundo instalou, em 2024, uma capacidade renovável recorde, mas o ritmo ainda é inferior ao necessário para triplicar a capacidade até 2030, como prometido nas COPs.
Em Portugal, a transição energética é uma história de sucesso relativo com limitações. O país tem sido um dos líderes europeus em penetração de renováveis na eletricidade – em vários meses de 2024 e 2025, a produção renovável superou o consumo nacional total. Mas a descarbonização dos transportes, da indústria e do aquecimento residencial avança muito mais lentamente. E a dependência de importação de energia fóssil para além do sector elétrico continua a ser um ponto de vulnerabilidade estratégica.
A segunda grande batalha é a biodiversidade. O Acordo Kunming-Montreal, adotado na COP15 em 2022, comprometeu 196 países a proteger 30% da terra e dos oceanos até 2030 – a chamada meta “30×30”. Mas a aplicação nos planos nacionais é lenta e desigual. Em Portugal, as áreas classificadas cobrem uma parte significativa do território, mas a qualidade de gestão e a conectividade ecológica entre estas áreas é insuficiente. A sexta extinção em massa – a perda acelerada de espécies causada pela atividade humana – continua à mesma velocidade.
A terceira batalha, cada vez mais central, é a de adaptação. Mesmo que as emissões parassem amanhã, as alterações climáticas em curso durante décadas exigem uma transformação profunda das infraestruturas, dos sistemas alimentares, da gestão da água e do território. Portugal, no flanco sul da Europa, é um dos países da UE mais vulneráveis aos impactos do aquecimento – com projeções de redução severa dos recursos hídricos, aumento da frequência e intensidade dos incêndios, subida do nível do mar e aumento do stress térmico nas cidades.
O poder do coletivo: o que ainda pode mudar
O Dia da Terra 2026 tem um tema propositadamente mobilizador: “O nosso poder, o nosso planeta”. A escolha não é acidental.
A tentação do desespero climático – a sensação de que nada do que um indivíduo faça importa perante a escala do problema – é compreensível, mas empiricamente errada. As escolhas coletivas dos consumidores transformaram mercados inteiros: o vestuário de segunda mão passou de nicho a mainstream, os carros elétricos saíram de produto de luxo para a gama popular em menos de uma década, as energias renováveis tornaram-se a opção mais barata de nova capacidade de geração em praticamente todos os países do mundo.
E o ativismo cidadão continua a ser o motor mais eficaz de mudança legislativa. É o que mostra a história do próprio Dia da Terra – de um protesto de estudantes saiu a EPA e a lei do ar limpo. É o que mostrou o movimento Fridays for Future, que em 2018-2019 colocou a emergência climática no centro da agenda política europeia e acelerou a ambição do Pacto Ecológico. É o que mostrou a campanha Stop EACOP, que bloqueou parcialmente o financiamento bancário europeu ao oleoduto mais longo de África.
A nível individual e comunitário, as ações mais impactantes identificadas pela investigação são: reduzir o consumo de carne e produtos de origem animal, eliminar ou reduzir viagens de avião, transitar para mobilidade elétrica ou ativa, e – especialmente nos países com habitação energeticamente ineficiente como Portugal – investir em eficiência energética do alojamento. Nenhuma destas ações é suficiente por si só. Todas são necessárias em combinação com mudanças sistémicas que só a regulação pode impor.
Denis Hayes, o coordenador do primeiro Dia da Terra em 1970, disse numa entrevista recente: “Pode voltar a acontecer. De facto, é a única coisa que já aconteceu”. A referência é à mudança sistémica impulsionada pelo ativismo. Num momento em que o contexto geopolítico tornou mais difícil o multilateralismo climático – com os EUA fora do Acordo de Paris, com a ascensão de partidos que questionam a urgência da transição em vários países europeus -, a pressão da sociedade civil sobre os governos e as empresas é mais, não menos, necessária.
“O legado perdurável do Dia da Terra é a colaboração entre as pessoas para forjar um futuro habitável e a necessidade de nunca duvidar de que um grupo dedicado de pessoas pode mudar o mundo. De facto, é a única coisa que o fez”. – Denis Hayes, Earthday.org, Janeiro de 2026
O Dia da Terra não é um feriado. É, como diz a organização que o promove, um “lembrete global anual de que só temos um planeta e não estamos a fazer um bom trabalho em mantê-lo limpo”. E, mais do que um lembrete, é um ponto de convergência para ação – de limpezas de praias a campanhas de rearborização, de debates universitários a audiências parlamentares, de boicotes a empresas a desinvestimento de fundos de pensões em combustíveis fósseis.
Em 2026, o tema “O nosso poder, o nosso planeta” é também uma resposta ao momento político. Num ano em que o recuo climático de algumas das maiores potências mundiais ameaça desfazer décadas de avanços, a mensagem é a de que o poder de mudar não reside apenas nos governos – reside nas escolhas de cada um, na pressão coletiva, nas alianças entre cidades, regiões e empresas que continuam a mover-se mesmo quando os seus estados-nação vacilam.
Portugal tem razões para se envolver ativamente nesta data. É um dos países europeus mais vulneráveis às alterações climáticas. É também um dos que mais depende de uma natureza sã para a sua economia – do turismo à agricultura, das pescas à produção de energia renovável. Preservar esse capital natural não é uma opção política: é uma necessidade económica e uma responsabilidade geracional.
Fontes: Earthday.org, Nações Unidas, Presidência da COP30, Agência Brasileira de Ciências (ABC), ONU News, Jornal Público, Agência Brasil, Iberdrola/COP30, Eurocid.

