#14 Pegada Semanal – 17 a 24 de abril
Bom dia, e bem-vindos ao Pegada Semanal. Eu sou a Alexandra Costa, e esta semana há muito por onde começar.
Esta é uma semana que ficará marcada no calendário da sustentabilidade – não por um único evento, mas pela confluência de vários. O Dia da Terra foi assinalado a 22 de abril com uma mensagem que ganhou mais peso do que nunca, num contexto de crise energética global. Na véspera, começou em Santa Marta, na Colômbia, uma conferência que pode ser um ponto de viragem na política climática mundial: a primeira grande reunião internacional dedicada exclusivamente à saída dos combustíveis fósseis. Na Europa, chegaram dados sobre emissões que mostram que o continente está a percorrer o caminho certo, mas há avisos sérios sobre o ritmo. E em Portugal, o Governo abriu a consulta pública de um programa que pode mudar radicalmente a forma como os nossos rios e ribeiras são geridos nas próximas décadas.
Há muito para cobrir. Vamos a isso.
Santa Marta: a conferência que o mundo dos combustíveis fósseis não queria ver acontecer
A notícia mais importante desta semana do ponto de vista da política climática global não vem de uma cimeira das Nações Unidas, não vem de Bruxelas, não vem de Washington. Vem de Santa Marta, uma cidade costeira da Colômbia, onde arrancou a 24 de abril a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis – um encontro que os organizadores têm chamado, sem exagero, de histórico.
A conferência foi coorganizada pela Colômbia e pelos Países Baixos, e reúne cerca de 60 países – com um PIB combinado de 42 biliões de dólares – unidos por uma convicção partilhada: a urgência de desenhar um mapa concreto para o fim do petróleo, do gás e do carvão. A Cúpula de Líderes está marcada para os dias 28 e 29 de abril, com encerramento em plenária geral.
Esta conferência tem uma origem direta na COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025. Na capital paraense, petroestados como a Arábia Saudita e a Rússia bloquearam qualquer menção ao abandono dos combustíveis fósseis no texto final. Em resposta, 80 países apoiaram a proposta do Brasil de construir um Mapa do Caminho global – e foi a partir daí que Santa Marta ganhou forma. O objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo: produzir um relatório focado na superação da dependência económica dos fósseis, para entregar à presidência da COP, que o Brasil mantém até novembro de 2026, e contribuir para as negociações da COP31, na Turquia.
O momento não poderia ser mais carregado de significado. Como disse a ministra do Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, organizadora do evento: “Santa Marta chega em um momento de crise máxima, que põe a dependência dos combustíveis fósseis na crista da onda“. A crise energética gerada pela guerra no Irão, que disparou os preços do petróleo e do gás para máximos históricos, transformou o que era um argumento ambiental num argumento de segurança nacional, soberania económica e estabilidade geopolítica.
As ausências também são eloquentes: os Estados Unidos não estarão presentes, nem a Arábia Saudita, nem a Rússia. Mas a presença de 60 países com peso económico e político significativo – incluindo membros da União Europeia – torna isto algo diferente dos habituais encontros de intenções. A questão é saber se as propostas produzidas em Santa Marta terão força suficiente para sobreviver ao regresso às negociações formais da ONU, onde os bloqueios históricos continuam à espera.
Dia da Terra 2026: “O Nosso Poder, O Nosso Planeta”
A 22 de abril assinalou-se o Dia da Terra, com o tema deste ano – “O Nosso Poder, O Nosso Planeta” – a refletir exatamente o que se está a passar em Santa Marta: a ideia de que a ação coletiva das comunidades e dos governos, sem depender de unanimidades impossíveis, pode mover a agenda climática.
Este é o 56.º Dia da Terra desde que o primeiro foi celebrado em 1970 nos Estados Unidos. Em mais de meio século, o movimento ambiental que começou com manifestações em campus universitários americanos transformou-se num evento cívico que mobiliza cerca de mil milhões de pessoas em 193 países. Este ano, o contexto geopolítico deu à data uma intensidade acrescida: a crise energética global – com o impacto da guerra no Irão a fazer subir os preços do petróleo para máximos históricos – tornou a mensagem da transição para as renováveis não apenas uma questão ambiental, mas uma questão de bolso de cada família.
O slogan deste ano é, ao mesmo tempo, uma afirmação e um desafio. “O nosso poder” refere-se à energia renovável – solar, eólica, hídrica – mas também ao poder das comunidades para exigir mudança e para construí-la. Num contexto em que as negociações multilaterais estão bloqueadas por interesses petroleiros, esta ideia de agência cívica e local ganhou particular relevância.
A diplomacia do cessar-fogo e os mercados energéticos: onde está o petróleo?
Uma atualização rápida sobre a crise energética, que continua a dominar os mercados globais. As negociações em Islamabad entre os Estados Unidos e o Irão arrancaram com cautela: o Paquistão recebeu as duas delegações em separado, e o Estreito de Ormuz continua muito longe do volume de tráfego normal. Segundo dados de rastreio de navios, o número de petroleiros a transitar pela passagem estratégica continua muito abaixo dos níveis pré-guerra. O Irão mantém a cobrança de taxas elevadas por navio – mais de um milhão de dólares -, o que os Estados Unidos e os seus aliados consideram inaceitável, sobretudo se parte desse dinheiro for para os Guardiões da Revolução Islâmica.
Os preços do petróleo mantêm-se em torno dos 95 a 100 dólares por barril – muito acima dos 70 dólares anteriores à guerra. O que este episódio deixou claro, de forma dolorosa, é que a vulnerabilidade energética da Europa é estrutural e não se resolve com acordos diplomáticos: requer, acima de tudo, a aceleração da produção doméstica de energia limpa.
Emissões europeias caíram 40% desde 1990 – mas não é suficiente
Esta semana, a 17 de abril, a Agência Europeia do Ambiente divulgou o inventário oficial de gases com efeito de estufa da União Europeia, enviado às Nações Unidas. A notícia é boa, mas vem com asteriscos importantes.
As emissões de gases com efeito de estufa da União Europeia caíram mais 3 por cento entre 2023 e 2024, o que eleva a redução total acumulada desde 1990 para 40 por cento. É um número impressionante, que representa décadas de políticas climáticas, de expansão das renováveis, de melhoria da eficiência energética e de transformações económicas estruturais. “Quase todos os Estados-Membros contribuíram para as reduções de emissões“, refere o relatório da Agência Europeia do Ambiente.
Mas há uma ressalva que vale a pena ter em mente: para cumprir a meta de redução de 55 por cento até 2030 – que é o compromisso legal da Europa ao abrigo do Pacto Ecológico Europeu -, o ritmo de descida das emissões terá de acelerar significativamente nos próximos quatro anos. A distância entre os 40 por cento de hoje e os 55 por cento de 2030 é mais curta do que parece no calendário.
O caso português merece atenção particular. O relatório indica que, entre 2023 e 2024, Portugal teve uma contribuição modesta, com uma redução de emissões de apenas 1 por cento. De 1990 a 2024, Portugal reduziu cerca de 19 por cento – substancialmente abaixo da média europeia. E, separadamente, o Público reportou esta semana que Portugal aumentou as emissões em 2025, como consequência direta do apagão de abril do ano passado: foi necessário usar mais gás natural para dar estabilidade ao sistema elétrico durante o período de recuperação. O Ministério do Ambiente garante que se trata de “um choque excecional e temporário“, e que a tendência de descarbonização se mantém.
Energias renováveis europeias batem recordes – mesmo em plena crise
Há, no meio desta crise, um sinal de progresso estrutural que merece ser sublinhado. A Ambiente Online noticiou a 21 de abril que a produção de eletricidade renovável na Europa atingiu um máximo histórico no arranque de 2026 – e que a energia solar está a liderar o crescimento da oferta mundial.
Em Portugal, os dados são ainda mais expressivos. Nos primeiros três meses de 2026, as renováveis responderam por 80,4 por cento de todo o consumo elétrico nacional. Em janeiro, a produção renovável permitiu, segundo a APREN – a Associação Portuguesa de Energias Renováveis -, uma poupança estimada de 703 milhões de euros face ao custo equivalente em gás. Este número ganhou uma dimensão nova quando se coloca ao lado dos preços do gás na Europa, que chegaram a disparar mais de 60 por cento desde o início da guerra no Irão. Portugal, com o seu sistema maioritariamente renovável, amorteceu o choque de forma que países mais dependentes do gás simplesmente não conseguiram.
A mensagem é simples, mas poderosa: a transição energética não é apenas uma aposta ambiental. É uma aposta de soberania e resiliência económica. E esta crise, paradoxalmente, é talvez o melhor argumento que alguma vez existiu para acelerá-la.
Pro~Rios: o plano para devolver 1.500 quilómetros de rios à natureza
E chegamos a Portugal. A notícia mais importante desta semana no plano ambiental nacional chegou logo no primeiro dia do período que cobrimos: a 17 de abril, o Governo abriu a consulta pública do Pro~Rios – o Programa para o Restauro Ecológico de Rios e Ribeiras de Portugal Continental.
O Pro~Rios é um programa que existe em esboço desde janeiro de 2026, quando a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, o apresentou publicamente, numa altura em que Portugal estava a sofrer os efeitos devastadores de uma série de tempestades invernais – Kristin, Leonardo e Marta – que causaram cheias, inundações e deslizamentos em várias regiões do país. Agora, o programa entra na fase de participação pública: até ao dia 17 de maio, qualquer cidadão ou entidade pode submeter contributos no portal Participa.pt.
Os números do programa são ambiciosos. Até 2030, estão previstos 180 milhões de euros de investimento para recuperar mais de 1.500 quilómetros de linhas de água em Portugal continental – mais do dobro do ritmo das intervenções fluviais entre 2017 e 2025, que foi de cerca de 233 quilómetros por ano. Para o imediato, em 2026, estão já alocados 55 milhões de euros para intervir em 570 quilómetros, de norte a sul do país.
O que é que o programa faz concretamente? Renaturaliza leitos e margens, remove barreiras artificiais que cortam as rotas migratórias dos peixes, controla e erradica espécies invasoras, e reforça a monitorização dos ecossistemas fluviais. Entre os objetivos está também o controlo de cheias e a redução de riscos para as populações – um objetivo que ganhou urgência renovada depois dos episódios de inundações do início do ano.
O Tejo e a região Oeste concentram o maior volume de investimento planeado, com 85,8 milhões de euros destinados a 50 intervenções. Seguem-se o Douro, o Cávado e o Vouga. O programa está integrado na estratégia Água que Une e alinhado com o Plano Nacional de Restauro da Natureza – dois documentos que têm sofrido críticas de organizações ambientais por terem ficado aquém das expectativas. O Pro~Rios é, para muitos, uma oportunidade de dar substância a compromissos que até agora existiam mais no papel do que na prática.
Vale a pena participar na consulta pública. Os rios portugueses transportam a história e a biodiversidade do território – e a forma como os tratarmos nas próximas décadas vai determinar muito do que somos enquanto país.
Portugal, o apagão e as emissões de 2025: o custo invisível de uma crise
Uma nota sobre uma história que circulou esta semana e merece ser contextualizada com cuidado. O Público reportou que Portugal aumentou as emissões de gases com efeito de estufa em 2025, por causa do apagão de 28 de abril do ano passado. A explicação técnica é esta: para estabilizar o sistema elétrico durante o período de recuperação pós-apagão, Portugal teve de recorrer a mais gás natural do que o habitual.
O Ministério do Ambiente garante que se trata de um “choque excecional e temporário“, e que a trajetória de descarbonização se mantém alinhada com os objetivos do Plano Nacional de Energia e Clima para 2030. Os dados apontam para uma redução do peso do gás natural já em 2026, com a normalização do sistema e o reforço das condições de resiliência.
Esta história tem, porém, um ensinamento mais profundo: a forma como os sistemas elétricos respondem a crises – sejam apagões, sejam choques geopolíticos – depende da diversidade e da resiliência da sua base de geração. Um sistema com 80 por cento de renováveis é muito mais resistente do que um sistema dependente de combustíveis importados. Portugal percebeu isso, e é por isso que o investimento na capacidade de armazenamento de baterias – que passa de 13 para 750 megawatts – é tão estrategicamente importante.
Antes de encerrar, uma reflexão sobre a semana e sobre o contexto mais amplo em que nos encontramos.
Esta foi uma semana marcada por uma tensão que é, de certa forma, a tensão central do nosso tempo: entre a urgência do que precisa de mudar e a lentidão com que os sistemas políticos e económicos respondem. Em Santa Marta, 60 países encontraram-se para desenhar o fim dos combustíveis fósseis, mas os países que mais combustíveis produzem não estiveram presentes. Na Europa, as emissões caíram 40 por cento desde 1990, mas o ritmo precisa de mais do que duplicar para cumprir os compromissos de 2030. Em Portugal, arrancou a consulta pública de um programa para devolver vida aos rios, mas os ambientalistas lembram que programas parecidos têm ficado aquém das metas.
E, no entanto, há razão para não desistir da esperança. Em 2025, pela primeira vez na história, as renováveis produziram mais eletricidade do que os combustíveis fósseis na União Europeia. Portugal amorteceu a maior crise energética da história moderna com a força do sol, do vento e da água. E uma conferência em Santa Marta reuniu países que representam 42 biliões de dólares de PIB em torno de uma ideia que há dez anos era considerada radical: o fim dos combustíveis fósseis não é apenas possível, é necessário, urgente, e economicamente racional.
O Dia da Terra lembra-nos que a transformação começa com o que cada um de nós faz, e com o que exigimos aos que nos governam. Esta semana, houve boas razões para exigir mais. E algumas razões para acreditar que está a acontecer.
Chegamos ao fim desta edição do Pegada Semanal. Obrigada por me acompanharem numa semana tão densa e tão importante.
Se este episódio vos fez pensar – sobre Santa Marta, sobre os nossos rios, sobre o que está em jogo no Estreito de Ormuz e nas decisões energéticas dos próximos anos – então cumpriu o seu propósito. Partilhem com quem achem que devia ouvir.
Eu sou a Alexandra Costa. Até para a semana.

