#15 Pegada Semanal – 24 de abril a 8 de maio

Bem-vindos a mais uma edição do Pegada Semanal. Desta vez, vamos cobrir duas semanas de notícias – de 24 de abril a 8 de maio – num único episodio.

Por onde começar? Por uma conferência que aconteceu em Santa Marta, na Colômbia, e que pode ter mudado o curso da diplomacia climática mundial. Por uma descoberta científica perturbadora sobre os microplásticos que respiramos. Na Europa, a temporada de incêndios florestais está a chegar – e pela primeira vez, há uma estratégia europeia pensada para enfrentar essa ameaça de forma integrada, antes de ela começar. E em Portugal, a preparação para essa mesma época critica, está a ser feita com uma seriedade que o país raramente demonstrou.

São duas semanas com muito para contar. Vamos a isso.

Santa Marta: o que ficou da conferência que quis acabar com os combustíveis fosseis

A conferência de Santa Marta terminou no dia 29 de abril, e vale a pena fazer o balanço de tudo o que ficou. Foram cinco dias de trabalho na cidade colombiana, com representantes de 57 países – representando cerca de um terço da economia mundial – a debater algo que durante décadas foi considerado demasiado politicamente sensível para dizer em voz alta nos corredores da diplomacia climática: que é preciso acabar com o petróleo, o gás e o carvão. Não gerir as suas emissões. Acabar com eles.

A conferência foi coorganizada pela Colômbia e pelos Países Baixos, e nasceu diretamente do impasse da COP30, em Belém, em novembro passado, onde os petroestados bloquearam qualquer referência a um Mapa do Caminho para fora dos fosseis. A ideia foi criar um espaço fora da UNFCCC – a convenção das Nações Unidas sobre o clima – onde países dispostos a ir mais longe pudessem trabalhar sem o veto de quem não quer avançar.

O resultado foi descrito por vários analistas como uma mudança de paradigma: da fixação de ambições para a gestão ativa do declínio dos combustíveis fosseis. Foram estabelecidos três grupos de trabalho para levar o processo a frente: o desenvolvimento de roteiros nacionais e regionais de saída dos fosseis; mecanismos financeiros e fiscais para apoiar a transição; e a redução de emissões de metano. Foi também criado um Painel Científico para a Transição Energética – um corpo complementar ao IPCC, com mandato específico para analisar o abandono dos fosseis.

A segunda conferência desta série ficou confirmada: em 2027, será coorganizada por Tuvalu e pela Irlanda – uma aliança simbólica que une um pequeno Estado insular do Pacifico, em risco de desaparecer literalmente debaixo de água, com um país europeu cada vez mais comprometido com a descarbonização.

Quem ficou de fora diz tanto quanto quem esteve presente. Os Estados Unidos não participaram. A Arabia Saudita, não. A Rússia, não. Mas a conferência de Santa Marta prova que é possível construir momentum político fora das negociações formais – e que 57 países, quando suficientemente motivados, conseguem criar uma arquitetura de cooperação alternativa que complementa sem substituir os processos da UNFCCC.

A ministra do Ambiente da Colômbia, Irene Velez Torres, resumiu bem o espírito do encontro ao dizer que “a urgência climática já não pode mais ser ignorada” e que a conferência representava uma resposta coletiva a esse imperativo. O presidente colombiano Gustavo Petro foi ainda mais direto ao alertar que o mundo podia “chegar a um ponto de não retorno” sem a floresta amazónica a regular o clima do planeta.

O relatório produzido em Santa Marta vai ser formalmente entregue à presidência brasileira da COP, que o Brasil mantém até novembro de 2026, e servirá de contributo para as negociações da COP31 na Turquia.

Os microplásticos que respiramos vêm de onde menos esperávamos

Enquanto a diplomacia climática avançava em Santa Marta, a 24 de abril chegou uma descoberta científica que muda aquilo que pensávamos saber sobre a poluição por microplásticos. Um estudo da Universidade de Viena, publicado na revista Nature, revelou que as fontes terrestres emitem mais de vinte vezes mais partículas de microplásticos para a atmosfera do que os oceanos – contrariando a crença anterior de que o mar era o principal emissor de plásticos em suspensão no ar.

A investigação foi liderada por Andreas Stohl, que compilou 2.782 medições em todo o mundo para construir uma imagem global sem precedentes da origem dos microplásticos atmosféricos. A conclusão principal e clara: a esmagadora maioria das partículas que entram na atmosfera vêm de fontes terrestres – abraso de pneus, fibras têxteis, resíduos plásticos fragmentados e superfícies contaminadas que libertam partículas de volta para o ar.

Há uma nuance que os investigadores não escondem: em termos de massa, o oceano contribui mais do que a terra, porque as partículas marinhas tendem a ser maiores e mais pesadas. Mas em número de partículas – que é o que importa para a saúde humana, porque é o que inalamos – a terra supera o oceano por um fator de mais de vinte para um.

A implicação prática desta descoberta é substancial: se quisermos reduzir a exposição das pessoas aos microplásticos atmosféricos, as soluções não estão no mar – estão nas cidades, nas estradas, nas fábricas e nos aterros. Os pneus dos carros, os tecidos sintéticos das roupas, as embalagens plásticas que se desfazem ao sol: são estas as fontes prioritárias a controlar. E isso, ao contrário da poluição oceânica, está muito mais próximo do nosso raio de ação.

O tratado global dos plásticos: um novo presidente, o mesmo impasse

A proposta de um tratado global juridicamente vinculativo sobre poluição plástica continua a ser uma das grandes esperanças – e uma das grandes frustrações – do multilateralismo ambiental. Depois de duas sessões de negociação falhadas, em Busan e em Genebra em 2025, o processo ganhou um novo presidente em fevereiro de 2026: Julio Cordano, do Chile, foi eleito para liderar o Comité Intergovernamental de Negociação.

Mas a realidade que chegou até nós neste período é que, apesar da mudança de liderança, o impasse estrutural persiste. Os países produtores de petróleo continuam a bloquear qualquer referência a limites de produção de plástico, insistindo que o foco deve ser a gestão de resíduos e a reciclagem – ou seja, o fim do ciclo – e não a redução da produção – o início do ciclo. Esta é uma batalha familiar a quem acompanhou as negociações sobre combustíveis fosseis nas COPs: o mesmo lobby, a mesma tática de atraso, o mesmo argumento de que reduzir a produção é economicamente inaceitável.

A próxima sessão de negociações – a INC-5.4 – está prevista para o segundo semestre de 2026. Há quem acredite que o novo presidente tem mais margem para conduzir o processo de forma mais inclusiva. Há quem duvide que qualquer mudança de liderança seja suficiente para ultrapassar as divisões fundamentais entre os estados. O que é certo é que a ciência não espera: a poluição plástica continua a crescer, os microplásticos encontram-se em tudo desde o sangue humano à neve do Evereste, e o planeta não tem o luxo de negociações indeterminadas.

A Europa prepara-se para a pior época de incêndios florestais: a estratégia que chegou tarde, mas chegou

Com a primavera a avançar e as temperaturas a subir, a Europa está a entrar no período que precede a época crítica de incêndios florestais – que em Portugal é tipicamente entre 15 de maio e 15 de outubro. E este ano, pela primeira vez, há uma estratégia europeia integrada desenhada especificamente para enfrentar esta ameaça estrutural.

A Comissão Europeia adotou, a 25 de março, a Estratégia Integrada de Gestão do Risco de Incêndios Florestais – um documento estratégico que abrange todo o ciclo da catástrofe: prevenção, preparação, resposta e recuperação. O contexto é urgente: em 2025, a Europa registou a pior época de incêndios florestais de que há registo, com mais de um milhão de hectares ardidos – uma área equivalente ao Chipre. Em Portugal e Espanha, 22 grandes incêndios durante a vaga de calor de agosto destruíram 460 mil hectares – quase metade da área total ardida em toda a UE.

A estratégia europeia tem três grandes pilares. No plano da prevenção, aposta na restauração da natureza e na criação de paisagens resistentes ao fogo – ecossistemas saudáveis são naturalmente mais resilientes. No plano da resposta, reforça a frota rescEU: foram adquiridos 12 aviões de combate a incêndios e 5 helicópteros, que serão distribuídos por seis países, incluindo Portugal e Espanha. Vai ser criado um hub europeu de combate a incêndios no Chipre, com funções operacionais e de formação. E está prevista a criação de um painel de cidadãos europeus dedicado ao tema – um sinal de que a Comissão quer transformar a prevenção numa responsabilidade partilhada, não apenas governamental.

A vice-presidente executiva Roxana Minzatu foi direta: “A prevenção, a preparação e a solidariedade devem andar de mãos dadas se quisermos salvar vidas e reforçar a resiliência da Europa”. E a comissaria para o Ambiente, Jessika Roswall, acrescentou que a resiliência económica europeia está diretamente ligada à saúde dos ecossistemas: “Investindo na prevenção e na restauração da natureza, podemos evitar prejuízos económicos no valor de milhares de milhões de euros”.

Há, no entanto, uma nota critica que vale a pena fazer. Esta estratégia não cria obrigações legais diretas para os Estados-Membros – é uma comunicação política, não uma diretiva. Funciona como orientação e como base para futuras iniciativas legislativas. O que significa que a velocidade de implementação depende, em grande medida, da vontade política de cada país.

A simplificação ambiental que preocupa as organizações ambientais

Uma nota sobre um processo legislativo que tem passado quase despercebido ao grande público, mas que preocupa seriamente as organizações ambientais europeias: o chamado ‘Omnibus Ambiental’ da Comissão Europeia.

Em março, a Comissão lançou um pacote de simplificação que propõe aligeirar requisitos em vários domínios ambientais: baterias sustentáveis, emissões industriais, gestão de resíduos, e instalações de média combustão. O Bureau Europeu do Ambiente – a maior rede de ONG ambientais da Europa – tem levantado serias preocupações, argumentando que o argumento da simplificação está a ser usado para enfraquecer proteções ambientais conquistadas ao longo de décadas.

O período de consulta publica desta legislação decorreu até 7 de maio. É um dossier que vamos continuar a acompanhar, porque o que está em jogo é a forma como a Europa equilibra competitividade económica com proteção ambiental – uma tensão que vai dominar o debate político europeu nos próximos anos.

Portugal face ao verão: a preparação mais séria de sempre para os incêndios?Em Portugal, as últimas duas semanas foram marcadas por um esforço de preparação para a época crítica de incêndios que, segundo vários especialistas, não tem precedentes em termos de coordenação interinstitucional.

A 9 de abril, o Governo criou o Comando Integrado de Prevenção e Operações – o CIPO -, uma estrutura interministerial que reúne a ANEPC na coordenação operacional, o ICNF na orientação técnica e gestão florestal, a AGIF na monitorização e avaliação, a GNR na fiscalização, e as Forcas Armadas no apoio operacional e logístico. A sua criação foi justificada pelo cenário excecional que o país enfrenta: as tempestades Kristin, Leonardo e Marta, no início do ano, derrubaram um volume enorme de árvores, criando uma acumulação de combustível florestal de alto risco que torna 2026 um ano potencialmente muito perigoso.

O contexto não podia ser mais sério. Segundo dados do ICNF, em 2025 arderam em Portugal mais de 250 mil hectares – um dos três piores anos de sempre. Os incêndios concentraram-se nas regiões Norte e Centro, onde a floresta homogénea e mal gerida é mais abundante. E as tempestades de início de 2026 deixaram para trás o equivalente a uma imensa pilha de lenha seca espalhada por vastas áreas do território.

O Governo está a implementar um conjunto de medidas que inclui fogo controlado em 10 mil hectares de áreas prioritárias; a criação de faixas de gestão de combustível em 75 por cento da rede primária até ao final de 2026; e um investimento superior a 50 milhões de euros em maquinaria e equipamento para municípios e comunidades intermunicipais. O ICNF tem sublinhado que “a prevenção não pode ser apenas uma intenção – e uma política publica de investimento continuado e presença no terreno”.

Há motivos para algum otimismo cauteloso. A estrutura montada este ano é mais abrangente e mais bem coordenada do que em anos anteriores. Mas há também motivos para não baixar a guarda: a combinação de floresta acumulada, temperatura a subida e possíveis secas prolongadas no verão pode criar condições para mega incêndios. O Médio Tejo, em particular, foi identificado como uma das zonas de maior risco, com o comandante sub-regional de proteção civil a alertar para um verão “potencialmente problemático”.

A mensagem que fica é esta: a prevenção é o único caminho. Como disse o diretor regional do Centro do ICNF, “quando chegarmos à época critica, o sucesso não depende apenas do combate daquela altura, depende em grande parte do trabalho que foi feito antes”.Em Portugal, as últimas duas semanas foram marcadas por um esforço de preparação para a época crítica de incêndios que, segundo vários especialistas, não tem precedentes em termos de coordenação interinstitucional.

A 9 de abril, o Governo criou o Comando Integrado de Prevenção e Operações – o CIPO -, uma estrutura interministerial que reúne a ANEPC na coordenação operacional, o ICNF na orientação técnica e gestão florestal, a AGIF na monitorização e avaliação, a GNR na fiscalização, e as Forcas Armadas no apoio operacional e logístico. A sua criação foi justificada pelo cenário excecional que o país enfrenta: as tempestades Kristin, Leonardo e Marta, no início do ano, derrubaram um volume enorme de arvores, criando uma acumulação de combustível florestal de alto risco que torna 2026 um ano potencialmente muito perigoso.

O contexto não podia ser mais sério. Segundo dados do ICNF, em 2025 arderam em Portugal mais de 250 mil hectares – um dos três piores anos de sempre. Os incêndios concentraram-se nas regiões Norte e Centro, onde a floresta homogénea e mal gerida é mais abundante. E as tempestades de início de 2026 deixaram para trás o equivalente a uma imensa pilha de lenha seca espalhada por vastas áreas do território.

O Governo está a implementar um conjunto de medidas que inclui fogo controlado em 10 mil hectares de áreas prioritárias; a criação de faixas de gestão de combustível em 75 por cento da rede primária até ao final de 2026; e um investimento superior a 50 milhões de euros em maquinaria e equipamento para municípios e comunidades intermunicipais. O ICNF tem sublinhado que “a prevenção não pode ser apenas uma intenção – e uma política publica de investimento continuado e presença no terreno”.

Há motivos para algum otimismo cauteloso. A estrutura montada este ano é mais abrangente e mais bem coordenada do que em anos anteriores. Mas há também motivos para não baixar a guarda: a combinação de floresta acumulada, temperatura em subida e possíveis secas prolongadas no verão pode criar condições para megaincendios. O Médio Tejo, em particular, foi identificado como uma das zonas de maior risco, com o comandante sub-regional de proteção civil a alertar para um verão “potencialmente problemático”.

A mensagem que fica é esta: a prevenção é o único caminho. Como disse o diretor regional do Centro do ICNF, “quando chegarmos à época critica, o sucesso não depende apenas do combate daquela altura, depende em grande parte do trabalho que foi feito antes”.

O tratado dos plásticos e o ‘Volta’: duas faces da mesma batalha

Uma breve nota de ligação entre o global e o local, que nos parece pertinente nesta edição.

Esta semana, enquanto o mundo debatia o impasse do tratado global dos plásticos, em Portugal o sistema ‘Volta’ completou o seu primeiro mês de funcionamento. Os primeiros dados disponíveis sobre o Sistema de Deposito e Reembolso são encorajadores: os pontos de recolha estão a funcionar nos supermercados, os consumidores estão a adaptar-se ao novo hábito, e a adesão tem sido descrita pelos operadores como “acima do esperado” para uma primeira fase.

Estes dois factos – o impasse global e o progresso local – não são contraditórios. São complementares. O tratado global dos plásticos, se e quando for aprovado, vai criar um quadro jurídico para toda a indústria. Mas a mudança de hábitos dos consumidores, as infraestruturas de recolha, os sistemas de deposito e reembolso – tudo isso tem de ser construído localmente, pais a pais, cidade a cidade, supermercado a supermercado.

Portugal avançou. O mundo ainda está a tentar decidir se quer avançar. E essa é uma tensão que reconhecemos bem de outros domínios da sustentabilidade.

Antes de encerrar, uma reflexão sobre o fio condutor destas duas semanas.

Há um tema que atravessa transversalmente todas as histórias que contamos nesta edição: a distância entre aquilo que sabemos que é necessário fazer e aquilo que efetivamente fazemos. Sabemos que os microplásticos vêm da terra – agora temos de agir sobre as fontes terrestres. Sabemos que os incêndios florestais são cada vez piores – e por isso estamos finalmente a construir uma estratégia europeia para os prevenir. Sabemos que os combustíveis fosseis estão a destabilizar o clima e a economia global – e por isso 57 países foram a Santa Marta para começar a desenhar a saída.

O que impressiona não é a magnitude dos problemas – esses já eram conhecidos. O que impressiona é que, em todas estas histórias, há uma sensação de que algo se moveu. Não o suficiente, nunca o suficiente. Mas algo.

Santa Marta não é um tratado. É um sinal de que a conversa mudou. A estratégia europeia de incêndios não resolve o problema do abandono rural e das monoculturas. Mas é um passo para enfrentar o risco de forma sistémica. O ‘Volta’ não elimina o plástico das nossas vidas. Mas muda o incentivo de quem compra uma lata de refrigerante.

E isso – a mudança de incentivos, a mudança de conversa, a mudança de hábitos – é o que precede sempre a mudança de realidade.

E assim chegamos ao fim desta edição do Pegada Semanal. Duas semanas, muitas histórias, um fio condutor: o mundo está a mover-se – mais depressa nalguns lugares, mais lentamente noutros, mas a mover-se.

Se este episodio vos fez pensar – sobre Santa Marta, sobre os plásticos que respiramos, sobre as florestas que podem arder este verão, sobre a lata que já sabem onde devolver – então cumpriu o seu propósito.

Partilhem com quem acham que devia ouvir. Até para a semana.

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